O grupo Marilyn Manson nunca me interessou musicalmente, mas a iconografia de que vivem quase por completo é muito rica e complexa. Não admira que o ideólogo do grupo, o vocalista Marilyn, se considere um «artista» (não apenas um músico) e se desdobre em actividades que incluem a exibição dos seus quadros numa galeria de arte em Los Angeles que o próprio adquiriu (Celebritarian Corporation Gallery of Fine Art) e a realização do filme de terror Phantasmagoria: The Visions of Lewis Carroll.
No livro «A orelha perdida de Van Gogh», do jornalista e crítico musical Rui Eduardo Paes, a iconografia dos Marilyn Manson é vista com olho clínico. É importante citar algumas partes da análise feita ao universo da banda, não só para quem já conhece os videoclips mas também como complemento ao visionamento dos dois que coloco aqui para download.
Segue-se um excerto do texto de Rui Eduardo Paes.

«Os Marilyn Manson inspiram-se no glamour do Bowie extraterrestre de Ziggy Stardust e no Alice Cooper dos anos em que mimava o universo dos horror movies, herdeiros do rock gótico dos anos 80 (os Alien Sex Fiend, sobretudo) e do pretenso culto demoníaco do heavy metal. (…)
Apesar da irreverência adolescente contida no disco de consagração – Antichrist Superstar – nada há de inocente na sua postura. O rock é teatro, como lembrava Jello Biafra, mas a sua história está aí para comprovar que pode ter desfechos muito sérios, como foi o caso do suicídio de Kurt Cobain.
Referem os Marilyn Manson, por exemplo, que são satânicos não por adorarem o diabo mas porque advogam a liberdade individual até às últimas consequências, citando o super-homem de Nietzsche. (…)
O look dos Marilyn Manson sugere as colagens do surrealismo porque foi aí, precisamente, que buscaram referências. Um tutu de bailarina clássica e um capacete de aviador da I Guerra Mundial, ou uma lente óptica de aumento diante dos olhos com uma armação high-tech, e umas andas de gigantone, servem-lhes para compor a figura de um ser mutante que é fisicamente disforme – o mito do homem-elefante, trazido para o rock por Bowie, outra vez ele – e evidencia comportamentos esquizóides. O andrógino e assexuado Marilyn tudo faz para parecer repulsivo. (…)
Apesar disso, exerce um enorme fascínio. E por que razão?
Porque, para todos os efeitos, os Marilyn Manson representam a luxúria da imagem, aquele ponto em que, de tão investida, esta entra em disfunção e Belo e Horrível se confundem. Um grande exemplo disso é o clip feito para o tema Long Hard Road Out Of Hell, retirado de Spawn – The Album: aí, Marilyn atreve-se a tomar o lugar da divindade, numa reprodução kitsch do universo católico e, em particular, do culto mariano. Ficção Científica, desenho animado, filme de terror, vídeo-arte: os videoclips de Marilyn Manson são cerzidos a partir de diversas gramáticas audiovisuais, constituindo uma autêntica manta de retalhos. Na iconografia do grupo, cada componente é levado ao seu limite e até para lá dele, de modo a provocar um maior efeito de conjunto.»





























