Da Natureza do Fanatismo é um texto que resultou de uma conferência dada pelo escritor israelita Amos Oz a 23 de Janeiro de 2003. O escritor e activista político sul-africano Nadine Gordimer, Prémio Nobel da Literatura, descreveu a escrita de Amos Oz como «a voz da sanidade que sobressai no meio da confusão.» Amos Oz prescindiu dos direitos de autor sobre este texto por considerar mais importante passar a mensagem do que ganhar dinheiro, pelo que qualquer um o pode divulgar ou distribuir, desde que não o faça com objectivos comerciais. Tem vindo a ser publicado aqui ao longo dos últimos dias. Quando terminar, criarei uma página com o texto completo para quem prefira lê-lo de seguida.
Conformidade e uniformidade, a urgência de «pertencer a» e o desejo de fazer com que todos os demais «pertençam a» podem constituir perfeitamente as formas de fanatismo mais amplamente difundidas. Lembrem-se de A Vida de Brian, esse filme magnífico dos Monty Phyton, em que o protagonista diz à multidão dos seus futuros discípulos «Sois todos indivíduos!» e a multidão responde aos gritos «Somos todos indivíduos!», excepto um lá no meio, que diz timidamente com um fio de voz: «Eu não.» Mas todos o mandam calar furiosos.
Uma vez tendo dito que a conformidade e a uniformidade dão formas moderadas mas expandidas de fanatismo, devo acrescentar que, com frequência, o culto da personalidade, a idealização de líderes políticos ou religiosos, a adoração de indivíduos sedutores, podem muito bem constituir outras formas disseminadas de fanatismo. O século XX parece ter dado mostras excelentes neste sentido. Por um lado, os regimes totalitários, as ideologias mortíferas, o chauvinismo agressivo, as formas violentas de fundamentalismo religioso. Por outro, a idolatria universal de uma Madonna ou de um Maradona. Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização do género humano – «o jardim de infância global», cheio de brinquedos e adereços, rebuçados e chupa-chupas.
Até meados do século XIX, mais ano menos ano – varia de um país para outro, de um continente para outro – mas grosso modo até um determinado momento do século XIX, a maior parte das pessoas em grande parte do mundo tinha, pelo menos, três certezas básicas: onde passarei a minha vida, o que farei para viver e o que acontecerá comigo depois de morrer. Quase toda a gente – há uns cento e cinquenta anos – sabia que passaria a sua vida onde nascera ou em algum lugar próximo, talvez na povoação vizinha. Todos sabiam que ganhariam a vida como os seus pais ou de forma semelhante. E que, portando-se bem, iriam para um mundo melhor depois de mortos. O século XX provocou uma erosão destas e de outras certezas, destruindo-as muitas vezes. A perda destas certezas elementares pode ter originado o meio século mais ferozmente egoísta, hedonista e mais virado para a superficialidade. No que respeita aos movimentos ideológicos da primeira metade do século passado, o mantra costumava ser: «Amanhã será um dia melhor – façamos sacrifícios hoje, levemos os outros a fazer sacrifícios, para que os nossos filhos herdem um paraíso no futuro.»
Num determinado momento à volta de meados do século, esta noção foi substituída pela da felicidade instantânea. Não se tratava do já famoso direito a lutar pela felicidade, mas da ilusão – actualmente tão difundida – de que a felicidade está exposta nas prateleiras, de que basta chegar a ser suficientemente rico para comprar a felicidade a troco de dinheiro. A ideia do «foram felizes para sempre», a ilusão da felicidade duradoura, é, na verdade, um oxímero. Pode ser pontual ou prolongada, mas a felicidade eterna não é felicidade, do mesmo modo que um orgasmo sem fim não seria de forma alguma um orgasmo.
