Quando o fotógrafo da Associated Press Slava «Sal» Veder, então com 46 anos, viu a fotografia pela primeira vez, deu-lhe imediatamente um título: «Burst of joy», Explosão de alegria.
A figura central da foto é Lorrie Stirm, 15 anos, correndo para o pai que não vê há seis anos. O pai é o Tenente-Coronel Robert L. Stirm, capturado a 27 de Outubro de 1967 pelos vietnamitas do Norte depois do caça-bombardeiro que pilotava ter sido abatido sobre Hanói.
A 17 de Março de 1973, três dias depois de ter sido libertado, dá-se a reunião na pista da Base Aérea de Travis, na California. A filha Lorrie, já uma mulher adolescente, corre a abraçar o pai como se as leis do Espaço e do Tempo tivessem deixado de existir: por cada metro que percorre, recua um ano. Quando alcança aquele homem fardado já voltou a ser a criança de dez anos que se despedira do pai, para nunca mais o ver.
Slava Veder acaba de capturar o momento único em que o mundo cínico, egocêntrico e calculista se dilui completamente à volta e só o amor incondicional parece existir. A fotografia percorre as capas dos jornais americanos e transforma-se num símbolo de alegria e esperança para uma nação cansada de contar os seus mortos naquela guerra incompreensível e longínqua.
Robert Stirm está de costas para a objectiva; os americanos não lhe vêm o rosto – ele é o soldado desconhecido que regressa do túmulo para a vida. É um milagre. Um milagre americano.
A verdade desta foto manter-se-á intocável, mas sempre faltou o rosto de Robert.
Mais de trinta anos depois da fotografia, já casado e divorciado pela segunda vez, dirá à reportagem publicada em Janeiro de 2005 pela revista Smithsonian, ser o único a olhar a fotografia com um sentimento ambivalente. Todos os filhos têm a foto emoldurada – todos menos ele, que se recusa até a olhá-la. «Por um lado havia os meus filhos, a alegria de os rever. Amava-os a todos e ainda os amo» – recorda. «Mas, por outro, tinha demasiadas coisas com que lidar».
Robert referia-se à mulher. Três dias antes, Loretta enviara-lhe uma mensagem escrita. A esse tipo de mensagens os americanos costumam chamar «Dear John Letter»: diz-se então que uma mulher enviou uma carta ao querido João quando informa, por escrito, que tudo está acabado e deseja o divórcio. Quando é um homem a fazê-lo, chamam-lhe «Dear Jane Letter».
Depois de seis anos de tortura, fome, doença e desespero, Robert é forçado a lidar com uma mulher já apaixonada por outro homem e com a gigantesca tarefa de recuperar o tempo perdido sem os filhos. A filha Lorrie recordará à mesma reportagem essa dificuldade: «O pai tinha perdido tanta coisa. Foi difícil que voltássemos a aceitar a sua autoridade».
Um ano depois desta fotografia ter sido tirada, Loretta já se divorciara e casara outra vez. O caso soube-se e os americanos zangaram-se. No arquivo de cartas do leitor da revista People, 29 de Abril de 1974, a mulher é condenada publicamente por alguns leitores: não só traiu um herói como teve a ousadia de exigir a custódia dos filhos e metade do património do ex-marido – conseguiu-o.
Um ano depois, os dois filhos mais velhos, os que tinham chegado primeiro na corrida captada pelo fotógrafo – Lorrie e Robert Jr. – optaram por viver com o pai.
E é assim a outra história desta foto: um homem está de costas para a objectiva do fotógrafo e, nos anos seguintes, permanecerá de costas para a própria fotografia.































14 comentários
Adoro estas publicações. Obrigado, Marco.
É justamente por causa disto que nunca hei-de perceber quem ama tanto fotografia e que chega ao ponto de fazer desta uma forma de documentar toda uma vida. Prefiro as recordações, os puros momentos nostálgicos, sem sentimentalismos e sem ajudas de momentos impressos. São mais puros, mais objectivos. Sobretudo depois de passarem pelo crivo do tempo.
Uma fotografia não conta histórias, conta momentos.
h.udo
Concordo com o que diz.
Uma foto, tanto pode ser uma flor num vazo, como uma faca num queijo… talvez por isso não goste de me fotografar. A nossa mente “molda” a realidade, para que possamos viver com ela; a foto é uma expressão pornográfica que ora traz o amor, ora a dor…
Ó Marco, é por estas e por outras que sou viciado no teu blog. Para escreveres estás tu, eu só quero agradecer. Há histórias que valem mais que um romance clássico.
E este é um dos posts mais bónitos dos últimos tempos. Parabéns
Já tem edit! Yes!
Mas atenção: a caixa de edit está a funcionar de forma invertida! Bem, que atrofio! Mas giro ao mesmo tempo
LOL!
Que espetáculo.
Dá mesmo prazer de ler e…aprende-se nestas leituras!
Acredito que uma fotografia não conta histórias mas conta historia.
Não conhecia seu site, vi a reportagem através do sedentario e estás de parabéns. Acredito que se os posts sempre forem nesta qualidade vivarei leitor assíduo.
@AllisonAju Obrigado.
Se gostaste deste artigo, talvez também gostes deste:
http://bitaites.org/fotografia/as-varias-mortes-de-kevin-carter
Só eu prestei atenção na pacoteira da moça?
O produto da fotografia pode realmente, por vezes, ser apenas uma maneira introspectiva de reflexão que apenas a nossa mente molda, acredito que essas possibilidades extendem-se não somente a fotografia, mas à outras formas de expressão artística, o que uma peça, um filme, uma música, um monólogo, estas também podem ser a realidade e os sentimentos que moldamos, que expressamos ao vê-las e escutá-las fruto de uma relação com nossas experiências.
Parabéns pelo blog! É o segundo post que leio aqui, sempre vindo de outros blogs, passarei a subscrever.
W.
Cheguei ao seu blog através de um site brasileiro, o sedentário e hiperativo. A minha primeira reação foi de admiração (pela historia mas também pelo texto muito bem escrito). Em seguida olhando os outros textos percebi que o senhor é português, sei que existem pessoas muito inteligentes em Portugal porem a cultura de uma vida me faz sentir ainda um pouco de estranheza toda vez que encontro um. Por fim queria informar que é bem provável que eu apareça mais vezes por aqui e parabéns.
Ruan, a burrice, a inteligência e o preconceito não têm nacionalidade.
Muito bom o texto, parabéns!
Obrigado, Rick