

Retratos de Cartier-Bresson: Samuel Beckett e Igor Stravinsky
Consta em todas as biografias que Cartier-Bresson nasceu a 22 de Agosto de 1908 em Chanteloupe, França, sem grandes problemas de saúde ou dinheiro: os pais pertenciam a uma classe média francesa razoavelmente abastada.
É esta a data do seu nascimento oficial, a que fica registada no bilhete de identidade, mas pode-se apontar como igualmente importante uma data não especificada da sua infância, quando lhe é oferecida uma câmara fotográfica Box Brownie e passa o tempo a fotografar. Vitais terão sido também os anos em que se encontra em Paris a estudar pintura sob a orientação de Cotenet (1922-23) e André Lhote (1927-28).


Retratos de Cartier-Bresson: Henri Matisse e Albert Camus
Outros factos relevantes na sua vida incluem o período da Segunda Guerra Mundial, quando combateu a invasão alemã no exército francês, foi capturado em 1940 e acabou num campo de prisioneiros de guerra. Por duas vezes tentou fugir e falhou – à terceira, conseguiu escapar. Passara três anos em reclusão e as botas nazis continuavam a marchar pelas estradas de França.
Não fugiu à guerra, à miséria e ao horror, fugiu para prosseguir o combate pela liberdade. Junta-se a um grupo ligado à Resistência Francesa e só volta a fotografar dois longos anos depois, quando a Alemanha capitula e a guerra termina na Europa.
Como escreveu Nádia Meucci, «ele é um apaixonado pela vida, pela Natureza, pelas pessoas, mas principalmente pela liberdade, liberdade de ser, de estar, de pensar, de fotografar», em suma, «a liberdade é a sua religião.»

Vendo o mundo como uma coreografia que permite tanto ao objecto da fotografia como ao próprio fotógrafo participar na dança: é assim Cartier-Bresson, fotógrafo invisível, sem tripé ou qualquer artefacto tecnológico, procurando os momentos decisivos da vida apenas com uma Leica nas mãos e tentando passar despercebido. Nunca usará flash: «Considero-o uma falta de educação».
E assim viaja pelo mundo ao serviço de revistas como a Life ou a Vogue. É o primeiro fotógrafo da Europa Ocidental a fotografar livremente o quotidiano da União Soviética. É ele quem fotografa os últimos dias de Ghandi e os eunucos imperiais chineses depois da Revolução Cultural. A fundação, em 1947, da Agência de Fotografia Magnum, em conjunto com Robert Capa, David ‘Chim’ Seamour e George Rodger, levam-no a empreender viagens à Indonésia, Cuba, México, Canadá, Japão.
Truman Capote, então um jornalista de 22 anos, acompanhou-o em 1946 numa reportagem em New Orleans e descreveu-o assim: «Dançava na calçada como uma libélula inquieta, três grandes Leica penduradas ao pescoço, a quarta colada ao olho, tac-tac-tac (a máquina parece fazer parte do seu corpo), disparando cliques com uma intensa alegria e uma concentração religiosa de todo o seu ser. Nervoso e alegre, dedicado ao seu ofício, Cartier-Bresson é um homem solitário no plano da arte, uma espécie de fanático.»
«Fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração», afirma o fotógrafo. Detesta fotos retocadas e cenários artificiais. Suspeita-se que nunca terá achado piada às fotografias artísticas, mas fortemente encenadas, de alguns dos actuais grandes nomes da fotografia ligados à publicidade, muito menos às maravilhas dos computadores.
«Se um artista conceptual me convida para jantar, servirá apenas as espinhas do peixe! Eu prefiro a carne do peixe» – brinca ele, jovial aos 87 anos, na entrevista dada à jornalista e crítica de arte Sheila Leirner. – «O conceptualismo é pura masturbação mental, na qual não entra a sensibilidade.»
Os últimos trinta anos da vida dedica-os exclusivamente à pintura e ao desenho. Fotografia, só retratos, e apenas para os amigos. Nada de novo, pois famosos são os retratos que captou de artistas como Pablo Picasso, Braque, Alberto Giacometti, Pierre Bonnard e Henri Matisse e de escritores como Paul Claudel, Louis Aragon, Paul Valéry, Elsa Triolet, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Paul Éluard.
«A máquina fotográfica é um bloco de notas, o desenho imediato, com a sensibilidade, a surpresa, o subconsciente, o gosto pela forma. Eu faço pintura, estudei pintura desde os 15 anos. A fotografia é o problema do tempo. Tudo desaparece. Com a fotografia, existe uma angústia que não há com o desenho. O presente concreto ocorre numa fracção de segundos, o que é desagradável e, ao mesmo tempo, maravilhoso. É uma luta contra o tempo o qual, por sua vez, é uma invenção do homem. A pintura e o desenho obrigam-me a pensar no aqui e agora e no amanhã. Para mim, só há duas coisas que contam: o instante e a eternidade.»
Esta é a imagem que despertou em Henri Cartier-Bresson o desejo de se tornar fotógrafo. Outro tipo de nascimento, talvez, e quase tão importante e significativo como a data que consta no BI.
Foi tirada em 1929 por Martin Munkasci e publicada na revista Photographies em 1931. Cartier-Bresson tinha 23 anos quando a viu: três miúdos do Congo correndo, nus e livres, em direcção ao mar. De tal modo o impressionou que esta foi a única foto que alguma vez pendurou na parede de casa.
Com esta imagem aprendeu o que era a fotografia. Como o próprio diz, «durante muito tempo andei a fotografar mas não sabia muito bem o que andava a fazer». Depois encontrou o seu foco: «A fotografia é um reconhecimento simultâneo, numa fracção de segundo, do significado do acontecimento, bem como da precisa organização das formas que dá ao acontecimento a sua exacta expressão».
Saiu então para as ruas com a sua inseparável Leica. A fotografia em si não lhe interessava, mas apenas a captação do «momento decisivo» da reportagem fotográfica, quando se estabelece uma comunicação entre o homem o mundo. «A grande fotografia é um presente do acaso e devemos tirar proveito do acaso», afirmou Cartier-Bresson.
Adenda: Fotografias em alta resolução de Henri Cartier-Bresson (Download)
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