Arquivos anuais: 2010

→ 14/12/2010 @0:31

O bebé continua a gatinhar pelo Espaço

Espantosa Voyager

Daqui a milhares de anos (ou talvez menos, depende do optimismo de cada um), seres humanos exploradores galácticos poderão ter a sorte de descobrir um precioso e antiquíssimo artefacto: uma pequena sonda espacial baptizada Voyager 1.

Não sei como serão os seres humanos num futuro tão distante, mas imagino que tratarão da minúscula nave com um carinho só destinado aos bebés – a Voyager é o símbolo de uma época distante em que nos sentíamos do tamanho do nosso olhar, como escreveu Alberto Caeiro, mas tecnologicamente impossibilitados de fazer mais do que gatinhar pelo Cosmos.

É comovente saber que a sonda – trinta e três anos e 17,4 mil milhões de quilómetros depois – continua a transmitir informação para a Terra. Os últimos dados recebidos pelo Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA (Jet Propulsion Laboratory) indicam que esta pequenina se encontra nas fronteiras do nosso Sistema Solar, numa zona onde os efeitos dos ventos solares praticamente deixam de existir.

A criança está prestes a deixar o nosso pequeno quintal.

Sobre a odisseia das Voyager, escrevi um post há uns três anos onde se menciona também uma carga muito especial a bordo dessas naves: uma mensagem da raça humana dirigida aos alienígenas, inspirada numa ideia de Carl Sagan para as sondas Pioneer, referida neste post.

→ 13/12/2010 @22:51

Admirável mundo pequeno

Fantástico post no blogue MelodyMaker’s Posterous: digitalizações do livro «Microcosmos», de Brandon Broll. (Obrigado, Cris!)

Para obter estas imagens, foi utilizado um microscópio electrónico de varredura, capaz de captar, em alta resolução, objectos ampliados até 300 mil vezes.

O MelodyMaker’s Posterous apresenta um total de 24 imagens: insectos, partes do corpo humano e as estranhas criaturas que nele habitam, e objectos comuns que todos temos em casa. É um admirável mundo novo.

Formiga carregando um microchip

Formiga carregando um microchip

As pestanas de um olho humano

As pestanas, ampliadas 300 mil vezes

Bactérias existentes na língua humana

Bactérias existentes na língua humana

A cabeça de um mosquito

A cabeça de um mosquito

Um piolho trepando por um fio de cabelo humano

Um piolho trepando por um fio de cabelo humano
→ 13/12/2010 @20:09

Deixa lá, 2010 está quase a chegar ao fim

Foto: Andrew Medichini/AP

Foto: Andrew Medichini/AP
→ 13/12/2010 @17:47

Post para pequenos e médios intelectuais

De vez em quando recebo emails de visitantes que aqui aterraram no pára-quedas do Google e se sentiram ofendidos com a frase «Bitaites – Para pequenos e médios intelectuais».

Quer isso dizer que consideras os teus leitores estúpidos, é?

É uma pergunta absurda. Os teus leitores são o reflexo do teu blogue. Se forem estúpidos, também tu és estúpido. Chamar-lhes estúpidos é uma ofensa para o autor.

Por vezes, as pessoas deixam-se dominar pela fúria e precipitam-se. Daí este post. Ao invés de repetir sempre a mesma explicação, passarei a remetê-los para aqui.

Tudo começou durante um pacato almoço com um estimado colega de trabalho num restaurante em Lisboa. Ainda não tinha acabado de molhar as batatinhas fritas no meu ovo estrelado quando se começou a falar de blogues e da blogosfera.

Dizia ele que determinados blogues da chamada blogosfera política representavam a grande intelectualidade.

Parei de molhar as batatinhas fritas no ovo.

«São frequentados por típicos intelectuais, estás a ver? São a elite».

Dei mais um golo na coca-cola. O copo ficou vazio e resisti à tentação de voltar a encher a pança de gases secretos.

«Quanto ao teu blogue»

Agora é que te lixaste, pensei eu, vais ter de me enquadrar.

