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O desafio das sete canções (mais ou menos)

Frank Zappa

Frank Zappa, claro! O que aqui se partilha é uma suite (bela palavra) de temas gravados em 1974 em Helsínquia, Finlândia, retirados do Volume 2 desse maravilhoso duplo-CD chamado You Can’t Do That on Stage Anymore (existem seis ao todo, que bom).

Esta é a lendária sequência que costumo mostrar quando quero convencer um adepto do jazz (ou outro gajo musicalmente exigente) de um facto tão óbvio que ainda hoje me admiro como são tão poucos a reconhecê-lo: Zappa, meus caros e surdos amigos, É O MAIOR.

Felizmente tenho o Bitaites para vos chatear até à exaustão na divulgação da grande música – e nada como um meme à maneira para vos aborrecer ainda mais. Sim, admito que melguei muita gente. São fases! Eu enfiava-lhes Zappa pelas orelhas abaixo e os pobres visitantes pareciam putos a quem a mãe lhes quer fazer engolir a sopa até ao fim. Mas engoliam-na toda, sim senhor, que a boa música, tal como a sopinha, também não é para se desperdiçar!
Estejam descansados que agora estou melhor: se depois de uns 15 ou 20 temas seguidos aquilo não pega, então pronto, tudo bem, fico com pena do gajo mas deixo cair o assunto.

Esta gravação de 1974 capta para a posteridade a melhor fase de Zappa: composições belas e complexas, tocadas de forma soberba pelo melhor grupo de músicos que o mestre reuniu ao longo da sua carreira: George Duke (teclados), Chester Thompson (bateria), Napoleon Murphy Brock (voz, saxofone), Ruth Underwood (percussão) e Tom Fowler (baixo). Os temas são: RDNZL [8:43], Village of the Sun [4:33], Edchina’s Arf (Of You) [3:30], Don’t You Ever Wash That Thing? [4:56] e Pygmy Twylyte [8:22].

A virtuosidade e energia dos músicos, o génio de Zappa como compositor e maestro de orquestra jazz/rock, são arrebatadores. Não acreditam? Tenho os documentos que o provam.

Keith Jarrett

Keith Jarrett Em relação às coisas da música sempre andei um bocado atrasado, só mais tarde me apercebendo do tempo perdido. Seja como for, não há mal nenhum nisso: tanta coisa boa foi feita no passado que eu não vejo motivo para nos apressarmos em conhecer tudo o que vale a pena hoje. Temos tempo… A vida não são dois dias, são pelo menos três ou quatro – e se fizermos muitas noitadas, chega aos cinco nas calmas.

Mas lembro-me que me mostraram Frank Zappa quando tinha 12 anos e de ter achado aquilo uma coisa esquisita e sem sentido, tendo regressado rapidamente a casa para ouvir os meus adorados Pink Floyd. Durante meses tentaram mostrar-me as maravilhas do jazz e sempre rejeitei aqueles sons por serem demasiado confusos e barulhentos. Estes atrasos têm uma vantagem: o prazer da redescoberta, nem que seja muitos anos depois.

Três discos fizeram-me mudar de opinião em relação ao jazz e a tudo o que se lhe relacionasse: Kind of Blue, de Miles Davis, Live!, de Carla Bley, e este The Koln Concert, de Keith Jarrett.

O CD é o registo de um concerto dado a 24 de Janeiro de 1975 em Colónia, na Alemanha. O concerto foi ao ar livre e, segundo se diz, o piano até estava um bocadinho desafinado. Mas Jarrett, muito inspirado, ofereceu aos espectadores um recital influenciado pelo jazz, gospel e soul, uma intensa hora de improvisação que continua a ser, até à data, o solo de piano com maior sucesso no mundo do jazz. As vendas deste disco – mais de 1 milhão de unidades – permitiram à editora ECM escapar a uma falência prematura. Percebe-se porquê: o solo é lindo, lindo, lindo. Tomem lá a primeira parte.

Carla Bley

Carla Bley Nem o facto de ter perdido um livro que adoro – «O Amor nos Tempos de Cólera», de Gabriel Garcia Marquez – me estragou a noite mágica em que eu e a Susana, livres como passarinhos, sem filhotes, estivemos no Tivoli em Lisboa para ver ao vivo Carla Bley e a sua banda. Que prazer.

Carla Bley é filha musical de Duke Ellington, grande compositor de jazz, pianista e líder de orquestra – tudo o que Carla também é, mas com mais extravagância e sensualidade. É uma das figuras mais originais do jazz. A música e os arranjos jazzísticos não excluem outros estilos, ritmos e lugares: América Latina, gospel, blues, espirituais negros.

À semelhança de Miles e Coltrane,, Carla Bley é a responsável pela minha definitiva e incondicional conversão às maravilhas do jazz. O primeiro disco que ouvi dela foi Carla Bley Live! (o ponto de exclamação é apropriado, pois sugere a energia visceral da sua música), gravado entre 19 e 21 de Agosto de 1981 numa sala de espectáculos em São Francisco. Blunt Object, o tema de abertura, arrebatou-me pela batida irresistível e energia dos solos, principalmente o trombone do monstruoso Gary Valente; The Lord Is Listening To Ya, Hallejujah!, o segundo tema, conquistou-me pelo lirismo, pela mistura entre gospel e blues carregadinha de nostalgia e humor. Tudo o que se segue neste disco é único na minha memória musical. Abençoada noite em que o ouvi pela primeira vez. Maravilhoso.

