
Chego à conclusão que os principais responsáveis pelas insistentes barracadas no Benfica são os jornais desportivos e os adeptos.
Os jornais apresentam-nos todos os dias – sobretudo nas páginas de A Bola – uma realidade alternativa. Os adeptos porque se alimentam dessa ilusão que lhes é vendida e se insurgem contra quem ouse ver o Benfica como ele é: um grande clube que perdeu a sua grandeza desportiva para um clube rival de menor dimensão. Um clube cuja grandeza se manifesta hoje em dia pelo peso que tem e não pelas vitórias que consegue.
Até os jogadores parecem sentir esse peso excessivo em campo. Não conseguem jogar de forma consistente para ganhar porque têm demasiado medo de perder. Não conseguem estar psicologicamente à altura da ilusão de grandeza que domina a mentalidade dos sócios do Benfica.
Os reforços chegam a Portugal e são tratados nos jornais como génios do futebol. O Aimar foi um grande jogador e de vez em quando ainda se nota, mas quando o vejo jogar fico com a ideia de que contratámos um tipo chamado ex-Aimar. O David Suazo é uma força da Natureza, mas não revoluciona uma equipa como fazem os verdadeiros génios. O Reyes marcou dois golos decisivos, mas é um tipo de luas e não tem a estabilidade e a inteligência do Simão Sabrosa. O Di Maria era um supra-sumo da costeleta cobiçado por Inter de Milão e Real Madrid, sobretudo depois dos Jogos Olímpicos, mas para mim não passa de um puto habilidoso com meia-dúzia de neurónios a menos.
Como a ilusão precisa de ser sustentada em resultados reais e estes não podem ser manipulados, os acontecimentos do meu clube são apresentados como se o Benfica continuasse a ser o mesmo Benfica das décadas de 60, 70 e 80. Uma vitória que seria considerada normal nos tempos antigos é apresentada nos dias de hoje como um feito extraordinário. Uma derrota que deve ser considerada normal nos dias de hoje é apresentada como uma catástrofe dos tempos antigos.
Não interessa para os jornais desportivos de Lisboa se ganhamos ou perdemos, pois o que mantém a ilusão é transformar qualquer vitória ou derrota num acontecimento digno da intocável grandeza do Benfica. Caímos, mas caímos em grande – é suficiente. É o que conta. Connosco é sempre tudo em grande. Perante o dinheiro que representa em vendas agradar à maior massa associativa em Portugal, os desportivos mantém esta ilusão. A sobriedade não vende nada. A sobriedade no Benfica é assobiada. Os sóbrios que não desculpam as derrotas com a corrupção na arbitragem são considerados traidores. Pensamos nos jogos em que fomos roubados mas esquecemos todos os outros em que não fomos, e perdemos.
E assim se vive a catástrofe. Estávamos à frente do campeonato e perdemos o lugar por termos sido derrotados pelo clube que estava em último. E como numa catástrofe é bom sabermos que existem líderes que se chegam à frente para resolver os problemas e repor a ordem natural do universo alternativo em que vivem os adeptos, eis que temos Luís Filipe Vieira e Rui Costa na capa de hoje de A Bola: foram ao balneário ter uma conversa muito dura com os jogadores – esses chulos – consumando assim uma repetida ilusão: a de que a autoridade justiceira – tão cara aos adeptos descontentes de qualquer clube, mas sobretudo do Benfica – é suficiente para garantir as vitórias e repor as coisas nos eixos. Digam-me se conhecem algum caso em que os problemas de um clube de futebol tenham sido resolvidos em manchetes de jornais.
Nunca chegaremos lá enquanto não metermos na cabeça que a maior luta do Benfica é contra si próprio. O Benfica real vive na permanente obrigação de se equiparar ao Benfica do passado – mas o Benfica do passado é agora um fantasma que nos ignora nas vitórias e nos assombra nas derrotas.




































