→ 17/06/2007 @14:41

Da Natureza do Fanatismo – versão completa

E se me prometerem não levar à letra o que vou dizer, atrever-me-ia a assegurar que, pelo menos em princípio, julgo ter inventado o remédio contra o fanatismo. O sentido de humor é uma grande cura. Jamais vi na minha vida um fanático com sentido de humor, nem nunca vi qualquer pessoa com sentido de humor converter-se num fanático, a menos que ele ou ela tivessem perdido esse sentido de humor. Os fanáticos são frequentemente sarcásticos. Alguns deles têm um sarcasmo muito agudo, mas de humor, nada. Ter sentido de humor implica a capacidade de se rir de si próprio. Humor é relativismo, humor é habilidade de nos vermos como os outros nos vêem, humor é a capacidade de perceber que, por muito cheia de razão que uma pessoa se sinta e por mais tremendamente enganada que tenha estado, há um certo lado da vida que tem sempre a sua graça. Quanto mais razão se tem, mais divertia se torna a pessoa. E, neste caso, pode dar-se ser um israelita convicto da sua razão ou qualquer pessoa convicta da sua razão. Com sentido de humor, bem pode acontecer que se seja parcialmente imune ao fanatismo.
Se eu pudesse comprimir o sentido de humor em cápsulas e, depois, persuadir povoações inteiras a engolirem as minhas pílulas humorísticas, imunizando desse modo toda a gente contra os fanáticos, talvez um dia chegasse ao Prémio Nobel de Medicina, em vez de Literatura. Mas esperam! A simples ideia de fazer com que os outros engulam as minhas pílulas humorísticas para seu próprio bem, curando-os assim do seu mal, já está ligeiramente contaminada de fanatismo. Muito cuidado, o fanatismo é extremamente infeccioso, mais contagioso do que qualquer vírus. Pode-se contrair fanatismo facilmente, até mesmo ao tentar vencê-lo ou combatê-lo. Basta ler os jornais ou ver televisão para verificar como as pessoas se convertem facilmente em fanáticos antifanáticos, em fanáticos antifundamentalistas, em cruzados antijihad. Afinal, se não podemos vencer o fanatismo, talvez possamos, ao menos, contê-lo um pouco. Como disse antes, a capacidade de nos rirmos de nós próprios constitui uma cura parcial, a capacidade de nos vermos como os outros nos vêem é um outro remédio. A capacidade de conviver com situações cujo final está em aberto, inclusivamente de aprender a desfrutar com essas situações, de aprender a desfrutar com a diversidade, também pode ajudar.
Não estou a pregar o relativismo moral total, com certeza que não. Tento realçar a nossa capacidade de nos imaginarmos uns aos outros, Façamo-lo a todos os níveis, começando pelo mais quotidiano. Imaginemos o outro quando lutamos, imaginemos o outro quando nos queixamos, imaginemos o outro precisamente quando sentimos que temos cem por cento de razão. Mesmo quando se tem cem por cento de razão e o outro está cem por cento equivocado, continua a ser útil imaginar o outro. Na verdade, fazemos isso a todo o momento. O meu último romance, O Mesmo Mar, versa sobre seis ou sete pessoas espalhadas pelo globo e que têm entre si uma comunicação quase mística. Pressentem-se, comunicam constantemente entre si de forma telepática, embora se encontrem disseminados pelos quatro cantos da Terra.
A capacidade de conviver com situações de final em aberto está, imaginariamente, em aberto para todos nós; escrever um romance, por exemplo, implica, entre outras responsabilidades, a necessidade de nos levantarmos todas as amnhãs, tomar um café e começar a imaginar o outro, Como seria se eu fosse ela, e como seria se eu fosse ele? E na minha experiência pessoal, na minha própria história de vida, na minha história familiar, não consigo deixar de pensar frequentemente que, com uma ligeira modificação dos meus genes ou das circunstâncias dos meus pais, eu poderia ser ele ou ela, poderia ser um colono da Margem Ocidental, poderia ser um extremista ultra-ortodoxo, poderia ser um judeu oriental de um país do Terceiro Mundo, poderia ser alguém diferente. Poderia ser um dos meus inimigos. Imaginar isto é sempre uma prática útil. Há muitos anos, quando ainda era uma criança, a minha sapientíssima avó explicou-me com palavras muito simples a diferença entre um judeu e um cristão, não ente um judeu e uma muçulmano, mas entre um judeu e um