→ 02/04/2006 @18:14

Matar saudades do Terror

Matar saudades do Terror

The Shining é um filme de Stanley Kubrick baseado numa história de terror de Stephen King, um dos mestres do género.

É impossível escrever sobre The Shining como fosse uma crítica de cinema. Para mim nem é filme, é recordação. Uma memória de um tempo já desaparecido quando nós, miúdos deslumbrados por tudo o que víamos no ecrã, começámos a descobrir que o cinema era mais do que um espectáculo de circo bem montado.

Criticar um filme que nos fez descobrir o cinema é como recordar as nossas brincadeiras de infância quando fazíamos de soldados: não nos passa pela cabeça dizer agora que não prestavam porque eram demasiado ingénuas e não tinham em conta os jogos de xadrez de políticos e militares. É como na música: os Pink Floyd, pelas mesmas razões, serão sempre especiais.

Mas ontem à noite – lixado por uma gripe do caraças e semi-adormecido diante do televisor – vi que o canal Hollywood estava a dar o The Shining. Não resisti e fiquei. Dei por mim a rever o filme, antecipando as minhas cenas preferidas com o Jack Nicholson e a tentar esquecer-me dos erros e imperfeições que lhe encontro agora.

Ao The Shining continuo a perdoar tudo: os erros na montagem, a sombra do helicóptero na sequência de abertura dos planos aéreos e a desiquilibrada interpretação de Jack Nicholson – ora cabotino ora brilhante, e às vezes na mesma cena. Mas foi ao vê-lo pela primeira vez que descobri a arte da representação em cinema, foi nesse filme que descobri que a nossa percepção de uma cena pode ser manipulada pela montagem – e isso é arte – foi com Kubrick que notei a fotografia, os planos, os enquadramentos, os travellings. E a música de Bartók.

A verdadeira história de terror em The Shining não assenta nos truques do género – assusta e mata, assusta e mata – mas na caracterização psicológica do pai Jack: mesmo nos momentos iniciais do filme, quando ele ainda está normal, se notam já as expressões de enfado e os sorrisos sarcásticos. Jack é pai de família mas está farto da mulher e do filho. Não se conseguindo evadir através da escrita, vive dividido entre representar o papel que a sociedade espera dele e o desejo de fugir e abandoná-los. Os momentos em que ele se consegue livrar desse papel e encontra os fantasmas do hotel não são momentos de terror, como seria de esperar em filmes do género, mas verdadeiros momentos de libertação.

Mas é melhor deixar ficar The Shining intacto na memória. Continuo com uma gripe do caraças e não me sinto inspirado para escrever. O acto mais libertador que me tem acontecido nas últimas horas é assoar o nariz. Enfim – tal como no passado nunca resisti em mostrar The Shining com a urgência de quem está a revelar Cinema pela primeira vez, também agora não resisti em escrever um post sobre o assunto.
Fiquem bem.