O Photoshop facilitou a adulteração, mas não a começou: manipular a fotografia é um expediente tão antigo como a própria fotografia.
O famoso retrato do presidente abolicionista, Abraham Lincoln, é um bom exemplo para começar. Há muitos mais, como poderão ver a seguir.
Lincoln nunca posou para a foto pela simples razão de que já tinha sido assassinado quando aquela foi composta, em 1865. A cabeça de Lincoln foi retirada de uma fotografia mais antiga tirada por Mathew Brady e «colada» ao corpo de outra pessoa, um político sulista que provavelmente teria combatido as ideias abolicionistas de Lincoln.
O autor do truque foi Thomas Hicks, um pintor, não um fotógrafo; Hicks era essencialmente um retratista, dos importantes e bem relacionados, pois já pintara o próprio Lincoln. Os historiadores acreditam que o truque se revelou necessário por não existir em arquivo uma foto do presidente em «pose heroica».
Hicks utilizou na composição a pose napoleónica do político sulista e antigo vice-presidente americano, John C. Calhoun.
E isto é uma enorme ironia, tendo em conta o carácter iconográfico deste retrato, o que Lincoln representa para os americanos e as ideias de Calhoun.
Calhoun, filho de ricos, considerava a escravatura um «bem positivo»; a sua figura serviu de inspiração aos secessionistas que Lincoln combateu. Se não tivesse morrido dez anos antes do início da Guerra Civil, Calhoun ter-se-ia provavelmente colocado ao lado das forças que combateram a União.
O conteúdo da mesa onde este Lincoln apoia a mão também foi alterado: na fotografia original de Calhoun, os papéis sobre a mesa diziam «estrita constituição», «comércio livre» e «soberania dos Estados»; na versão com a cabeça de Lincoln, os papéis já diziam «constituição», «união» e «proclamação de liberdade».
Manipulações modernas


Abril de 2007: Allan Detrich achou que a foto ficava mais interessante se «plantasse» uma bola de basquetebol. Ao todo, o jornal The Blade registou 79 fotos digitalmente alteradas por Detrich.

Julho de 2007: a revista Redbook usou o Photoshop para emagrecer e maquilhar o rosto da cantora e atriz Faith Hill.

Julho de 2008: o sítio Sepah News, braço mediático dos Guardas da Revolução iranianos, publicou uma foto retocada de um teste de lançamento de mísseis: o míssil adicional foi colocado na foto para tapar o que se avariou.

Fevereiro deste ano: na ânsia de provar que o Barcelona conseguira um golo em fora-de-jogo no desafio com o Atlético de Bilbau, o jornal As «apagou» um defesa que colocava o avançado do Barça em posição legal. Mais tarde desculpou-se com um «erro infográfico».
Ao exemplo do iconográfico retrato de Lincoln, seguiram-se incontáveis manipulações – por razões de propaganda, editoriais, estéticas ou pura aldrabice.
Este fantástico sítio, da autoria de Hany Farid, professor de Ciência Computacional e diretor do Instituto Neukom de Ciência Computacional, escreveu um artigo apontando inúmeros exemplos de manipulações ocorridas ao longo de quase 200 anos de história – só este trabalho é de leitura obrigatória, mas todo o sítio é de uma enorme riqueza para quem se interessa por fotografia.































9 comentários
O poder da manipulação que hoje em dia é uma constante e torna complicado distinguir o real do manipulado.
Outro sitio em que o objectivo é mostrar os erros nas imagens manipuladas por Photoshop e afins.
já reparaste nas fotos que existem no elevador do supermercado que abriu na antiga black&decker?… uma das moçoilas tem uma mão de cada cor… é um exemplo má manipulação.
Nunca passo por lá, no elevador… Vou ver amanhã o lindo serviço!
Hoje de manhã fui à papelaria e cortei caminho, mas meti-me no elevador de propósito só para ver esse caso de dupla raça mão preta, mão branca
Muito bom!
hoje em dia agente não pode confiar nem vendo
hmm… aquela do Dani Alves não está correcta, a cor da meia do jogador que parece ter sido cortada não é da mesma cor que a dos outros jogadores do Bilbau… Mas se o AS admitiu…