cristão: «Olha», disse, «os Cristãos acreditam que o Messias já cá esteve uma vez e que, certamente, regressará um dia. Os Judeus defendem que o Messias ainda está por chegar. Por isso», disse a minha avó, «por isso, tem havido tanta raiva, tantas perseguições, derramamento de sangue, ódio… Porquê? Por que não podemos simplesmente esperar todos e ver o que acontece? Se o Messias voltar e disser, ‘Olá, estou muito contente por vê-los de novo’, os Judeus terão de aceitar. Se, pelo contrário, o Messias chegar e disser, ‘Como estão, prazer em conhecê-los’, toda a Cristandade terá de pedir desculpa aos Judeus. Entretanto», disse a minha sábia avó, «vive e deixa viver». Ela era, definitivamente, imune ao fanatismo. Conhecia o segredo de viver em situações de final em aberto, no meio de conflitos não resolvidos, com a diversidade de outras pessoas.
Comecei por dizer que o fanatismo muitas vezes começa em casa. Quero terminar dizendo que o antídoto também se pode encontrar em casa, praticamente na ponta dos nossos dedos. Nenhum homem é uma ilha, disse John Donne, mas atrevo-me humildemente a acrescentar: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, com uma metade unida à terra e a outra a olhar para o oceano – uma metade ligada à família, aos amigos, à cultura, à tradição, ao país, à nação, ao sexo e à linguagem e a muitas outras coisas, e a outra metade a desejar que a deixem sozinha a contemplar o oceano. Penso que nos deviam deixar continuar a ser penínsulas. Todo o sistema político e social que converte cada um de nós numa ilha donneana e o resto da Humanidade em inimigo ou rival é uma monstruosidade. Mas ao mesmo tempo, todo o sistema ideológico, político e social que apenas nos quer transformar em moléculas do continente, também é uma monstruosidade.
A condição de península é a própria condição humana. É o que somos e o que merecemos continuar a ser. De modo que, em certo sentido, em cada casa, em cada família, em cada condição humana, em cada relação humana, temos de facto uma relação entre um certo número de penínsulas, e será melhor que nos lembremos disso antes de nos tentarmos modelar uns aos outros, de virarmos as costas uns aos outros e de tentarmos que quem está ao nosso lado se torne igual a nós, enquanto que o que ele ou ela necessitam é de contemplar o oceano durante algum tempo. E esta é a verdade para os grupos sociais, para as culturas, para as civilizações, para as nações e, é verdade, para os Israelitas e os Palestinianos. Nenhum deles é uma ilha e nenhum deles pode misturar-se inteiramente com o outro. Estas duas penínsulas deviam estar relacionadas e, ao mesmo tempo, deixadas à sua vontade. Sei que esta é uma mensagem pouco usual num tempo em que a violência, a ira, a vingança, o fundamentalismo, o fanatismo e o racismo capeiam livremente no Médio Oriente e noutros lugares.
Sentido de humor, a capacidade de imaginar o outro, a capacidade de reconhecer a capacidade peninsular que existe em cada um de nós, pode pelo menos constituir uma defesa parcial contra o gene fanático que todos temos dentro de nós.

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5 comentários

  • 1
    Xavier
    com Opera 9.21 Opera 9.21 em Windows XP Windows XP
    17 de Junho de 2007 - 22:46 | Link permamente

    “O sentido de humor é uma grande cura.” Não só para o fanatismo, mas para a maioria das situações diárias que consideramos, no momento, um problema. Ver o lado cómico da questão alivia a tensão, a pressão, a agressividade. Nem sempre é possível, eu sei, mas o sentido de humor pode ser apreendido e cultivado. E resulta na maioria dos casos, pelo menos comigo. :smile:

  • 2
    com Firefox 2.0.0.6 Firefox 2.0.0.6 em Ubuntu Ubuntu
    8 de Agosto de 2007 - 21:57 | Link permamente

    Este foi um texto que eu achei muito inspirador. A partir do momento que o acabaste de traduzir eu criei um pdf com este texto. Agora, com um blog, vou colocá-lo á disposição para download. Com os devidos créditos claro. Era minha intenção contactar-te por e-mail para te notificar disto, mas não consegui encontrar o dito endereço em lado nenhum do blog não me foi possivel fazer isto. De qualquer das formas vê o ficheiro e dá algum feedback caso haja alguma coisa errada/incompleta.