
Uma mulher acaba de saber que a mãe e o filho, de três anos, foram encontrados mortos nos escombros da sua casa em Miyako (Foto: Associated Press/Mainichi Shimbun)
Enquanto o Japão conta os mortos (quase 17 mil, segundo as últimas estimativas oficiais) e eleva de quatro para cinco o nível de alerta nuclear, já a dois níveis do que se atingiu em Chernobyl, um jornalista da CNN, Jack Cafferty, não esconde a surpresa e faz uma pergunta:
«Tendo em conta a escassez de comida e a incrível destruição, incluindo em Tóquio, por que razão não estão a ocorrer episódios de pilhagens e vandalismo no Japão?»
Cafferty estabelece um paralelo com o que sucedeu no seu próprio país depois da passagem devastadora do furacão Katrina e cita um colega, Ed West, do Telegraph.
West escreveu uma crónica na qual se confessava «estupefacto» pela reacção ordeira do povo japonês ao terramoto e ao tsunami, e do sentimento de solidariedade que encontrou um pouco por todo o lado.
«As cadeias de supermercado baixaram drasticamente os preços dos produtos assim que ficou clara a dimensão da catástrofe», conta Ed West. «Vendedores de bebidas começaram a distribui-las gratuitamente, com a justificação de que todos trabalhavam para assegurar a sobrevivência de todos».
Cafferty adianta uma explicação: os japoneses possuem um código moral tão elevado que se mantém intacto mesmo nas horas mais sombrias, mesmo quando só existe destruição em redor.
Esta explicação não lhe deve ter parecido completa. Pediu então aos leitores do seu blogue – americanos, na sua maioria – para responder à mesma pergunta. Link






























19 comentários
A mentalidade e sentido de honra e dever daquele povo é um tanto diferente do nosso, mas a verdade é que há sempre ovelhas negras e já tinha ouvido na tv que afinal haveria alguns mas muito poucos casos de pilhagens isoladas aqui e ali. O incrível da coisa (ou talvez não se não for mais que defesa do seu “território”) é que até os grandes clãs de “yakuzas” patrulham as ruas e impedem tais actos.
Este é sempre um país estranho de entender. Deveriam ter ficado traumatizados na 2ª.GM com o efeito nuclear nas suas vidas mas não, desataram a colocar e tentar “domar” centrais nucleares país fora. Enfim, sendo um país assolado constantemente por problemas sismícos um dia tinha de dar barraca…
Serão eles o país estranho ou nós?
Depende do que considerares ser “normal”
Bem, qualquer país que não o nosso carece sempre de entendimento, por isso normalmente somos todos estranhos aos olhos de outros. No entanto convenhamos é mais fácil entendermos uma Espanha do que um Japão não?
nem mais
Isso é muito relativo. Nascemos e convivemos numa sociedade que nos obriga, digamos, a certos hábitos que temos como “normais” mas também crescemos e temos connosco a possibilidade de pensar, agir e de mudar, se assim entendermos. Eu, que sou ocidental, compreendo o porquê dos seus actos, enquanto que muitas vezes, tenho dificuldades em nos compreender os nosso, ocidentais.
Serão assim tão “regionais” a moral e os objectivos de uma vida dentro da mesma espécie? Penso que não. Todos querem a mesma coisa. Só não sabemos como alcança-la. Ou sabemos e não queremos.
É sempre interessante perceber como, até nas condições mais extremas, o ser humano tem aparentemente a oportunidade de escolher entre tornar-se um ser vil e destruidor ou um ser magnífico e inspirador! Obrigado pelo post.
Uma cultura colectiva numa sociedade evoluída num país com alto desenvolvimento económico onde a riqueza é bem distribuída (2º no Índice GINI da ONU)
Há quem diga que o segredo da sociedade japonesa é já ter evoluído para um nível superior ao da Ocidental. Eu não estou certo de ter sido assim: talvez seja antes o AINDA não ter involuído para o nível da Ocidental.
