Arquivos anuais: 2012

→ 17/05/2012 @0:43

Já cá faltava a merda

Um cartoon de John Trever resumiu um dia as diferenças entre dois métodos, o científico e o criacionista, com humor e sabedoria. Os métodos eram exemplificados da seguinte forma:

Método científico – «Aqui estão os factos. Que conclusões podemos retirar deles?»

Método criacionista – «Aqui está a conclusão. Que factos podemos encontrar que a suporte?»

Partindo do duvidoso princípio de que é aceitável vasculhar a intimidade de um músico já falecido (ou de qualquer outra figura pública) por razões meramente comerciais, o jornalismo poderia ao menos considerar o método científico e formular o seguinte problema: «Aqui estão os factos. Que título e que peça poderemos retirar deles?»

O jornalismo criacionista da VIP (e outras publicações do género) usa o outro método: «Aqui está o título e a peça. Que factos podemos encontrar que os suporte?».

Na ausência de factos além dos que foram noticiados – Bernardo Sassetti escorregou de uma falésia enquanto fotografava – o jornalista criacionista não esmorece e socorre-se do cliché do «génio atormentado». E conta com a concordância de muitos dos seus leitores, para quem um «génio» só o poderá ser se estiver «atormentado».

Pobre artista que se atreva a gostar de viver, já não terá hipóteses de ser genial.

Até a diretora da VIP, «uma das últimas pessoas» a vê-lo com vida, descreve o encontro na bomba de gasolina das Amoreiras nos seguintes termos: «Homem magro, vestido com um blazer cinzento e com barba severa. Bernardo Sassetti, músico, pensei eu, estranhando a magreza».

Pois, estranhou porque era um músico. Pior, artista. Quando o jornalista criacionista escreve um artigo sobre saúde e bem estar, a magreza é aspirar à elegância; quando escreve um artigo sobre um artista genial, a magreza é um sinal de depressão.

Depois, para compor a peça, arranja-se um «amigo» que fale anonimamente a uma revista destas – eufemismo para coscuvilheiro – e suporte esta visão dúbia e preconceituosa, ignorando-se com matreirice o depoimento de todos os outros que deram a cara pela sua alegria de viver, entusiasmo contagiante e enorme ambição artística.

→ 13/05/2012 @22:03

(Ficheiro CUE, a pergunta habitual)

Tenho recebido alguns algumas mensagens de pessoas que não sabem o que fazer com os ficheiros CUE incluídos nas mixtapes. Presumo que estão a usar Windows (a malta mais geek do Linux e dos Mac saberá safar-se), por isso passo a explicar:

1. Podem usar o Foobar para ouvir a mixtape: basta arrastar o ficheiro CUE para a janela principal do programa e está feito.

2. Podem instalar um programa como o ImgBurn e usá-lo para gravar diretamente para CD: basta selecionar o ficheiro CUE com o botão direito do rato e, no menu Open With (Abrir Com), escolher a opção ImgBurn.

3. Se não conseguem ver a extensão dos ficheiros (CUE ou outra qualquer), então é porque se encontra marcada a opção para esconder tipos de extensão mais conhecidos. Abram o Painel de Controlo, cliquem em Aparência e Personalização, Opções de Pasta; selecionem a aba Ver e desmarquem a opção Ocultar extensões para tipos de ficheiro conhecidos – ou uma frase do género: a minha versão do Windows é em inglês.

Estão a ver, é muito simples.

→ 13/05/2012 @19:36

Mixtape: obviamente, não é uma despedida

Fotos: Carlos Paes

A morte prematura de um artista provoca uma dor de duplo sentido: chora-se pelo que ele já nos deu e pelo que nos poderia ter dado. De Frank Zappa a Jeff Buckley, de Janis Joplin a Lhasa de Sela, de Kurt Cobain a Amy Winehouse, de Esbjörn Svensson a Bernardo Sassetti; Charlie Parker, John Coltrane, Eric Dolphy, Bill Evans, John Lennon…

Sempre existiram muitas razões para lamentar e muitas também para ouvir – felizmente. O que se segue é uma pequena amostra do talento deste músico, compilada a partir de quatro discos: Indigo (2004), Ascent (2006), Unreal: Sidewalk Cartoon (2006) e Motion (2010). Estes e outros discos da sua discografia podem ser comprados através da Clean Feed.

