Quando Lennon, Yoko e alguns colaboradores abandonam o apartamento à noite, já depois de Leibovitz se retirar, o músico é abordado por alguns fãs, entre os quais Mark David Chapman. Com um exemplar novinho em folha de Double Pleasure nas mãos, pede-lhe um autógrafo. «Claro», assente Lennon.
Chapman confessará à polícia estar tão nervoso que mal conseguiu articular uma palavra, teve de ser «arrastado» pelos outros para conseguir sequer aproximar-se.

John Lennon dá um autógrafo ao seu assassino, Mark David Chapman
O momento fica registado pela câmara fotográfica de outro anónimo caçador de autógrafos no local: Lennon em primeiro plano, escrevendo «John Lennon, December 1980» no disco, Chapman mais atrás, sinistro, expectante.
As duas últimas fotografias que se conhecem de John Lennon foram tiradas com a mulher da sua vida e o homem que o matou.
John Lennon está bem-disposto naquela noite. Depois de devolver o disco, pergunta, solícito, «É só isso que queres?». Yoko já está no carro, à espera. «Sim, obrigado, é isso», consegue responder. Lennon despede-se, vira costas e entra no carro. Chapman fica especado na rua, o álbum na mão e a pistola de calibre 38 escondida no bolso.
Ao fotógrafo amador que o fotografou com o ídolo, oferece 50 dólares por uma cópia se a entregar no dia seguinte. Não o mata nesta ocasião porque se sentiu «tocado» pela sua «sinceridade. Mas uma parte de mim perguntava ‘Não disparou porquê?’. E eu respondia, Não podia matá-lo assim, queria primeiro o seu autógrafo.» Todos se retiram – apenas Chapman se deixa ficar. Secretamente, confessou à polícia, reza a Deus para o impedir e ao Diabo para lhe dar nova oportunidade.
Finalmente, às dez para as onze, John e Yoko regressam ao apartamento. A oportunidade é concedida e as vozes diabólicas na sua cabeça regozijam. «Ele passou por mim outra vez e foi então que as ouvi outra vez, vezes sem conta, sempre a dizer ‘fá-lo, fá-lo, fá-lo’».
«Senhor Lennon!» – grita, sacando da pistola. Ao aperceber-se do perigo, o músico vira costas e tenta fugir. Chapman dispara cinco tiros. Quatro acertam o alvo. Ouve ainda as últimas palavras de Lennon – «I’m shot!» -, observa-o a subir as escadas e finalmente cair inanimado. Deita fora a arma, deixa-se ficar por ali, tirando do bolso um livro pelo qual está obcecado, The Catcher in the Rye, do americano J. D. Salinger, e tenta ler umas páginas. Quando os polícias chegam ao local do crime, entrega-se de forma voluntária: «Peço-vos desculpa pelo incómodo que causei.»
A 14 de Dezembro, uma multidão estimada em cerca de 100 mil pessoas reúne-se em Nova Iorque para uma derradeira homenagem ao ex-Beatle e activista da Paz. Um dos participantes na vigília nova-iorquina, John Hinckley, está devastado pelos acontecimentos. Em Janeiro, grava uma cassete: «Só quero dizer adeus ao velho ano, que não foi nada a não ser a mais total das misérias, a morte total. John Lennon está morto, o mundo acabou, esqueçam.»
«Qualquer coisa que eu possa fazer em 1981», conclui, «será apenas em função da Jodie Foster. Digam ao mundo o quanto eu a adoro e idolatro».
Três meses depois, a 30 de Março, John Hinckley tornar-se-á mundialmente conhecido pela tentativa de assassinato do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Antes de rumar a Washington para matar Reagan, escreve mais uma carta à actriz Jodie Foster: «Nos últimos sete meses mandei-te dúzias de poemas, cartas e mensagens de amor na esperança de que pudesses desenvolver algum interesse por mim. Embora tenhamos falado ao telefone, nunca tive coragem de simplesmente apresentar-me em pessoa. (…) A razão pela qual vou à frente com esta tentativa agora é porque não posso esperar mais pela oportunidade de te impressionar.»

Jodie Foster: «Demasiado bonita para matar»
Jodie Foster tinha feito o papel de uma prostituta de 12 anos no filme de Martin Scorcese, Taxi Driver. O filme conta a história de um solitário taxista da noite, Travis Bickle, interpretado por Robert de Niro. Travis, anti-social e dominado por insónias e ressentimentos, vai tomando contacto com o lixo e a miséria das noites nova-iorquinas. Depois de falhar o plano de assassinar um candidato à presidência dos Estados Unidos, resolve «libertar» a personagem de Jodie Foster das garras do chulo. Armado até aos dentes, mata o chulo e todos os clientes que lhe aparecem à frente. Num volte-face da história, porém, Travis é visto como um herói por ter «salvo» a vida da jovem.
Apesar da crítica positiva que recebeu pelo seu desempenho, a jovem actriz de 18 anos optou por continuar os estudos na Universidade de Yale. O esquizofrénico Hinckley desenvolveu uma obsessão pelo filme (viu-o dezenas de vezes) e identificava-se a tal ponto com o personagem de Robert de Niro que tinha planos de também «libertar» Jodie Foster do jugo universitário. Finalmente, perante as sucessivas recusas de Foster em falar com ele mesmo por telefone, resolveu impressioná-la disparando sobre Reagan.
Jodie Foster nunca falou do assunto publicamente, em 1981 ou depois. Bastava que um jornalista mencionasse o nome de Hinckley para ela abandonar a entrevista. Falou apenas uma vez na qualidade de testemunha no julgamento de Hinckley. Contou o assédio de que fora vítima e afirmou ao juiz que nunca tivera qualquer tipo de relação com o arguido.
Os crimes cometidos e o depoimento dos pais embaraçados e desgostosos não foram suficientes para perturbar Hinckley no tribunal. A rejeição categórica de Jodie Foster, contudo, deixou-o descontrolado. Lançou-lhe uma caneta à cara e gritou «Hei-de apanhar-te, Foster». Hinckley foi considerado inimputável.
Jodie Foster pagou caro esta exposição: durante uma actuação numa peça de teatro da Universidade de Yale, notou a presença de um homem de barba e de olhar bizarro, inexpressivo. Soube mais tarde pela polícia que esse homem aparecera com a intenção de a assassinar. À última hora, porém, mudou de ideias: «É demasiado bonita para ser morta», afirmou.
Mais sobre o destino de John Hinckley Uma extensa reportagem sobre a vida de Hinckley, a sua obsessão por Taxi Driver e pela actriz Jodie Foster, as circunstâncias em que planeou o assassinato de Reagan, a relação com os pais. Escrito em inglês. Link
O depoimento de Jodie Foster Foster acabou por escrever uma crónica onde contou tudo aquilo que passou à conta de Hinckley. Foi publicada em Dezembro de 1982 na revista Esquire sob o título Why Me? e a versão integral (em inglês) pode ser lida aqui.
O homem que matou John Lennon Sobre a mente psicótica de Chapman, a história da sua vida, o livro The Catcher in the Rye com cuja personagem principal se identificava, aconselho-vos a ler o artigo Mark David Chapman, the man who killed John Lennon, baseado nas duas entrevistas áudio que o assassino concedeu na prisão. Link
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5 comentários
Simplesmente brilhante. Como sempre.
Muito bom este post.
Ora essa, obrigado!
Como disse o Gamito, simplesmente brilhante
Pois, eu realmente escrevi uma amostra desta história. Complementadíssimo!