John Coltrane e Miles Davis

John Coltrane e Miles Davis O jazz, tal como um poema, é um diálogo entre a palavra e o silêncio. E nesse jogo entre o que é dito e o que é sugerido, entre o que se murmura e o que se quer gritar, nem são necessários sinais de pontuação. Na sua melhor expressão, o jazz nunca tem pontos finais.

Jazz é liberdade de expressão. Os acordes são autónomos, a estrutura dos temas é constantemente alterada em função da intuição melódica do músico. Jazz é improvisação. Não vive das sensações de déjà vu musical que as pessoas se habituaram a sentir como melodiosas; vive de uma dinâmica constante e muitas vezes imprevisível que nos deixa em constante alerta.

Quando Coltrane puxa pelo saxofone os céus tornam-se voláteis. As estrelas e os planetas deixam de obedecer aos mandamentos de Newton e de Kepler, e voltam às mãos de Deus.

O primeiro tema desta sequência, Ogunde, é um dos últimos que Coltrane compôs antes de morrer. Três minutos e 41 segundos do mais difícil e sublime jazz: Ogunde inicia-se com o saxofone em bela oração, mas muda abruptamente, questiona-se, cria um labirinto melodioso onde nos perdemos até seguirmos Coltrane de novo em direcção à luz: a melodia inicial, agora transformada numa versão jazzística de um Requiem. Tão bizarro, tão inacessível, tão bonito.

O segundo, Flamenco Sketches, de Miles Davis e também com Coltrane, é o melhor tema de jazz que ouvi na vida. Na verdade, o álbum Kind of Blue continua a ser para mim o grande disco de jazz. Se pretendem perceber por que razão é este género de música tão belo e rico em melodias e harmonias, comecem por este. Entretanto, um download vale mais do que mil palavras

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9 comentários

  • 1
    com Firefox 3.0.3 Firefox 3.0.3 em Windows XP Windows XP
    12 de Novembro de 2008 - 14:19 | Link permamente

    «Os Radiohead são actualmente a maior banda do mundo e arredores – sem espinhas. »

    nop! apesar do belíssimo kid a, não são a maior banda do mundo… nem dos arredores…

    esse epíteto ficaria bem melhor aos einstürzende neubauten… ou aos tinariwen

    :wink:

  • 2
    com GranParadiso 3.0.5pre GranParadiso 3.0.5pre em Windows XP Windows XP
    12 de Novembro de 2008 - 17:50 | Link permamente

    Tinariwen? Quem? O quê? :wink:

    Lá vou ter de investigar esse nome em sítios demoníacos…

  • 3
    com Firefox 3.0.2 Firefox 3.0.2 em Fedora 10 Fedora 10
    12 de Novembro de 2008 - 23:00 | Link permamente

    Não conhecia Carla Bley mas ainda vou a tempo.
    Obrigado pelos brindes.

    @braço.

  • 4
    com Firefox 3.0.3 Firefox 3.0.3 em Windows XP Windows XP
    12 de Novembro de 2008 - 22:21 | Link permamente

    Homem, só agora – falha minha – fui ler o convite.
    Vou procurar (ou como dizemos aqui, caçar) tempo para tentar responder. Me aguarde.

    abraço

  • 5
    com GranParadiso 3.0.5pre GranParadiso 3.0.5pre em Windows XP Windows XP
    12 de Novembro de 2008 - 23:57 | Link permamente

    Ao Mirante: boa caça!
    Jocaferro: depois diz-me o que achaste da menina!

  • 6
    joaquim
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    13 de Novembro de 2008 - 02:32 | Link permamente

    Fiquei contente de ver alguém fã de Radiohead – já sabia há algum tempo pelo profile – e escrever tal como eu penso. Porque quando falo com alguém desta banda ninguém a conhece para além de um creep e pouco mais. E poucos a apreciam.

    Na altura do Kid A e do Amnesiac (penso não estar errado) foi exactamente uma miúda da XFM a um programa de televisão e disse que foi do melhor que já tinha ouvido e outras maravilhas. Falou de se complementarem e tudo o mais…

    Já agora existe muita gente (e críticos) que os comparam aos Pink Floyd (que por acaso nem aprecio. Comprei o Pulse e ficou aganhar pó).

    O how to disappear é por demais belo e comparo o seu final (apoteótico) ao magnífico street spirit.

    Abraço

  • 7
    com Firefox 3.0.3 Firefox 3.0.3 em Windows XP Windows XP
    13 de Novembro de 2008 - 11:35 | Link permamente

    Marco,

    procura em sítios quentes & secos… aqui é um sitio quente e seco.

    8)

  • 8
    com Firefox 3.0.3 Firefox 3.0.3 em Windows Vista Windows Vista
    14 de Novembro de 2008 - 22:38 | Link permamente

    Marco,

    Estes links, quando se tem um blog pequenino, fazem diferença ali por uns dias, o que é porreiro. Obrigado.

    Quanto aos Radiohead, discordo aqui do Joaquim quando diz que ninguém os conhece para além de uma “Creep” e pouco mais. Felizmente, há por aí muito boa gente a gostar deles convenientemente. Infelizmente, deve ser essa boa gente que leva as promos e os singles da feira do disco da estação do Oriente antes de mim…

  • 9
    joaquim
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    15 de Novembro de 2008 - 01:10 | Link permamente

    Olá Filipe,

    Quando falo refiro-me às pessoas com que contacto (ou já contactei): colegas de curso, amigos, conhecidos, …

    E é um fenómeno interessante: quando as bandas estão (quase) no anonimato «têm interesse» e quando se tornam conhecidas a nível mundial parece que perdem aquela “frescura”, vigor, … Com os Radiohead tal não aconteceu. Ainda bem.