Bernardo Sassetti não se suicidou, como especulam os imbecis que parasitam as caixas de comentários dos jornais, morreu como um artista: completamente focado no que pretendia fazer e esquecendo-se, temporariamente, de que as leis da gravidade também se aplicam aos sonhadores.

«Ter os instrumentos afinados, ter um bom par de sapatos» –  escreveu ele no Facebook. – «Se escorregar, cair na rua e sentir o prazer das pessoas à volta (existe sempre um certo prazer), levantar-me devagarinho e manter sempre a certeza de que aquele espaço onde escorreguei não é lá de muita confiança.»

→ 11/05/2012 @18:28

Porque o Jazz é só barulho (7)

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(Bernardo Sassetti Trio, Homecoming Queen)

→ 11/05/2012 @15:57

Até um dia, Bernardo

Bernardo Sassetti fotografado por Carlos Paes

A notícia deixou em choque os meios musicais. Num circuito pequeno como é o da música criativa portuguesa (chamemos-lhe assim para distingui-la da pop), minado por fraturas estéticas e questiúnculas pessoais, Bernardo Sassetti era dos poucos que tinham o privilégio de reunir a unanimidade das admirações.

Diga-se que, não só pela enorme dimensão da sua música, como igualmente pela gentileza com que sempre tratava as pessoas – os seus colegas de profissão, o seu público, todos.

Este vosso amigo tinha pouco mais do que 20 anos quando o viu e ouviu a tocar pela primeira vez, no Parque Palmela, em Cascais. Ele era um miúdo e a segurança com que se atirava a um repertório de standards vaticinava duas coisas: que estava ali um futuro grande músico e que, muito provavelmente, o seu território de ação seria o mainstream.

A minha primeira adivinhação confirmou-se, mas não a segunda. A música do Bernardo não se deixou espartilhar: tocou um jazz mais formal tanto quanto se atirou a projetos mais audaciosos nessa área, andou pelas franjas da música erudita e fez sucesso como compositor para cinema, sobretudo, e para teatro.

Depois de ouvir a banda sonora do filme «Alice», de Marco Martins, e o concept album «Unreal: Sidewalk Cartoon», complementado por um livro com montagens fotográficas e textos surrealistas também de sua autoria, desvaneceu-se qualquer dúvida que eu ainda pudesse ter: aqui estava uma das mais importantes figuras da música deste país.

São duas obras-primas, as acima assinaladas. Não hesito em dizê-lo. Foi com assombro que ouvi essas obras pela primeira vez e continuo a descobrir-lhes pormenores, segredos, recantos escondidos.

Conheci Bernardo Sassetti pessoalmente apenas há uns quatro ou cinco anos. Eu, ele e Rafael Toral fomos convidados pela Trienal de Arquitetura, na sua primeira edição, para conferenciarmos e fazermos um debate entre nós na Fundação Calouste Gulbenkian.

Lembro-me que, na ocasião, conversámos sobre as origens do nosso comum apelido, que ele não utilizava: Paes. Ele descendia de famílias burguesas do Norte e era bisneto de um dos primeiros Presidentes da República Portuguesa, Sidónio Paes; eu provenho de várias gerações de pescadores e armadores do Algarve.

Além do apelido e do gosto pela música e muito em especial pelo jazz, partilhávamos apenas outra particularidade: tivemos algures antecedentes judeus. Com a diferença de que, no meu caso, os tenho ainda árabes.

Depois disso, fomo-nos encontrando nos concertos, tanto os dele como de outros. Os muitos afazeres de ambos nunca proporcionaram uma relação mais próxima.