Imaginei-lhe no cérebro centenas de neurónios de fato e gravata, sentados nas suas secretárias, concentrados nos seus ecrãs, enviando memorandos uns aos outros, à procura da melhor e mais diplomática expressão para classificar a importância intelectual do meu precioso, único, formidável, magnífico e insubstituível bloguinhas. Então, pá?

«Bem, digamos que o teu é mais para pequenos e médios intelectuais».

Filho da mãe.

Depois de o assassinar com a perna de frango que o tipo da mesa ao lado estava a comer, ponderei melhor a questão e achei que era uma descrição absolutamente correcta para este blogue. E acabei por gamar-lhe a frase para colocar lá em cima.

A explicação para a minha súbita bonomia é tão simples como escrever a palavra tareco.

Quando tenta desencorajar um potencial adversário, o corpo do gato arqueia-se de forma a parecer maior do que realmente é.

Defino os pequenos e médios intelectuais como pessoas que não fazem com a inteligência o que os gatos fazem com o corpo.

São o meu tipo de gente – enciclopedicamente imperfeitos e até desprezíveis, mas que de alguma forma conseguiram preservar o hábito de pensar, o gosto pelo conhecimento e a maturidade de saber que, por vezes, faz muito bem ao ego não termos sempre razão.

→ 13/12/2010 @1:46

Assange, estou contigo – mas és um cromo, pá

Julian Assange

O que falta descobrir sobre a presença online do porta-voz e editor-chefe da Wikileaks?

Resposta: o seu perfil num site de engates online.

O sítio tem um nome sugestivo – em português: OK Cupido – e foi considerado pelo jornal The Boston Globe como «o Google dos sítios de encontros amorosos online». Aposto que alguém ainda vai buscar esta página para sustentar mais umas quantas acusações em relação ao carácter de Assange.

Graças à descoberta da página de perfil de Assange, descobri que o homem da Wikileaks sabe fazer o que 99,9 por cento dos tipos que se inscrevem nesses sites também sabem: inclinar levemente a cabeça e ensaiar um olhar de matador para a objectiva.

Assina com o pseudónimo HarryHarrison, o nome de um escritor de ficção científica que advoga a utilização do Esperanto.

Tudo isto é fait-divers, claro, mas sempre nos ajuda a perceber melhor alguns aspectos da personalidade de Assange.

Diz que que dirige um exaustivo e perigoso projecto de Direitos Humanos. Diz que passa grande parte do tempo a pensar em mudar o mundo através da paixão, inspiração e trapaça.

Pensa em viajar. Já esteve em 33 países. Preocupa-se com a estrutura da realidade. O nascimento e o fim do Universo. Ontologia. Os seus estudos em neuro-ciência levam-no também a pensar no processo de corte de cérebros humanos. (Nesta parte é capaz de ter provocado algumas desistências entre as candidatas).

De qualquer modo, como avisa Assange às meninas, «Atenção! Procuras um tipo normal, terra-a-terra? Então segue em frente. Não sou o andróide que procuras. Poupa-nos tempo enquanto podes.» Assange assume-se como «um apaixonado e casmurro activista» que busca encontrar «sereia para caso amoroso, filhos e, ocasionalmente, conspirações criminosas».

Bem, o perfil é público. Consultem-no e tirem as vossas próprias conclusões. A prosa foi escrita em 2007, quando Assange tinha 36 anos.


Assange não é a Wikileaks, pois não?

Mantenho tudo o que escrevi sobre o caso Wikileaks. Sempre soubemos que a hipocrisia impera na relação entre Estados, mas é bom vê-la desmascarada e é saudável assistir ao desfile de contra-ataques furiosamente embaraçados.

(Embora Assange seja um grande cromo.)

Também estou convencido de que esta cyberguerra contra as empresas que boicotaram a Wikileaks – promovida pelos jornais como se fosse uma Quarta Guerra Mundial – tem como principais soldados «scriptie kids» que percebem tanto do que é ser um hacker como eu de costura. – A detenção de um miúdo holandês de 16 anos convenceu-me de que não devo estar enganado.

