→ 06/02/2011 @17:51

O quarto 237 de Diane Arbus

Hello Danny. Come and play with us.

Come and play with us Danny.

Forever... And ever... And ever.

Stanley Kubrick começou a carreira como fotógrafo (muitas vezes o ritmo é todo marcado pela simples montagem de planos estáticos), mas esta famosa cena do clássico The Shining – sobretudo o plano das gémeas – foi directamente inspirada na igualmente célebre foto de Diane Arbus, Identical Twins, Roselle, New Jersey, 1967.

Come and play with us, Diane

Identical Twins, Roselle, New Jersey, 1967

Child with a toy hand grenade in Central Park, N.Y.C. 1962

Blaze Starr in her living room, July 1964

Diane Arbus fotografava aberrações – freaks, em inglês.

Não fotografava pessoas bonitas. Não se preocupava em torná-las apresentáveis. Não procurava fornecer aos rostos que captava qualquer coerência visual. Passava por cima disso tudo e revirava as pessoas de dentro para fora.

Quando observamos aqueles rostos grotescos que se entregam à câmara de Arbus, só podemos imaginar que a história de cada uma daquelas fotos começou muito antes: a imagem captada já é apenas o final dessa história.

Diane era filha de uma família de judeus com dinheiro, mas preferia a companhia daquelas pessoas. Foi casada com um fotógrafo, Alan Arbus, e serviu-o como assistente. O objectivo de Alen era dar ainda mais «glamour» e beleza às pessoas que fotografava. Quando se divorciou, Diane seguiu o caminho oposto.

Não havia distância ou repulsa na sua câmara. As suas «aberrações» eram pessoas para as quais muitos outros evitariam olhar. Diane deu-lhes um álbum de fotografias. Um sentido de comunidade ou de família.

«Aberrações, fotografei-as muito» – escreveu Arbus. «Adorava-as. Fizeram-me sentir uma mistura de vergonha e temor. Há uma qualidade lendária em relação às aberrações. Como aquela pessoa no conto de fadas que te manda parar e exige que respondas a uma adivinha ou resolvas um enigma. A maioria das pessoas vive no pavor de passar por experiências traumáticas. As aberrações nasceram com esse trauma. Já passaram o teste da vida. São aristocratas.»

Quando fotografava pessoas «normais», como as irmãs Cathleen e Colleen Wade que inspiraram o plano das gémeas de Kubrick, procurava captar-lhes esse espírito «aristocrata»: através da sua máquina fotográfica restabelecia o equilíbrio perdido entre seres humanos que atraem e seres humanos que provocam repulsa ou desagrado.

A ideia talvez não fosse degradá-los, mas criar um momento único e precioso de justiça. Justiça poética.

As aberrações adoravam-na, os sujeitos «normais» sentiam-se incomodados.

O pai das irmãs afirmou que nunca tinha visto uma foto em que elas tivessem ficado tão más. Germaine Greer, escritora e feminista, odiou ser fotografada por Arbus em 1971 e recordou a experiência num artigo para o Guardian: «Percebi que assim que mostrasse sinais de angústia, ela teria a sua fotografia».


Quarto 237

Kubrick transforma a jovem numa aberração engelhada pelos anos, um Come and play with me em versão para adultos, gargalhando como as bruxas dos pesadelos de infância, uma aberração nua e cadavérica com a qual o sexo é perverso e assustador.

A fotógrafa esteve três vezes em campos de nudistas nos anos 60 e fotografou pessoas como aquela jovem e esta velha.

A 26 de Julho de 1971, também entrou na banheira.

A sua disposição sempre fora de extremos, muitos altos e muitos baixos, como a mãe. Os amigos tanto a encontravam desalmadamente optimista como a perdiam no labirinto dos seus próprios e terríveis pesadelos. Ninguém sabe por que razão decidiu que aquele seria o seu último dia.

Diane tomara uma elevada dose de barbitúricos, uma droga anti-depressiva. Enfiou-se na banheira e cortou os pulsos com uma lâmina. O corpo só foi descoberto dois dias depois. Tinha 48 anos e deixou ao mundo uma objectiva que marcaria para sempre a história da Fotografia.

12 comentários

  • 1
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    6 de Fevereiro de 2011 - 18:17 | Link permamente

    Excelente, excelente artigo!
    Grande inclusão com o The Shining, um filme por si só deliciosamente marcante.

