→ 13/02/2011 @3:35

A foto que salvou uma vida

Bibi Aisha, 18 anos, fotografada por Jodi Bieber num campo de refugiados em Kabul, Afeganistão: ela tinha uma história medieval para partilhar

Esta é a foto vencedora do World Press Photo 2010, publicada na edição de 1 de Agosto da revista Time. Foi tirada pela fotógrafa sul-africana Jodi Bieber. A rapariga retratada na foto é Bibi Aisha, uma bonita afegã de 18 anos oriunda de uma remota província do Afeganistão – Oruzgan – controlada pelos talibã.

Aisha fugira do marido e refugiara-se em casa dos pais, queixando-se de ser tratada como uma escrava. Uma noite chegaram os talibã, exigindo «justiça»: Aisha teria de ser julgada pelo seu crime. Os pais nada podiam fazer e ela foi levada.

Um comandante talibã serviu de juiz e sentenciou-lhe um castigo exemplar: Aisha tornar-se-ia um símbolo de medo e vergonha para qualquer outra mulher que ousasse fugir e desonrar o marido.

O cunhado de Aisha segurou a jovem enquanto o marido lhe cortava as orelhas e o nariz. Depois deixaram-na para morrer.

Pouco tempo depois, o sogro de Aisha foi visto nas ruas exibindo orgulhosamente o nariz ensanguentado daquela que fora a mulher do filho.

Aisha perdera o nariz, as orelhas, a dignidade, a juventude e a auto-estima para que um homenzinho pudesse recuperar a sua preciosa honra de capataz.

Salvou-se porque foi encontrada por civis que faziam trabalho humanitário no Afeganistão. Estes entregaram-na ao exército norte-americano.

Jodie Bieber descobriu-a num campo de refugiados para mulheres, em Kabul, a capital do que formalmente tem sido apontado como um país.

A atenção de Bieber foi atraída pelo brutal contraste entre um rosto jovem, bonito e desfigurado. Por esta altura, com o auxílio de um intérprete, já a repórter sabia o que acontecera: considerou então que aquele rosto já contava tudo e não insistiu para que a rapariga afastasse os cabelos e mostrasse o resto.


A repercussão desta história foi enorme.

A Grossman Burn Foundation, uma organização humanitária da Califórnia, resgatou-a dos tempos da Idade Média, pagou-lhe a viagem para os EUA e uma prótese – um modelo do que os cirurgiões esperam vir a ser o nariz, depois de passar por diversas e complicadas operações de reconstrução que não durarão menos de um ano. Vive agora no Bronx, em Nova Iorque.

Qual teria sido o destino de Aisha sem aquela fotografia?

12 comentários

  • 1
    Fernando Faria
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    13 de Fevereiro de 2011 - 04:16 | Link permamente

    Não teria nenhum…

  • 2
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    13 de Fevereiro de 2011 - 06:41 | Link permamente

    Aqui já existe o aproveitamento político da situação. Se os Talibans tivessem acesso com câmaras fotográficas ao interior do Sul dos EUA hoje, também publicariam no Oriente muçulmano fotografias muito fortes. O destino da jovem não foi traçado pela foto mas por quem a encontrou que, se calhar, até chamou o fotógrafo.

    • 3
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      13 de Fevereiro de 2011 - 16:00 | Link permamente

      @Edgard, aproveitamento político dizes tu.

      Isto não é aproveitamento político, isto é barbárie, no Afeganistão ou em qq outra parte do mundo. O que fizeram a esta rapariga, muitas pessoas (não todas) nem a um animal o eram capazes de fazer. E apenas o fizeram porque naquele(s) paíse(s) há muito que civilização partiu.

      É óbvio que nos USA ou na EEU todos os dias acontecem actos bárbaros, mas a diferença é que cá eles são vistos como algo de grave e normalmente punidos de acordo. No Afeganistão este acto é visto como um acto de justiça, quiçá um acto nobre. É essa a diferença.

      • 4
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        13 de Fevereiro de 2011 - 21:36 | Link permamente

        @Cromo dos Cromos

        Atenção: eu não dei a minha opinião sobre a situação, mas tão somente notei que há um aproveitamento político por aqueles que mostram a senhora, bonita para os padrões ocidentais, mostram-na antes e o depois e apontam isto como que a querer dizer o que afinal você mesmo afirmou: que lá não há o que por aqui se entende por civilização. Mas há outra, que não cabe a mim julgar certa ou errada.

        • 5
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          13 de Fevereiro de 2011 - 23:01 | Link permamente

          Sei que isto de bater em mulheres e mutilar partes do corpo (de mulheres) pode ser visto como algo normal e aceitável na civilização árabe mais radical, no entanto quer queiramos quer não, vivemos numa aldeia global, e custa-me aceitar que isto aconteça tão frequentemente, independentemente da educação ou da religião de cada um.

          Relativamente ao aproveitamento político, esse existe em todo o lado. Tal como a fotógrafa ganhou reconhecimento dos seus pares com a fortuna desta jovem, outros também o fizeram. Se isso é certo ou errado, não sei, e nesta situação em concreto é-me indiferente, pois perante o que se passou o importante é divulgar. Mostrar ao mundo a prepotência de alguns. Mostrar que ainda existem sítios onde a vida humana tem pouco valor.

