A Proposta Irrecusável
Autoria: Marco Santos [2/Junho/2008] [61]Que não poderei fechar-lhe a porta, nem que sejam três da manhã, já eu sei muito bem. A questão que se coloca é como livrar-me da sua presença o mais rapidamente possível, sem o ofender. Mas ei-lo aqui, desalinhado e ofegante, à espera de convite para entrar.
A transformação do senhor Antunes é inexplicável: sempre o vi entre silenciosas sessões de televisão no sofá, cigarros pensativos à janela e, de vez em quando, como cicerone de misteriosos visitantes cuja principal característica era a de serem tão sombrios como o anfitrião.
Há anos que é assim. Não sei como terá conhecido aquela gente. Conduziam grandes bombas, vestiam-se impecavelmente e não davam confiança a ninguém. O meu vizinho não é um homem rico, longe disso, até está reformado, mas pouco fala sobre o que fez na vida. Trabalhara numa fábrica, dissera-o uma única vez, sem grande vontade de continuar a conversa e nunca mencionando o tipo de coisas que ajudara a fabricar.
Embora muitas das minhas melhores recordações de infância lhe estivessem associadas, o senhor Antunes nunca se esforçou por parecer uma espécie de tio das crianças do bairro ou, sequer, vizinho simpático. Quando os misteriosos visitantes lhe batiam à porta, porém, desfazia-se em sorrisos; perpassava-lhe pelo rosto, habitualmente grave e fechado, a mesma aragem fresca que se sente num quarto quando, logo de manhã, são abertas as janelas.
- Boa noite, Francisco – começou ele. – Desculpa lá, mas a luz da sala ainda estava acesa e eu pensei…
- Não há problema, entre. – Fechei a porta muito devagar. Ele já se sentava no mesmo sofá onde muitas vezes eu lhe mostrara, entusiasmado, as maravilhas do som das minhas colunas hi-fi, versão adulta da TV Brinca do passado. Peguei num CD do Miles Davis, Kind of Blue, regulei o volume para o mínimo e caí na pequena poltrona que usava sempre para ver filmes ou ouvir música. Fiquei calado, à espera.
- Bem, olha, não sei como começar.
- Disse-me que viu extraterrestres. Sabe que eu não acredito.
- Não te contei tudo. Menti deliberadamente. Eu vi-os porque sou um deles. Há muita coisa que não te posso explicar, compreendes, mas ser colocado no planeta Terra, neste lugar do Tempo, acaba por ser uma missão semelhante ao que fazem os vossos assistentes sociais. – Pareceu ficar satisfeito com a definição. – Sou um assistente social à escala universal.
- Vou fumar um cigarro.
- Força. Sabes que te faz mal.
- Sei.
- Não é muito sensato envenenares o corpo dessa maneira.
- Mas você também fuma!
- A mim não faz diferença.
- Pois, é verdade, o senhor agora é um cyborg marciano, já me tinha esquecido.
- Sou biológico, como tu. Quanto a Marte nem vale a pena falar. Só disparates!
- Portanto… – Tentava falar com naturalidade. - Eis-nos aqui, discutindo a sua origem extraterrestre e a minha insensatez por querer fumar. Há coisas piores. Podia ter dito que queria ser advogado.
- Também existem, à escala universal. Há conflitos…
- Tem consciência dos disparates que está a dizer? Acha que eu vou aceitá-los tranquilamente sem pensar que o senhor está doido da cabeça?
- Por isso é que me falaste desse tal Jung?
- Se me tivesse dito ao telefone o que me está a dizer agora, tinha desligado.
- Se estivesse no teu lugar provavelmente teria feito o mesmo.
- Portanto estamos de acordo: não pode levar-me a mal se o achar doido varrido.
- O problema é que não sou.
- Bem, então precisa de dormir. Está cansado. Se há conversa ideal para se deixar para amanhã, é esta. Depois de uma boa noite de sono, é possível que esqueça isto tudo e não volte a falar no assunto.
- Tenho uma proposta para ti. – O senhor Antunes levantou-se e, para minha enorme surpresa e ofensa, desligou a aparelhagem e reduziu a trompete do Miles Davis a um silêncio mortal. – Mas primeiro dá-me aí um cigarro.
Passei-lhe o maço, furioso. Sentou-se outra vez, esticando as pernas como se estivesse concentrado a ouvir música, deu umas passas profundas e soprou o fumo com evidente deleite.
– Queres ficar a conhecer a resposta a todas as questões que afectam o homem desde que adquiriu consciência de si próprio? Queres saber como começou o Universo? Queres saber quem o criou? Se Deus existe? Se há vida depois da morte? Se há um paraíso e um inferno? Retemos a nossa memória e identidade ou transformamo-nos em qualquer coisa de radicalmente diferente? Queres saber?
- Que raio de conversa é esta agora?
- Queres saber ou não? – Gritou o velho.
- Fale mais baixo, caramba! São quase três da manhã.
- Vou fazer esta pergunta mais uma vez: queres?
- O problema não é o facto de eu querer; é não acreditar que exista alguém capaz de fornecer as respostas. Estou a incluí-lo a si, ET ou não. – Sentei-me no meu sofá, esgotado, evitando olhá-lo directamente. – Desculpe, senhor Antunes, mas você está perturbado. É melhor ir para casa. Quero ficar sozinho.
- Sozinho estarás sempre enquanto não acreditares que existem respostas.
- É extraordinário. Conheço-o desde miúdo e nestes últimos cinco minutos você falou mais do que nos últimos trinta anos. Já lhe disse que não me apetece ter esta conversa. É absurdo. Quero ficar sozinho. Por favor, saia. – Levantei-me do sofá, sem controlar o nervosismo.
- Francisco, estou a fazer apenas uma simples pergunta. Responde-me e eu saio daqui para fora.
- A sua pergunta é estúpida! Existe alguém que não queira saber as respostas a questões tão importantes como essas? Vivemos das nossas convicções, mas o que temos são incertezas camufladas pela fé ou pelo cepticismo. Qual é a diferença entre acreditar em OVNIs ou em anjos? Não vai dar tudo ao mesmo? Que raio, homem, deixe-me em paz!
- Portanto – prosseguiu o velho, imperturbável. – Depreendo que a tua resposta é sim. Queres mesmo saber?
- Eu e toda a Humanidade. Bolas, que pesadelo!
- Ora, Francisco – o velhote abriu-se num daqueles raros sorrisos só visíveis quando recebia misteriosos e importantes convidados. – Não foi assim tão difícil, pois não? Bem! – Endireitou-se no sofá com brusquidão, bateu com as mãos nas pernas e levantou-se, sinal de que finalmente se preparava para sair. – Agora, como te tinha prometido, vais ter acesso a todas as respostas. Espera lá um bocadinho.
Remexeu casualmente nos bolsos do casaco, como se estivesse à procura da carteira. O que acabou por tirar foi um objecto metálico que o meu cérebro, após alguns microsegundos de hesitação, reconheceu como uma pistola. Desencadeou-se-me no corpo uma brutal descarga de adrenalina que me deixou os músculos tensos e completamente paralizados. O meu vizinho, o bondoso e circunspecto senhor Antunes, nunca deixou de sorrir enquanto apontava a arma. Só precisou de disparar uma vez.
- Pronto, pronto – disse ele, debruçado sobre mim como se estivesse a ajudar-me a adormecer. – Agora já sabes.


