    Curiosamente, ando a preparar uma apresentação e vou incidir um bocado nos tracking shots, dando o exemplo do triciclo do Danny.
    :D

    • 2
      com Namoroka 3.6.15pre Namoroka 3.6.15pre em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
      6 de Fevereiro de 2011 - 18:35 | Link permamente

      Boa, quero ler :)

  • 3
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    6 de Fevereiro de 2011 - 19:12 | Link permamente

    Grande, a Diane Arbus. Há um filme biográfico sobre ela no qual a Nicole Kidman interpreta a “fotógrafa de freaks”. Mas é um filme fraquinho. Já agora, há uns tempos deparei-me com uma fotografia das irmãs gémeas já adultas.

    Só por curiosidade também: o Danny do filme chama-se mesmo Danny (apelido Lloyd) e quando filmou o filme não fazia a ideia que se tratava de um filme de terror. Kubrick nunca o deixou ver as filmagens e só uns anos mais tarde é que o viu na íntegra. Foi a única aparição em filme de Danny, já que agora é um respeitável professor de biologia numa universidade americana (e detesta que os alunos lhe perguntem sobre o filme!). :-)

  • 4
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    6 de Fevereiro de 2011 - 19:15 | Link permamente

    Aqui está o Danny Lloyd adulto – http://fromatozowie.files.wordpress.com/2010/08/danny-lloyd-adult.jpg

    • 5
      com Firefox 3.6.13 Firefox 3.6.13 em Windows 7 Windows 7
      7 de Fevereiro de 2011 - 11:06 | Link permamente

      @Victor
      O filme é fracote, sim.
      E já conhecia essa foto do Danny e de como ele embirra que lhe falem do filme.
      A participação dele no Shining dava um post, eu é que tenho tido preguiça para o escrever…

  • 6
    TiagoV
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    6 de Fevereiro de 2011 - 20:17 | Link permamente

    Já que estamos numa de coisas bizarras, para mim o melhor é o mapa (actualizado) de mortes violentas em Portugal do site do já sangrento correio da manhã.

  • 7
    Nuno Fernandes
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    6 de Fevereiro de 2011 - 20:30 | Link permamente

    Excelente artigo! Obrigado.

  • 8
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    7 de Fevereiro de 2011 - 01:57 | Link permamente

    Caro Marco, estou a ver que a foto que contigo partilhei despoletou um aprazível post. Bravo!

    Um abraço

    • 9
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      7 de Fevereiro de 2011 - 11:03 | Link permamente

      Mestre, sim, mas indirectamente.
      Primeiro procurei tentar saber quem seria o autor da foto. Não consegui.
      Depois deparei-me com a foto das gémeas da Diane Arbus ao lado das gémeas do Kubrick e pensei: hum…
      Claro que não há site que não faça a associação entre o plano do Kubrick e a foto da Diane, pelo que prémio da originalidade já não ganho :mrgreen:
      Só decidi levar a associação um bocadinho mais longe e aproveitar para conhecer melhor a Diane.
      Essa foto está reservada para outro post (quando se justificar). :)

  • 10
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    7 de Fevereiro de 2011 - 10:43 | Link permamente

    Belo post e fazer a ligação do Shinning de Kubrick até à fotógrafa Diane Arbus é de mestre. Curiosamente o filme “Fur – …” com a Nikole Kidman a fazer de Diane Arbus é que não me contou tanto sobre a fotógrafa como fizeste com algumas frases.

    • 11
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      7 de Fevereiro de 2011 - 10:59 | Link permamente

      Arm, achei esse filme muito fraquinho.
      Nem tive pachorra para o ver até ao fim. Apesar da bela Nikole!

      • 12
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        7 de Fevereiro de 2011 - 11:43 | Link permamente

        Sobre o “Fur – Retrato imaginário de Diane Arbus”…
        Eu achei-o bizarro também mas não desgostei. É um filme como que saído da alucinação mental da Diane Arbus, onde as personagens são bizarras pois era assim que ela as retinha na ideia (as do sótão então!) . É um filme interessante mas faltou-lhe realmente algo mais… tipo um twist.
        Por exemplo o “Big Fish” de Tim Burton no fim sabe colocar as personagens bizarras que foi desfilando da histórias na sua “realidade”. Parece-me que este “Fur…” teve em falta algo semelhante.