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→ 02/01/2010 @20:12

Avatar, o retumbante triunfo dos clichés

Avatar

Avatar custou 387 milhões de dólares – 237 em Produção e 150 em Marketing. Estes são os números oficiais.

O orçamento do filme foi superior ao Orçamento de Estado para a Cultura em 2008. Portugal gastou 245,5 milhões de euros na Cultura, a Fox gastou 270 milhões em Avatar.

A gastar tanto dinheiro não admira que a dada altura tenha sido necessário poupar. Como era vital que Avatar permanecesse visualmente deslumbrante, decidiram poupar em elementos mais secundários como, por exemplo, a história.

Alguém sabe dizer-me quanto custa um cliché hoje em dia? Em Hollywood são tão baratos que já se devem vender aos quilos. Se calhar até são oferecidos como promoção: gastas 200 milhões em efeitos especiais e levas como brinde um pacote de clichés para criares uma história. Cameron deve ter ficado com um saco de clichés e foi-se servindo consoante as necessidades.

Eu queria gostar de Avatar, a sério. Adoro ficção científica. Gosto da ideia de criar um mundo alienígena semelhante ao que os astrónomos sonham encontrar. Sou um apaixonado pelo tema da vida extraterrestre, inteligente ou não. Adoro filmes que usam a ficção científica como pretexto para contar uma história mais abrangente e sobretudo humana, como 2001: Odisseia no Espaço.

Tendo em conta que este é um projecto que o realizador James Cameron andou a germinar durante mais de 14 anos (em 1994 já escrevera uma sinopse de 80 páginas), esperava que Avatar tivesse como ponto de partida um fabuloso espectáculo visual mas que existisse arrojo e talento para muito mais.

Quando li que Cameron se inspirara em «todos os livros de ficção científica que li quando era miúdo», ainda pensei que ao longo destes anos tivesse incluído nas suas leituras um livro magnífico de uma das maiores escritoras de ficção científica da actualidade, Ursula K. Le Guin.

Tal como em Avatar, o livro A Floresta é o nome do Mundo, publicado em 1976, também nos conta a história do encontro entre seres humanos de tecnologia superior dominados pela ganância, crueldade e racismo, e uma raça alienígena pacífica e tecnologicamente atrasada que acaba por revoltar-se. Não quero dizer que esperava que Avatar fosse uma adaptação desse livro, como é óbvio, mas que pelo menos Cameron tivesse aprendido que se pode contar uma história emocionante sem recorrer a tantos clichés.

 

Alguns clichés, para começar

Guerreiro conhece guerreira

Rapaz humano incorporado num avatar alienígena apaixona-se por guerreira alienígena, que também é uma princesa por ser filha do chefe? Sim. O amor é correspondido? Sim. Cliché número 1, variação da história da Pocahontas. (Sobre estas semelhanças, consultar esta página, cortesia do João Almeida)

Por amor à princesa guerreira, o rapaz humano vai assimilar a pouco e pouco os costumes eco-religiosos da tribo alienígena até se tornar em um deles, de alma e coração e avatar? Sim. Cliché número 2.

O rapaz humano acabará por tornar-se num grande guerreiro que irá liderar a tribo alienígena contra a ganância e o militarismo dos humanos maus? Sim. Cliché número 3.

O chefe dos humanos maus é mesmo mau, ou seja, não tem nem uma única qualidade que se aproveite? Sim. Cliché número 4.

O guerreiro humano/alienígena conseguirá finalmente defrontar o chefe dos humanos maus num duelo final repleto de efeitos especiais? Sim. Cliché número 5.

O guerreiro e a princesa ficam juntos no fim, e felizes para sempre ou pelo menos até à sequela? Sim. Cliché número 6.