Mantenho que a detenção do porta-voz e editor-chefe da Wikileaks se baseia numa falsa acusação de violação.

Assange pode ser um geek egocêntrico e seguro das suas capacidades de sedução; poderá até usar a sua condição de dirigente de um projecto de Direitos Humanos para obter mais rapidamente as chaves do castelo onde a Princesa Patareca aguarda a chegada do seu viril e romântico príncipe activista – mas nada disto faz de Assange um violador.

→ 13/12/2010 @0:44

Escrevo no Web Milionário, mas a Charlize fica aqui

Charlize Theron

Se escrevesse dicas sobre «como rentabilizar um blogue» e os numerosos seguidores do Web Milionário fossem suficientemente loucos para seguir os meus conselhos, iriam de imediato à bancarrota.

Não é isso que está a acontecer.

Iniciei hoje a minha colaboração com o blogue para falar de outros assuntos: dado que o Fernando – autor do Web Milionário – é um gajo com bom senso, desafiou-me a escrever apenas sobre a minha experiência como blogger – sobretudo ao nível da escrita e da produção de conteúdo. E assim vai ser. O primeiro artigo é meramente um post de apresentação. Seguir-se-ão outros, mais específicos. Acho que vai ser divertido.

Sugeri-lhe que o post fosse ilustrado com uma foto da Charlize Theron ou da Scarlett Johansson – ele podia escolher. Escolheu a Scarlett.

Este post vem assim acompanhado com uma foto da Charlize. Não é uma crítica à opção do Fernando, mas uma humilde tentativa de repor a ordem natural do Cosmos blogosférico, trocando uma boquinha de broche por um sorriso de primeira grandeza. Tomem lá o link.

→ 12/12/2010 @17:03

Uma anedota, dois amuos e três leis da robótica

Este é um post «três-em-um». Principais protagonistas: um escritor de ficção científica, um compositor clássico e um escritor do chamado Romantismo europeu.

Isaac Asimov, nascido na Rússia mas cidadão norte-americano (a família emigrou para os Estados Unidos quando ele tinha três anos) não era apenas um excelente escritor de ficção científica; a formação em Química e a enorme curiosidade pelos mistérios da Ciência também lhe permitiram escrever ensaios científicos.

Os mais importantes foram os trezentos e vinte e nove artigos que escreveu para a revista Magazine of Fantasy and Science Fiction.

Esses ensaios foram reunidos num livro publicado em Portugal pela Europa-América com o poético título Tão longe quanto chega o olhar humano.

Se o encontrarem numa dessas feiras de livros em segunda mão, comprem-no – mantém-se razoavelmente actual e é uma delícia de leitura.

Asimov também tinha sentido de humor e gostava de apimentar os seus ensaios científicos com pequenas notas auto-biográficas. Eis um excerto de Feito, não encontrado, um dos que escreveu para a revista Magazine of Fantasy and Science Fiction:

 

Goethe, Beethoven e notas profundas

«Numa reunião recente dos Trap Door Spiders (o pequeno e infinitamente interessante grupinho no qual fundamento os meus mistérios de Viúvo Negro), o meu bom amigo L. Sprague de Camp contou a seguinte anedota histórica, que deve ser verdadeira, já que nunca a ouvira antes.

‘Goethe’, dizia ele, ‘veio uma vez a Viena para visitar Beethoven e ambos saíram para um passeio. O Vienense, reconhecendo os dois, estava tomado de respeito. Todos aqueles que os dois grandes homens encontravam se apressavam a desviar-se e a dar-lhes passagem, os homens curvando-se profundamente e as mulheres fazendo uma rasgada vénia.

Finalmente, Goethe disse: ‘Sabe, Herr Van Beethoven, acho estas expressões de adulação bastante fastidiosas.’

Ao que Beethoven respondeu: ‘Por favor, não deixe que isso o incomode, Herr Von Goethe. Estou perfeitamente certo de que estas expressões de adulação se destinam a mim.’

A história foi acolhida pelo riso geral, e ninguém riu mais sinceramente do que eu, já que tenho um gosto especial por frases que representam auto-elogios desprovidos de artifícios (por razões que os meus leitores podem considerar óbvias).