Explicar num par de parágrafos o que distingue culturas são afastadas, parece-me irrealista. Basta pensar que, até ao final da II Guerra Mundial, havia muito pouco conhecimento mútuo entre o Ocidente e o Japão, para perceber o porquê desta (ainda) distância.
Penso que a grande diferença que explica muito do comportamento é esta: a sociedade japonesa modernizou-se sem rejeitar a tradição ou valores comportamentais que nós passámos a aceitar como anacrónicos. Conceitos como honra (pessoal e familiar), delicadeza para com terceiros, ética de trabalho, comunidade. Manter a tradição de certos cerimoniais, como a vénia de saudação ou o Kanamura Matsuri, festa popular em que se venera um enorme pénis como símbolo de fertilidade. Manterem o respeito pelos seus velhos enquanto possuidores de experiência e sabedoria, considerando mesmo uma honra (e não um empecilho) cuidar deles. Sentirem ainda uma forte ligação à natureza, celebrando com festas e piqueniques a floração das cerejeiras.
E esta (ainda) ligação à natureza resulta também, na minha opinião, de o Japão estar sujeito a fenómenos naturais deste tipo. Terramotos, tempestades, ciclones, tudo isto são ocorrências com as quais os japoneses sabem que terão de conviver. Acredito que a sua reacção a este terramoto se deve, em parte, a essa proximidade dos elementos naturais, à consciência colectiva de que a pergunta não é SE haverá uma catástrofe natural no futuro mais ou menos próximo mas sim QUANDO ela ocorrerá.
Acredito, portanto, que uma razão para esta ausência de pilhagens generalizadas se deva à sua preparação implícita para a catástrofe. Mas também se deve à cultura japonesa de respeito pelas regras. Essa cultura permite que a proibição de venda de álcool a menores conviva com a existência de máquinas de venda automática de bebidas, sem que por isso se veja adolescentes bêbados como cachos a cambalear em cada esquina. E quando se pergunta a algum deles o porquê de não aproveitarem a oportunidade dada por essas máquinas, eles respondem com a maior naturalidade “porque não o devemos fazer”.
Eu gosto sinceramente da sociedade japonesa e dos japoneses. Conseguiram conciliar a necessidade de conviverem doze ou quinze milhões de pessoas numa cidade, com a manutenção de uma certa privacidade e de respeito pelo espaço pessoal alheio. No Japão, falar ao telemóvel num transporte público tende a ser visto não só como indelicado mas francamente rude. Que distância para os nossos transportes, em que uma viagem de metro oscila entre parecer uma conferência e um franco chinfrim de arraial. E da meia-dúzia de japoneses com os quais calhei a privar pelo acaso da minha vida profissional, só posso dizer coisas como cortesia, educação, delicadeza, etc.
Agora, estou aqui a dizer isto mas, é claro, nem tudo é perfeito na sociedade do Japão. Há o bullying, flagelo de dimensão surpreendente. Há os programas de variedades na televisão que fazem um histriónico como o Fernando Mendes parecer a sobriedade personificada. E por mais que eu pense, não compreendo como aquele povo sensato foi capaz de criar uma actividade tão vil, absurda e sórdida como o… karaoke.
Uma boa e interessante análise. Como bem dizes no último parágrafo a aparente perfeição em certas coisas no Japão onde nós falhamos é abalada noutros aspectos. A sociedade japonesa se em algumas parece muito forte e sólida continua a ser um país com traumas, complexos, manias, com uma abertura ao exterior aparente e enganadora e à procura ainda de uma certa identidade que os coloque entre os dois mundos.
Os japoneses são formados numa cultura moral que remonta aos tempos dos samurais… não é de espantar este tipo de atitudes, todos nós temos presente que em empresas como a Toyota ou a Honda, em que valorizam os trabalhadores, e estes têm um dever para com a empresa, a relação laboral é mais que isso, é um sentimento de honra. Dai a excelência de todos os seus produtos. Ao contrário do povo americano que está totalmente subvertido pela ganância, pela inveja, pelo poder monetário, pelo easy buck, o povo japonês, apesar de todo o seu desenvolvimento tecnológico, da valorização do capital, mantém a sua plena integridade. Uma nota final: parafraseando um autor que agora não me recordo, “a integridade dos homens é testada em tempos de adversidade”. Penso que os japoneses já passaram esse teste. Mas, em caso de terramoto em Portugal, como se comportariam os portugueses ? Deixo aqui o mote.
