→ 19/03/2011 @0:26

O homem que virou as costas

Quando o fotógrafo da Associated Press Slava «Sal» Veder, então com 46 anos, viu a fotografia pela primeira vez, deu-lhe imediatamente um título: «Burst of joy», Explosão de alegria.

A figura central da foto é Lorrie Stirm, 15 anos, correndo para o pai que não vê há seis anos. O pai é o Tenente-Coronel Robert L. Stirm, capturado a 27 de Outubro de 1967 pelos vietnamitas do Norte depois do caça-bombardeiro que pilotava ter sido abatido sobre Hanói.

A 17 de Março de 1973, três dias depois de ter sido libertado, dá-se a reunião na pista da Base Aérea de Travis, na California. A filha Lorrie, já uma mulher adolescente, corre a abraçar o pai como se as leis do Espaço e do Tempo tivessem deixado de existir: por cada metro que percorre, recua um ano. Quando alcança aquele homem fardado já voltou a ser a criança de dez anos que se despedira do pai, para nunca mais o ver.

Slava Veder acaba de capturar o momento único em que o mundo cínico, egocêntrico e calculista se dilui completamente à volta e só o amor incondicional parece existir. A fotografia percorre as capas dos jornais americanos e transforma-se num símbolo de alegria e esperança para uma nação cansada de contar os seus mortos naquela guerra incompreensível e longínqua.

Robert Stirm está de costas para a objectiva; os americanos não lhe vêm o rosto – ele é o soldado desconhecido que regressa do túmulo para a vida. É um milagre. Um milagre americano.

A verdade desta foto manter-se-á intocável, mas sempre faltou o rosto de Robert.

Mais de trinta anos depois da fotografia, já casado e divorciado pela segunda vez, dirá à reportagem publicada em Janeiro de 2005 pela revista Smithsonian, ser o único a olhar a fotografia com um sentimento ambivalente. Todos os filhos têm a foto emoldurada – todos menos ele, que se recusa até a olhá-la. «Por um lado havia os meus filhos, a alegria de os rever. Amava-os a todos e ainda os amo» – recorda. «Mas, por outro, tinha demasiadas coisas com que lidar».

Robert referia-se à mulher. Três dias antes, Loretta enviara-lhe uma mensagem escrita. A esse tipo de mensagens os americanos costumam chamar «Dear John Letter»: diz-se então que uma mulher enviou uma carta ao querido João quando informa, por escrito, que tudo está acabado e deseja o divórcio. Quando é um homem a fazê-lo, chamam-lhe «Dear Jane Letter».

Depois de seis anos de tortura, fome, doença e desespero, Robert é forçado a lidar com uma mulher já apaixonada por outro homem e com a gigantesca tarefa de recuperar o tempo perdido sem os filhos. A filha Lorrie recordará à mesma reportagem essa dificuldade: «O pai tinha perdido tanta coisa. Foi difícil que voltássemos a aceitar a sua autoridade».

Um ano depois desta fotografia ter sido tirada, Loretta já se divorciara e casara outra vez. O caso soube-se e os americanos zangaram-se. No arquivo de cartas do leitor da revista People, 29 de Abril de 1974, a mulher é condenada publicamente por alguns leitores: não só traiu um herói como teve a ousadia de exigir a custódia dos filhos e metade do património do ex-marido – conseguiu-o.

Um ano depois, os dois filhos mais velhos, os que tinham chegado primeiro na corrida captada pelo fotógrafo – Lorrie e Robert Jr. – optaram por viver com o pai.

E é assim a outra história desta foto: um homem está de costas para a objectiva do fotógrafo e, nos anos seguintes, permanecerá de costas para a própria fotografia.

14 comentários

  • 1
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    19 de Março de 2011 - 05:02 | Link permamente

    Adoro estas publicações. Obrigado, Marco. :-)

  • 2
    com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Windows XP Windows XP
    19 de Março de 2011 - 12:27 | Link permamente

    «Por um lado havia os meus filhos, a alegria de os rever. Amava-os a todos e ainda os amo» – recorda. «Mas, por outro, tinha demasiadas coisas com que lidar».