Quando acabei de rir, no entanto, afirmei: ‘Sabem, penso que Beethoven tinha razão. Ele era o homem mais importante.’

‘Pensas que sim?’, disse Sprague. ‘Por que razão, Isaac?’

‘Bem’, respondi eu, ‘é preciso traduzir Goethe.’

Houve um curto silêncio e então Jean le Corbeiller (que lecciona Matemática e é um príncipe dos bons companheiros) disse: ‘Sabes, Isaac, talvez não te apercebas, mas acabaste de dizer algo de muito profundo’.

É claro que, na verdade, eu apercebera-me, mas deve-se ser modesto, pelo que respondi: ‘É terrível, Jean. Estou sempre a dizer coisas profundas e sempre me escapa esse facto’.

Penso que não se pode ser mais modesto que isto.

De qualquer forma, é muito possível que nestes meus ensaios possa dizer, ocasionalmente, e por simples acidente, algo de profundo. Se me apanharem nessa situação, por favor, digam-me. Ficar-vos-ia agradecido.»

 

Desvendando uma anedota

Quanto à anedota que Asimov recordou, é possível que tenha tido origem num célebre episódio conhecido como o Incidente de Teplitz.

Goethe adorava a música de Beethoven e Beethoven adorava as palavras de Goethe, mas só se conheceram pessoalmente em 1812.

A impressão que cada um ficou do outro depois do encontro não foi muito positiva: Goethe escreveu à mulher dizendo que Beethoven «tinha uma personalidade absolutamente incontrolável»; Beethoven queixou-se ao seu editor, dizendo que Goethe se «encantava em demasia com a atmosfera da corte».

Na origem do amuo entre estes dois grandes homens estão duas formas radicalmente diferentes de encarar a nobreza.

Beethoven e Goethe caminhavam juntos pelas ruas de um parque na cidade de Teplitz quando o poeta e escritor notou a presença da Imperatriz. De imediato, fez questão de a cumprimentar e incitou Beethoven a acompanhá-lo.

Goethe colocou-se diante da Imperatriz e saudou-a com uma profunda vénia. Beethoven colocou o chapéu firmemente na cabeça, pôs as mãos atrás das costas e prosseguiu a caminhada como se a imperatriz não existisse.

Goethe ficou tão ofendido com a atitude de Beethoven que nunca mais se mostrou interessado em reatar a amizade, nem tão-pouco se dignou a responder às cartas que o músico posteriormente lhe enviou.

A história é contada no sítio Mad About Beethoven e inclui uma imagem comemorativa do incidente.

 

As três leis da Robótica

I,Robot foi baseado no conto de Asimov

Já que estive a citar Asimov, aproveito para lembrar que é ele o autor das famosas Três Leis da Robótica. Estas leis apareceram no conto Círculo Vicioso, publicado originalmente na edição de Março de 1942 da revista Astounding Science Fiction. No conto, Asimov postula as três regras fundamentais da Robótica; só mais tarde estas se tornariam «leis». As leis são as seguintes:

1. Um robot não pode molestar um ser humano ou, por inacção, permitir que um ser humano seja molestado.

2. Um robot deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, excepto se entrarem em conflito com a Primeira Regra.

3. Um robot deve proteger a sua própria existência, desde que essa protecção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Regra.

Asimov não se limitou a criar estas três regras: sem o saber, também inventou a palavra «robótica». O escritor conta o episódio no prefácio do livro Visões de Robot, colectânea de contos do escritor que inclui o mencionado Círculo Vicioso: «É claro que eu não sabia que estava a inventar uma palavra. Na minha inocência juvenil, pensava que era a apropriada e não fazia a menor ideia de que nunca tinha sido empregue.»

Asimov tinha 22 anos quando escreveu, pela primeira vez, as três regras da robótica. Morreu 50 anos mais tarde, após uma longa, produtiva e criativa vida ao serviço da Ciência, do Sonho e das palavras. Obrigado, Isaac, és um dos meus bacanos preferidos.