Nem por isso senti menos o desaparecimento do Bernardo. Porque é insubstituível, deixando o lugar que ocupava para sempre vazio, e porque a sua morte não podia ter sido mais estúpida: caiu da falésia no Guincho quando estava a fotografar. E que fantástico fotógrafo ele era…

Aqui lhe deixo uma vénia por tudo o que de magnífico nos deu. Até um dia, Bernardo.

→ 11/05/2012 @13:42

Enquanto não chega o tributo que mereces

Pouco há a escrever de momento: estou demasiado chocado com este desaparecimento.

Um dos grande músicos deste nosso empobrecido país, Bernardo Sassetti, 41 anos, cidadão do mundo, cancelara recentemente um concerto na Culturgest por razões de saúde, mas não foi uma doença que o matou. Bernardo morreu ontem quando caiu de uma falésia. O corpo foi encontrado numa zona rochosa perto da Praia do Abano, no Guincho. Estava a fotografar – outra das suas grandes paixões, a par do Cinema.

Uma perda enorme. Maravilhoso piano que acompanhou momentos tão importantes da minha vida. Sinto-me muito triste.

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(Bernardo Sassetti (1970-2012): Tema principal do filme Alice, de Marco Martins, gravado, sete anos depois, na Timbuktu Solo Sessions)

 

Excertos de uma entrevista ao Diário Económico

À vontade, copiem os meus discos. Pirateiem a minha música à vontade, mas oiçam-na. Eu prefiro que o façam, mas que oiçam, que tentem compreender, gostar, partilhar.

Vender não é a minha palavra de ordem. E a minha carreira desde o «Nocturno» (disco editado em 2002) tem sofrido uma baixa de vendas muito mais substancial do que eu estava à espera. O que não é grave. Eu não ganho nada com os discos que edito. A verdade é que nunca ganhei. O que eu quero é manter a ambição de melhorar os projectos de ano para ano. O que eu gostava realmente era que as pessoas ouvissem a minha música, percebessem a música e percebessem o porquê da música. Percebessem o projecto e o desenvolvimento.

Foto: Rita Carmo

Não acho legítimo que exista uma autoridade assertiva relativamente à música que os outros fazem. Eu seria incapaz de dizer «João Pedro não escrevas assim, escolhe outra palavra, outra abordagem para o teu texto».

As opções criativas e artísticas são qualquer coisa que é sentida cá dentro. E o facto de eu fazer uma música que não tem swing nem procura o swing, nem a tradição negra, ou negra/branca com estas influências todas que a Europa agora tem no jazz, deixou muitas pessoas desiludidas. Mas a realidade é que eu… olhe, não sei o que hei-de dizer. É um caminho. Gosto muito da música. Gosto de ir à procura. Estou sempre à procura.

Eu acho que cada um ouve música como quer. Mas acredito que 90% do mundo ouve música de forma errada e não é por culpa sua. É apenas porque não conhecem outro som, outra forma de ouvir. A culpa, de facto, é das editoras, dos produtores. Chegámos a um ponto em que está tudo altíssimo e que torna impossível ouvir o detalhe. E o detalhe na música, como em qualquer outra arte, às vezes é tudo.

A fotografia é uma coisa que nasceu naturalmente desta minha paixão de sempre pelo cinema. E da minha vontade de conseguir uma ligação profunda, ainda que abstracta, entre música e imagem. Adoro o acto de fotografar. Fisicamente é um prazer, como tocar piano, uma coisa muito orgânica. A forma como tiro uma fotografia tem muito a ver com a forma como me atiro ao piano. É difícil explicar… A fazer fotografia oiço música, a fazer música vejo sempre imagens. É uma ligação muito íntima para mim, que ainda não consegui pôr em palco como queria.

A entrevista ao jornalista João Pedro Oliveira pode ser lida aqui.

→ 11/05/2012 @0:01

Espelho retrovisor

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