 

O que dizem que Avatar é, mas não é

A guerreira

Avatar até pode ser uma parábola ao Vietname, ao Iraque ou mesmo à colonização europeia da América, uma parábola ambientalista, uma denúncia ao capitalismo selvagem e militarista, uma reminiscência dos sombrios anos Bush, mas a consistência dessas parábolas termina assim que verificamos que não pode fugir ao facto de ser o típico produto do sistema que pretende criticar: os maus sacrificam a dignidade e o respeito pela Natureza e outras culturas em nome do lucro e da ganância, o filme sacrifica a riqueza e consistência do argumento em nome do lucro e de uma ideia de sucesso que pouco tem de artística.

O filme não contém nenhuma mensagem ecológica ou política consistente porque no maravilhoso e luxuriante mundo para onde somos transportados os bons ganham, os maus perdem e o «Bush» da história é morto com duas setas certeiras.

No mundo real que Avatar supostamente denuncia, os bons lixam-se, os maus ganham e o «Bush» desvia-se de sapatos com grande agilidade. No mundo real, a Natureza ignora as acções humanas; no mundo de Avatar, a Natureza tem uma energia proto-consciente e unificadora, uma «força» à maneira de Star Wars, capaz até de lançar animais selvagens contra os maus para «ajudar» os nativos no seu combate desigual contra as forças militares, uma cena montada ao som de uma orquestra tipicamente épico-triunfante mas que, reduzida ao osso, é para levar tão a sério como a luta dos Ewoks imaginada pelo George Lucas. Este tipo de tretas new-age não denuncia nem consciencializa nada, pelo contrário: é uma forma de alienação que achei tão ridícula que me fez revirar na cadeira, à procura de uma posição mais confortável – sem sucesso.

Num argumento destes a ideia é sermos deixados a flutuar no aquário deste «novo» cinema 3D – um maravilhoso aquário, não digo que não, repleto de efeitos e encantamentos tecnológicos, mas onde a emoção não se transmite porque assenta em soluções pré-fabricadas que me fizeram adivinhar o tipo de cena que iria ver a seguir.

A tecnologia de Avatar é realmente espantosa. Uma maravilha. Não sou daqueles que pensam que o futuro da representação no cinema esteja a ser posto em causa com a utilização de duplos digitais. O Gollum de O Senhor dos Anéis foi um trabalho incrível que tinha como base o actor e não uma dúzia de computadores. Neste filme, a tecnologia que captura os rostos e expressões reais dos actores, transformando-os em alienígenas, tem a função de substituir a maquilhagem. Não vejo mal nenhum nisso, pelo contrário: o resultado é magnífico e convincente.

Também não é pela criação de um mundo inteiro usando computadores que vou dizer que o filme é menos bom: adoro aquele mundo, uma lua em órbita de um planeta gigante – um pormenor delicioso para um leigo que gosta de Astronomia como eu. O computador é apenas uma ferramenta colocada ao serviço da criatividade humana, pelo que não é por aí que Avatar me irrita.

O cinema em si é uma ilusão – ilusão de movimento, em primeiro lugar – e não são técnicas cada vez mais sofisticadas para criar ilusões tridimensionais que vão matar o cinema. Não foram os próprios irmãos Lumière que nas primeiras digressões de apresentação do cinematógrafo mostraram, entre outros filmes, a Chegada de um Comboio à Estação da Ciotat, que fazia fugir o público, com medo de ser atropelado? Mais de 110 anos depois, dei comigo a fazer o gesto de afastar as pétalas que pareciam voar à minha volta em Avatar.

O que mata o Cinema não são os efeitos especiais ou a noção de espectáculo que lhe é associada – 2001: Odisseia no Espaço foi revolucionário nos efeitos especiais que usou, mas estes estavam ao serviço das ideias do argumento.

O que o mata o Cinema é a ausência de uma história, e a ausência de história conduz a fórmulas narrativas artificiais, e as fórmulas narrativas artificiais acabam com a capacidade de me sentir emocionalmente envolvido com o que estou a ver – é o caso de Avatar.

Cinema sem emoção, para mim, não é cinema – é outra coisa qualquer. Que Avatar tenha revolucionado essa «outra coisa qualquer», aceito perfeitamente; não façam é confusão com o Cinema. O Cinema pode ter começado como um feito tecnológico, mas não se reduz à tecnologia.

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