21/Janeiro/2010

A desagregação da Primavera

Autoria: Marco Santos

Os modernos meios de comunicação – Rádio, Televisão, Internet – levaram a música a quase toda a gente. Hoje em dia é possível ouvi-la em todo o lado, dos restaurantes aos centros comerciais, dos comboios aos aviões. Até podemos levá-la connosco em leitores de MP3 e colá-la aos nossos ouvidos com auscultadores minúsculos de qualidade duvidosa. Mozart morreu coberto de dívidas, mas hoje em dia existem sucessos comerciais capazes de transformar músicos medíocres em multimilionários.

Nunca tantos ouviram tanta música – e é por isso que sinto haver qualquer coisa de profundamente errado na forma como aproveitamos as maravilhosas tecnologias de que dispomos. Deveríamos ter uma relação íntima com a música, mas as pessoas, quanto mais a ouvem, mais lhe ficam indiferentes.

Numa entrevista na década de 70 num talk-show qualquer, perguntaram a Frank Zappa o que achava ele da música Disco, que estava na moda e invadira as discotecas. Zappa encolheu os ombros como se aquilo fosse um fenómeno banal e respondeu: «Enquanto as pessoas quiserem ir para a cama umas com as outras, existirá sempre um estilo de música que facilite essa forma de interacção social». Em Zappa, já agora, a eloquência costuma ser uma forma de sarcasmo.

Zappa acertou em cheio: músicas tão massivamente divulgadas e divididas em géneros comerciais não são avaliadas pela sua estética, mas pela sua funcionalidade. Queremos música para correr. Música gourmet. Música bonita e que entre no ouvido com a mesma facilidade com que uma fotografia num cartão postal nos vicia os olhos. Queremos música para ver vídeoclips. Música para engatar. Música para mandar uma queca. Aceitamos com uma complacência escandalosa o facto de que a música como mero objecto de consumo é possível porque, hoje em dia, apenas se divulga música para fazer dinheiro. Somos roubados e condicionados a ansiar por mais. Não queremos educar os nossos ouvidos, queremo-los domesticados. Gozamos com a chamada «música de elevador» sem nos apercebermos de que ela está em todo o lado, embora se apresente com nomes diferentes.

A tecnologia devia estar ao nosso serviço, mas nós é que estamos ao serviço da tecnologia. Já perdemos o hábito de ouvir a música pela música e agora estamos a ficar escravos do MP3. Não sei até que ponto esse formato não estará a influenciar a forma como se grava e produz. No dia em que a maior parte das pessoas ouvir música apenas em formato MP3, como de resto já acontece actualmente com as novas gerações, o que será mais lucrativo para as editoras? Manter as subtilezas espaciais dos sons – só totalmente perceptíveis quando estamos num concerto ao vivo – ou puxar apenas pelas frequências sonoras que o MP3 suporta? Qual será então o futuro da música? Poderá ainda chamar-se música ou estará para a música como um holograma está para o corpo humano?



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