Aligato, obrigado !
Se é preciso ajudar o povo Japonês, nestes momentos, quem foi dar o seu sangue à embaixada Japonesa ? penso que é também necessário ser realista.
Se Tcherno representa o fim do Estalinismo e outros Maoísmos, a catástrofe nuclear Japonesa representa também o fim duma era : Teremos os meios de continuar a consumir igual , a gastar a mesma energia ?
Uma questão que bate à porta !
Nuno
Pergunta bastante pertinente…Cada vez mais temos de olhar para as novas formas de energia…Mas não só: o mais importante é olharmos para o nosso consumo…
Já agora queria partilhar isto aqui no blogue do bitaites porque sei que é muito visitado e tal e gostava que esta ideia fosse dada a conhecer ao maior nº de pessoas…
Um abraço
Para podermos os entender, teremos que ser como eles.
Há coisas que não gosto na sociedade japonesa, como o nobre sentido de honra por vezes subvertido que faz com que um executivo que tenha falhado em qq coisita de nada tenha quase a obrigação de se suicidar para não se ‘desonrar’ ainda mais e à familia, o mesmo acontecendo com os estudantes e as notas, ou então o fascínio deles pelas ‘lolitas’ com o ar mais infantil possível para agradar a velhos babados, o que dá um ar de pedofilia “culturalmente aceitável”.
Mas isto que é dito no post eu admiro. O controlo, a educação, organização, a vontade em ajudar o próximo, que diferença.
(Ah e também não gosto do pop japonês, é intragável
)
Tocas nuns aspectos pertinentes. Porque até onde será o aparente heróismo dos 50 tipos do reactor um acto altruísta e não antes querer evitar a desonra e desgraça de ter abandonado o posto?
O Japão é realmente é um dos países com a adoração pedófila mais encoberta do mundo. Tais signais estão presentes em muito da cultura otaku. Caramba, eles até se “babam” com cuequinhas usadas por colegiais (http://en.wikipedia.org/wiki/Burusera).
Esse site diz tudo, ainda bem que aos poucos estão a começar a proibir. “restricted purchases and sales of used underwear, saliva, urine, and feces of people under 18″ (!!) …Isto não é saudável.
Também acho piada a toda aquela atitude zen e ‘uno’ com a natureza “que nós ocidentais não temos blabláblá”, mas que não os impede de exterminar golfinhos, ou extinguir espécies inteiras só porque os bigodes são usados como afrodisíaco. Mas naquela zona não são só eles.
Dito isto, e quanto aos 50 heróis, quem conhece a sociedade afirma que realmente existe o costume de ajudar o próximo (os quase comuns desastres naturais também ‘ajudam’), portanto acho que estão mesmo ali de forma altruísta, quanto mais não seja, pelas suas famílias.
Mete impressão também quado eles por momentos perdem o controlo e deixam as emoções virem ao de cima, tal o desespero. Afinal eles são apenas humanos, tudo o resto são questões culturais.
Apesar de tudo não me importava de ir ao Japão, aquelas imagens com o monte Fuji e umas florzinhas cor-de-rosa é quase mágico.
É o Japão…E basta.
E para quem ache que no Ocidente tal controle e altruísmo nunca seriam possíveis, relembro os ataques às torres gémeas em que houve muitos actos altruístas e de sacrifício, e também poucos anos mais tarde em que ocorreu também em NY um blackout (não é aquele histórico de há décadas) e toda a gente temia que fosse um ataque terrorista à rede eléctrica (não foi), toda a NY às escuras, montes de gente em Time Square à luz de telemóveis e isqueiros, e simplesmente não houve distúrbios, nem pilhagens, as pessoas mantiveram-se calmas e unidas.