    É justamente por causa disto que nunca hei-de perceber quem ama tanto fotografia e que chega ao ponto de fazer desta uma forma de documentar toda uma vida. Prefiro as recordações, os puros momentos nostálgicos, sem sentimentalismos e sem ajudas de momentos impressos. São mais puros, mais objectivos. Sobretudo depois de passarem pelo crivo do tempo.

    Uma fotografia não conta histórias, conta momentos.

    h.udo

    • 3
      mim
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      19 de Março de 2011 - 13:24 | Link permamente

      Concordo com o que diz.

      Uma foto, tanto pode ser uma flor num vazo, como uma faca num queijo… talvez por isso não goste de me fotografar. A nossa mente “molda” a realidade, para que possamos viver com ela; a foto é uma expressão pornográfica que ora traz o amor, ora a dor…

  • 4
    Júlio Mota
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    19 de Março de 2011 - 23:40 | Link permamente

    Ó Marco, é por estas e por outras que sou viciado no teu blog. Para escreveres estás tu, eu só quero agradecer. Há histórias que valem mais que um romance clássico.

  • 5
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    20 de Março de 2011 - 15:18 | Link permamente

    E este é um dos posts mais bónitos dos últimos tempos. Parabéns ;)

    Já tem edit! Yes! :) Mas atenção: a caixa de edit está a funcionar de forma invertida! Bem, que atrofio! Mas giro ao mesmo tempo 8O LOL!

  • 6
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    21 de Março de 2011 - 14:18 | Link permamente

    Que espetáculo.

    Dá mesmo prazer de ler e…aprende-se nestas leituras!

    Acredito que uma fotografia não conta histórias mas conta historia.

  • 7
    @AllisonAju
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    26 de Março de 2011 - 01:43 | Link permamente

    Não conhecia seu site, vi a reportagem através do sedentario e estás de parabéns. Acredito que se os posts sempre forem nesta qualidade vivarei leitor assíduo.

  • 9
    dunha
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    26 de Março de 2011 - 11:50 | Link permamente

    Só eu prestei atenção na pacoteira da moça?

  • 10
    Willian
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    26 de Março de 2011 - 22:42 | Link permamente

    O produto da fotografia pode realmente, por vezes, ser apenas uma maneira introspectiva de reflexão que apenas a nossa mente molda, acredito que essas possibilidades extendem-se não somente a fotografia, mas à outras formas de expressão artística, o que uma peça, um filme, uma música, um monólogo, estas também podem ser a realidade e os sentimentos que moldamos, que expressamos ao vê-las e escutá-las fruto de uma relação com nossas experiências.

    Parabéns pelo blog! É o segundo post que leio aqui, sempre vindo de outros blogs, passarei a subscrever.

    W.

  • 11
    Ruan
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    27 de Março de 2011 - 18:38 | Link permamente

    Cheguei ao seu blog através de um site brasileiro, o sedentário e hiperativo. A minha primeira reação foi de admiração (pela historia mas também pelo texto muito bem escrito). Em seguida olhando os outros textos percebi que o senhor é português, sei que existem pessoas muito inteligentes em Portugal porem a cultura de uma vida me faz sentir ainda um pouco de estranheza toda vez que encontro um. Por fim queria informar que é bem provável que eu apareça mais vezes por aqui e parabéns.

    • 12
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      30 de Março de 2011 - 18:19 | Link permamente

      Ruan, a burrice, a inteligência e o preconceito não têm nacionalidade.

  • 13
    Rick
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    29 de Março de 2011 - 20:40 | Link permamente

    Muito bom o texto, parabéns!

    • 14
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      30 de Março de 2011 - 18:20 | Link permamente

      Obrigado, Rick :)