→ 06/11/2006 @5:01

2001: a história acaba primeiro que o filme

A história de 2001: Odisseia no Espaço é fácil de contar.

Divide-se em três partes: o alvorecer do Homem, da Terra à Lua, do osso-ferramenta à nave espacial; a missão a Júpiter por causa do monolito e todos os acontecimentos que se verificam a bordo da nave; a chegada a Júpiter.
A quarta parte – a sequência final com o astronauta Bowman – já não faz parte da história porque se situa numa dimensão em que as histórias, prisioneiras da passagem do Tempo, não existem.

THE DAWN OF MAN

Quando ainda éramos macacos, há uns quatro milhões de anos, apareceu na Terra um misterioso objecto em forma de monolito. O objecto inspirou o macaco a usar um pedaço de osso como uma ferramenta de guerra contra macacos de tribos rivais. Daí até às naves espaciais foi um pulo.

Agora que já somos seres civilizados e tecnologicamente avançados, descobrimos um monolito semelhante que estava enterrado na Lua há milhões de anos. Tal como os macacos, continuamos sem perceber nada, a não ser que o monolito está a enviar sinais rádio para Júpiter.

JUPITER MISSION

A nave espacial Discovery parte com o objectivo de descobrir o que lá se encontra. Os membros da tripulação – dois astronautas e três cientistas ainda em estado de hibernação – desconhecem todos os pormenores críticos da missão mas HAL, o super-computador de bordo, capaz de falar como uma pessoa, encarregue da manutenção da nave e do estado psicológico dos seus ocupantes humanos, está ao corrente da existência do monolito.

Quando HAL conclui que os seres humanos podem colocar em risco a missão, resolve eliminá-los. Mata todos menos um – o comandante Dave Bowman, lutando pela sobrevivência como outrora o fizeram os macacos seus antepassados, consegue desligar o computador.

JUPITER AND BEYOND

Chegado a Júpiter, Bowman descobre que o monolito desenterrado na Lua aponta para uma série de milhares de monolitos estacionados em órbita do planeta gasoso gigante. Quando entra no casulo espacial e se dirige aos estranhos objectos… Acaba a história.

THE INFINITE

Se pensarmos que a história do Universo também é fácil de contar (até a um certo ponto, e esse ponto que depois se expande chamamos-lhe Big Bang), facilmente percebemos que tudo o que esteja para além dessa linha do horizonte onde terminam todas as histórias é impossível de ser alcançado pela nossa compreensão. Perguntar o que significa o final de 2001 é o mesmo que querer saber o que existia antes do Big Bang (1). Qual antes, se não existia Tempo?

A história acabou e, contudo, o filme continua.

A sequência final da viagem psicadélica é tão espectacular como se estivéssemos numa montanha-russa cósmica e viajássemos no carrinho do Einstein.

Piscamos os olhos e tudo aquilo desaparece. De repente Bowman encontra-se numa sala decorada com mobiliário do século XVII, mas branca e fria como como os corredores de um hospital. O chão, todo aos quadrados, lembra um tabuleiro de xadrez. A cada passo que dá, o astronauta parece tornar-se um peão de forças infinitamente poderosas e invisíveis.

Ouvem-se vozes e sons indecifráveis. O astronauta vê-se a si próprio muito mais velho enquanto o muito mais velho Bowman, num sorriso sarcástico de reconhecimento, se vê a si próprio mais novo. Tem início o jogo do Infinito, o xeque-mate às capacidades humanas. A sala poderá ser a representação cinematográfica do que os cientistas designam por singularidade.

Temos Bowman deitado na cama, na mesma sala, seco como uma múmia, à beira da morte, estendendo a mão ao monolito como Adão estendeu a mão a Deus no quadro de Miguel Ângelo pintado na Capela Cistina.

A imagem já faz mais sentido, está-nos na memória, na nossa e em milhões antes de nós – e então julgamos ver, mas mesmo assim não temos a certeza, uma representação surrealista da origem divina do Homem. Deus então é o monolito, monolito é Deus.

Bowman desaparece para surgir transformado num gigantesco feto estelar – e já não nos parece existir nada de tão obviamente divino, mas apenas nova representação de uma verdade química que em 1968, ano de estreia do filme, era já conhecida: somos feitos da mesma matéria das estrelas.

Qualquer das interpretações que se possa dar a 2001 é correcta e, ao mesmo tempo, necessária para que o filme, mais de trinta anos depois, ainda não tenha terminado. Sem a nossa especulação, o filme teria acabado ao mesmo tempo que a história, ou seja, quando Bowman deixou o mundo tal e qual o conhecemos. Mas Kubrick queria filmar a nossa condição de eternos e ansiosos perguntadores das galáxias. O monolito é apenas uma criação artística.