Um cartoon de John Trever resumiu um dia as diferenças entre dois métodos, o científico e o criacionista, com humor e sabedoria. Os métodos eram exemplificados da seguinte forma:
Método científico – «Aqui estão os factos. Que conclusões podemos retirar deles?»
Método criacionista – «Aqui está a conclusão. Que factos podemos encontrar que a suporte?»
Partindo do duvidoso princípio de que é aceitável vasculhar a intimidade de um músico já falecido (ou de qualquer outra figura pública) por razões meramente comerciais, o jornalismo poderia ao menos considerar o método científico e formular o seguinte problema: «Aqui estão os factos. Que título e que peça poderemos retirar deles?»
O jornalismo criacionista da VIP (e outras publicações do género) usa o outro método: «Aqui está o título e a peça. Que factos podemos encontrar que os suporte?».
Na ausência de factos além dos que foram noticiados – Bernardo Sassetti escorregou de uma falésia enquanto fotografava – o jornalista criacionista não esmorece e socorre-se do cliché do «génio atormentado». E conta com a concordância de muitos dos seus leitores, para quem um «génio» só o poderá ser se estiver «atormentado».
Pobre artista que se atreva a gostar de viver, já não terá hipóteses de ser genial.
Até a diretora da VIP, «uma das últimas pessoas» a vê-lo com vida, descreve o encontro na bomba de gasolina das Amoreiras nos seguintes termos: «Homem magro, vestido com um blazer cinzento e com barba severa. Bernardo Sassetti, músico, pensei eu, estranhando a magreza».
Pois, estranhou porque era um músico. Pior, artista. Quando o jornalista criacionista escreve um artigo sobre saúde e bem estar, a magreza é aspirar à elegância; quando escreve um artigo sobre um artista genial, a magreza é um sinal de depressão.
Depois, para compor a peça, arranja-se um «amigo» que fale anonimamente a uma revista destas – eufemismo para coscuvilheiro – e suporte esta visão dúbia e preconceituosa, ignorando-se com matreirice o depoimento de todos os outros que deram a cara pela sua alegria de viver, entusiasmo contagiante e enorme ambição artística.




