A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar. Nessa tendência tão comum de melhorar o vizinho, de corrigir a esposa, de fazer o filho engenheiro ou de endireitar o irmão, em vez de deixá-los ser. O fanático é uma das mais generosas criaturas. O fanático é um grande altruísta. Está mais interessado nos outros do que em si próprio. Quer salvar a nossa alma, redimir-nos. Livrar-nos do pecado, do erro, do tabaco, da nossa fé ou da nossa carência de fé. Quer melhorar os nossos hábitos alimentares, ou curar-nos do alcoolismo ou do hábito de votar. O fanático morre de amores pelo outro. Das duas uma: ou nos deita o braço ao pescoço porque nos ama de verdade, ou se atira à nossa garganta em caso de sermos irrecuperáveis. Em qualquer caso, topograficamente falando, deitar os braços ao pescoço ou atirar-se à garganta é quase o mesmo gesto. De uma maneira ou de outra, o fanático está mais interessado no outro do que em si mesmo, pela simples razão de que tem um mesmo bastante exíguo, ou mesmo nenhum mesmo.
O senhor Bin Laden e os da sua laia não se limitam a odiar o Ocidente. Não é assim tão simples. Creio antes que querem salvar as nossas almas, querem libertar-nos dos nossos horríveis valores, do materialismo, do pluralismo, da democracia, da liberdade de opinião, da emancipação da mulher… Tudo isto, segundo os fundamentalistas islâmicos, é muito, mas mesmo muito prejudicial à saúde. Com toda a certeza, o objectivo imediato de Bin Laden não era Nova Iorque ou Madrid. O seu objectivo era converter os muçulmanos pragmáticos, moderados, em crentes «autênticos», no seu tipo de muçulmanos. O Islão, para Bin Laden, estava debilitado pelos «valores americanos» e, para defender o Islão, não basta ferir o Ocidente e feri-lo forte e feio. Não. No final, o Ocidente deve ser convertido. A paz só prevalecerá quando o mundo se tiver convertido, não já ao Islão, mas à forma mais rígida, feroz e fundamentalista do Islão. Será para nosso bem. No fundo, Bin Laden ama-nos. O 11 de Setembro, no seu modo de pensar, foi um acto de amor. Fê-lo para nosso bem, quer mudar-nos, quer redimir-nos.
Até meados do século XIX, mais ano menos ano – varia de um país para outro, de um continente para outro – mas grosso modo até um determinado momento do século XIX, a maior parte das pessoas em grande parte do mundo tinha, pelo menos, três certezas básicas: onde passarei a minha vida, o que farei para viver e o que acontecerá comigo depois de morrer. Quase toda a gente – há uns cento e cinquenta anos – sabia que passaria a sua vida onde nascera ou em algum lugar próximo, talvez na povoação vizinha. Todos sabiam que ganhariam a vida como os seus pais ou de forma semelhante. E que, portando-se bem, iriam para um mundo melhor depois de mortos. O século XX provocou uma erosão destas e de outras certezas, destruindo-as muitas vezes. A perda destas certezas elementares pode ter originado o meio século mais ferozmente egoísta, hedonista e mais virado para a superficialidade. No que respeita aos movimentos ideológicos da primeira metade do século passado, o mantra costumava ser: «Amanhã será um dia melhor – façamos sacrifícios hoje, levemos os outros a fazer sacrifícios, para que os nossos filhos herdem um paraíso no futuro.»





























4 comentários
“No fundo, Bin Laden ama-nos. O 11 de Setembro, no seu modo de pensar, foi um acto de amor.”
Da mesma forma que, segundo a religião católica (e outras), deus ama-nos, mas se não fizer-mos o que diz a biblia somos mandados para o inferno para sofrer para toda a eternidade.
A informação sobre ataques similiares ao 11 de Setembro já existia, mas foi ignorada pelas agencias de investigação. Em Julho de 2001 George Tennent (director da CIA da altura) sugeriu um ataque ao Afeganistão, mas a Condoleeza recusou avançar essa hipotese.
Estar mais interessado nos outros do que em si próprio, cheira-me logo esturro! Parece que defeitos só os consegue ver nos outros! (…conhece-te a ti mesmo.), diria Sócrates! Mas “…deitar os braços ao pescoço…”,”…atirar-se á garganta…” dos outros, isso sim, isso é o que faz dele um fanático. Isto é, querer impõr uma vontade pela força, ao ponto de tirar vidas. Seja ele o Bin Laden ou o George Bush! Abraços!
O ladem é bem apessoado. Se for vivo,ainda deve dar umas boas morteiradas.Inchhh alllah.