→ 28/12/2007 @21:04

Até vemos estrelas

À semelhança de outros grandes quadros, o célebre ‘Noite Estrelada’, de Van Gogh (wallpaper), atraiu muita gente – ‘peritos’, é o nome oficial – desejosa de fornecer a pobres mortais como tu e eu a interpretação definitiva das ‘reais intenções’ do pintor.

Alguns afirmavam que aquele negrume nas janelas e porta da Igreja significava que Van Gogh não encontrava inspiração nas religiões organizadas, mas na Natureza. A mim aquele campanário lembra-me o chapéu da Bruxa Má dos filmes de Walt Disney, portanto estão a ver que as minhas referências culturais não fazem justiça a nenhuma religião, por mais criticável que seja, muito menos ao grande Van Gogh, cuja qualidade de resto só seria criticável a quem nunca apanhou uma bebedeira de caixão à cova ou fumou uma ganza a ponto de ver os céus em câmara-lenta.

Seja como for, dado que a verdadeira igreja de Saint-Rémy que ele observou a partir da janela do seu quarto não tinha campanário, é possível que o acrescento que lhe fez tenha mais significado do que criticar religiões pincelando pequenas sombras em igrejas mal iluminadas. Não estaria apenas com saudades da terra natal, a Holanda, onde era comum encontrarem-se igrejas com campanários?

Outros – mais dados a explicações psicanalíticas – garantem que o cipreste retorcido e aquele céu representam a alma atormentada do artista. Que tinha uma alma atormentada já muitos sabiam, pois esta paisagem foi pintada precisamente no hospício de Saint-Rémy, em França, onde o pintor fora internado. Até a data exacta em que pintou o quadro ficou registada para a posteridade: numa noite estrelada de 9 de Junho de 1889. 72 anos depois, com o primeiro passeio espacial de Yuri Gagarin, a Humanidade iniciaria a longa caminhada em direcção às estrelas de Van Gogh – as únicas que valem a pena.

Uma série de explosões ocorridas na misteriosa Monocerotis V838, uma estrela gigante vermelha da constelação de Unicórnio, a 20 mil anos/luz de distância, foi descoberta em Janeiro de 2002 pelo Hubble. Do jogo de luz e poeira captado pelas lentes do telescópio espacial resultou uma série de imagens que a NASA, com comovente entusiasmo, comparou às pinceladas que Van Gogh produzira 113 anos antes num hospício perto de Paris.

Por causa disto – e estamos de volta às interpretações – há quem afirme que ‘Noite Estrelada’ foi pintado porque Van Gogh terá visto com os seus próprios olhos o que o Hubble captou mais de um século depois. Adoro esta ideia de juntar pintor e astrónomo num quadro tão maravilhoso como este, mas basta fazer as contas para se perceber que é uma interpretação fantasiosa. Enquanto o mestre pintava, já as explosões haviam ocorrido há muito, muito tempo. Se quiserem aprofundar o conhecimento sobre a Monocerotis V838, leiam este artigo no excelente Portal do Astrónomo.

Quanto à loucura. Na véspera de Natal de 1888, na sequência de uma discussão com Paul Gauguin, outro grande pintor e seu grande amigo, Van Gogh, sentindo-se provavelmente torturado pelas palavras do outro, cortou a própria orelha. Segundo informações recolhidas pelos jornais da época, ofereceu-a depois a uma prostituta. Este incidente terá sido o primeiro sinal inequívoco da doença mental do pintor. Julga-se que Van Gogh sofria de epilepsia.

Van Gogh poderia ter os seus momentos, e alguns podiam ser de loucura, mas a explicação dada pelo escritor português João Aguiar é mais acutilante do que reduzi-lo a um simples caso de epilepsia ou excesso de absinto (consta que Van Gogh abusava um bocado). Numa crónica escrita há muito tempo numa revista já extinta e de cujo nome não me lembro, Aguiar afirmava que Van Gogh não era enlouquecido pela sua loucura, mas por saber que a sua arte não lhe garantiria a refeição no dia seguinte.

O irmão, Theo, era um negociante de arte e acreditava no seu talento, mas mesmo assim só lhe conseguiu vender um quadro. Sustentou-o durante quase toda a sua vida, o que não é saudável para o orgulho de ninguém. Num desfecho muito típico, a qualidade da obra só seria reconhecida depois da morte do autor, ocorrida em Julho de 1890: Van Gogh disparou um tiro sobre o próprio peito e morreu dois dias depois. As suas últimas palavras: ‘A tristeza durará para sempre’.