        • 6
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          13 de Fevereiro de 2011 - 23:33 | Link permamente

          @Cromo dos Cosmos,
          a propósito da frase «sei que isto de bater em mulheres e mutilar partes do corpo (de mulheres) pode ser visto como algo normal e aceitável na civilização árabe mais radical», deixo estes dados:
          No relatório Mulheres do Mundo de 2010, da ONU, ficamos a saber que em 33 países – entre eles, a Bolívia, Armênia, Nicarágua, o Egipto e Uganda, onde foi possível obter dados – as próprias mulheres consideram apropriado serem espancadas ou agredidas pelo marido. No Benin, 51% das mulheres entrevistadas, sem instrução, consideram justificável que o marido bata na esposa por ela sair de casa sem lhe avisar. No Mali, 74% das mulheres aceitaria o castigo físico por se recusar a ter relações sexuais com o marido, 62% no caso de discutir com ele e 33% por queimar a refeição.
          Para mim, Bibi Aisha será a imagem da luta contra todo o tipo de violência contra as mulheres. As suas palavras terão de servir de exemplo e inspiração a todas as mulheres que consideram normais os actos de violência a que são sujeitas, apenas, por exemplo, porque deixaram queimar uma refeição enquanto cozinhavam.

    • 7
      Pedro
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      14 de Fevereiro de 2011 - 00:09 | Link permamente

      As 2 zonas simplesmente não são comparáveis. Vai perguntar a alguém se gostaria mais de viver num ou noutro sítio, a resposta óbvia.

  • 8
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    13 de Fevereiro de 2011 - 09:05 | Link permamente

    Marco, o destino dela poderia ser igual ao de muitas outras mulheres afegãs, que decidem imolar-se pelo fogo na esperança de ter um fim rápido.
    Tirado daqui: “Mulheres Desesperadas que se Imolam”
    «Muitas meninas ainda são dadas como pagamento de dívidas, o que sentencia a mulher a uma vida de servidão ou escravatura e, quase sempre, de abusos. Farzana ficou prometida aos 8 anos e casou aos 12. Aos 17 anos, depois de um calvário de espancamentos e abusos por parte do marido e da sua família, ela tomou a decisão de se imolar. Uma decisão tomada depois do seu sogro a desafiar a cometer esse acto, tendo-lhe dito que ela não teria coragem para o executar. Entregou o seu filho de 9 meses ao marido, foi para o quintal, regou-se com combustível usado para cozinhar e, acendeu um fósforo. Ficou com 58% do corpo queimado. Passou 57 dias no hospital, onde foi submetida a vários enxertos de pele. Teve alta e ficou a viver com a sua mãe. A sua filha ficou a viver com o marido, impedida de ser visitada pela mãe ou pela avó materna. Nem isso convence Farzana a voltar para a casa do marido.»

  • 9
    The end of times
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    13 de Fevereiro de 2011 - 18:41 | Link permamente

    De forma independente, sem querer saber se houve aproveitamento politico, fiquei feliz quando vi as fotos finais com a reconstrução do nariz… e ainda bem que acabou assim… quanto aos talibãs, os americanos em outros aspectos também fazem coisas abomináveis… e ninguém os critica… claro que não defendo os talibãs…

    • 10
      Pedro
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      14 de Fevereiro de 2011 - 00:27 | Link permamente

      Ninguém critica os americanos? estás a brincar, se há nação mais debaixo de fogo sobre tudo o que faz é a América, algumas vezes exageradamente, outras não. Mas há outras sim que também pintam a manta e ninguém diz nada.
      E qualquer exército numa guerra faz coisas abomináveis, especialmente quando a guerra está difícil e prolongada -os ingleses também foram acusados de terem feito algumas- mas seja como fôr são a excepção e não a regra. O mesmo não posso dizer acerca destes monstros que fazem isso por ser “costume e tradição”, como os apoiantes do politicamente correcto gostam de os desculpar.
      Quem exibe as partes cortadas para se vangloriar é inferior, é sub-gente, e quem achar que não, vive noutro planeta de certeza.

      Ah e a rapariga é bem gira (o marido devia ser larilas), depois de ver a 1ª foto é refrescante ver o sorriso nas outras

  • 11
    Pedro
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    14 de Fevereiro de 2011 - 00:35 | Link permamente

    Já agora, o Ocidente bem podia ser menos permissivo quanto a estas coisas que já estão a entranhar em muitos países do norte da Europa: na Dinamarca um político está a ser julgado por difamação por ter falado num relatório q mostrava que a maior parte dos crimes violentos desse país eram efectuados por muçulmanos -na Suécia é-se condenado pela mesma coisa;
    na Holanda os polícias têm que tirar o calçado sempre que entrarem em mesquitas mesmo que seja para fazer uma rusga –ridículo;
    e no Reino Unido foi ou vai a votos a introdução da Sharia, a lei muçulmana que trata as mulheres como carne do talho (suponho que só para as comunidades muçulmanas, de contrário é estúpido demais para ser verdade). Claro que não vai vencer, mas só o facto de ir a votos uma barbaridade destas já é um insulto.

    Era suposto estes países mais atrasados e respec/ populações quererem ter um modo de vida como o nosso- daí virem para cá-, e não o contrário, digo eu….

  • 12
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    18 de Fevereiro de 2011 - 13:11 | Link permamente

    Não conhecia a história toda ao pormenor. Mas pronto… ao menos deram-lhe “alguma” dignidade e ao menos já não se deve sentir tão diferente.

    País com mentalidades retrógradas… que triste. :(