Hoje em dia cada quadro seu vale uma fortuna quase inimaginável. Um exemplo: em 1990, o quadro Retrato do Dr. Gachet foi comprado por 60 milhões e 500 mil euros.

10 comentários

  • 1
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    28 de Dezembro de 2007 - 21:18 | Link permamente

    Não sou grande apreciador de arte, especialmente no que não encaixa no realismo, mas admito que o Van Gogh consegue surprender, numa pintura que parece pouco fundamentada e básica foi capaz de incluir muitos elementos “estranhos”, e que leva mais de 100 anos depois da sua morte uma coisa chamada “peritos” a ponderar o que queria o autor transmitir, conclusão? Isto sim é um bom trabalho.

  • 2
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    28 de Dezembro de 2007 - 22:32 | Link permamente

    Disparou dois tiros sobre si próprio e morreu dois dias depois? Até aqui os peritos haviam de encontrar algum tipo de simbologia. Cá para mim, o homem tinha pouca pontaria ou uma incrível vontade de ter uma morte lenta…
    Talvez nessa altura já suspeitasse que depois de morto, os seus quadros iam alimentar o ego de muita gente e rechear os cofres de muito ingrato. Agruras da vida…

  • 3
    com BonEcho 2.0.0.12pre BonEcho 2.0.0.12pre em Windows XP Windows XP
    28 de Dezembro de 2007 - 22:36 | Link permamente

    Mona Lisa: a única simbologia a encontrar é a minha própria idiotice. O homem disparou um tiro sobre o peito, não dois… O ‘dois’ dos dias escorregou-me para o dos tiros, se é que esta frase faz sentido. Já corrigi.

  • 4
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    29 de Dezembro de 2007 - 00:43 | Link permamente

    :lol:
    Uma pessoa aqui a esforçar-se por dizer alguma coisa minimamente interessante nestes dias de ressaca e dá nisto!
    :lol:

  • 5
    FNP.PT
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    29 de Dezembro de 2007 - 02:10 | Link permamente

    Eu sou um apreciador das estrelas. As últimas que vi foram na constelação 0-1. E não venham falar na 1-0 que pertence ao outro Mundo dos -7 ou -9. Nessas, a anos-luz do 41° 9? 0? N / 8° 36? 40? W e na escala de há mais de 30 anos 1 : 75000.
    É importante que os indígenas de 38° 42? 0? N / 9° 10? 0? W saibam disto. Cultura das estrelas…

  • 6
    com BonEcho 2.0.0.12pre BonEcho 2.0.0.12pre em Windows XP Windows XP
    29 de Dezembro de 2007 - 02:15 | Link permamente

    Lá estás tu a falar de futebol. :mrgreen:
    Devias ter posto este comentário lá mais acima, no post onde mostra uma nebulosa toda vermelhinha… :P

  • 7
    FNP.PT
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    29 de Dezembro de 2007 - 02:32 | Link permamente

    @Marco..
    Futebol? Estáss com a paranóia da inferioridade, pá!
    E quanto à nebulosa, na minha Terra é cinzenta. Vê lá se além do jornalismo, vês mais vezes a Meteorologia do Luís Serrano.

  • 8
    FNP.PT
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    29 de Dezembro de 2007 - 02:35 | Link permamente

    Pá vê se acertas o relógio, porque deves estar no mesmo País estrelado que eu! :wink:

  • 9
    FNP.PT
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    29 de Dezembro de 2007 - 03:13 | Link permamente

    Foste longe de mais… ó meu! :grin:
    Censurar o relógio, vê lá se te democratizas!

  • 10
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    10 de Janeiro de 2008 - 13:03 | Link permamente

    Gosto do Van Gogh.
    Nas horas vagas, por vezes, também dou umas pinceladas. Mas sou bem mais poupado nas tintas.
    Quanto à teoria do campanário, por si só ele representa a igreja. Sem esse súbtil elemento, seria apenas um aglomerado de casas sem referência alguma a Saint-Rémy. Foi essa pincelada que marcou a diferença, muito mais do que as espirais das estrelas.
    Em toda a tosca obra do ruivo, há sempre essas pinceladas de mestre, mesmo que pouco perceptíveis.

    Teorias. Quem as não tem?