
De todas as teorias da conspiração que conheço, nenhuma me irrita mais do que a insana não-fomos-à-lua: as missões Apollo foram apenas propaganda política e a alunagem dos astronautas uma patranha para disfarçar o fiasco que teria sido perder a corrida espacial para os russos.
É típico dos conspiradores, partir de conjecturas correctas (o aproveitamento político do espírito nobre e científico da missão, a utilização de recursos de uma nação para vencer uma corrida espacial com a nação rival) para demonstrar a razoabilidade de qualquer delírio.
De um lado, temos milhares de documentos e artefactos e testemunhos que poderiam ser usados em tribunal como prova de que o Homem esteve, de facto, na Lua; do outro, centenas de suspeitas, especulações e conclusões produzidas por quem nunca esteve envolvido nas missões Apollo, baseadas em premissas que nenhum cientista do mundo confirma como verdadeiras.
Mais: o defensor das teorias da conspiração sobre a falsa viagem à Lua insiste que o ónus da prova deve ser colocado sobre os ombros dos cientistas e de quem trabalhou durante anos para colocar lá os astronautas e fazê-los regressar sãos e salvos.
É notável a capacidade manipuladora destas carpideiras do conhecimento: deveriam ser os próprios conspiradores a provar a veracidade das suas suspeitas; em vez disso, têm a lata de exigir que sejam os alvos da suspeita a provar a sua inocência perante acusações tão mesquinhas.
É-lhes indiferente que dezenas de páginas na Internet tenham sido feitas desmontando cada um dos argumentos dos conspiradores; a partir do momento em que a conspiração se transforma numa causa, em questão de fé, o defensor dessas teorias rejeita tais tentativas de esclarecimento da verdade como mais uma prova de encobrimento e procura apenas a informação que corrobore as suspeitas iniciais. É um beco sem saída do pensamento – e não há nada que se possa fazer por esta malta a não ser esperar que bata com a cabeça na parede o número suficientemente de vezes até recuperar o juízo.
Não admira que sejam raros os cientistas a dar-se ao trabalho de rebater essas teorias – não têm paciência para os aturar e não posso levá-los a mal por isso.
Nada disto os faz desistir, pois há sempre uma solução conveniente para perpetuar as suspeitas: se os cientistas se recusam a provar que o lunático não tem razão, então é porque são cúmplices da tramóia, fazem parte do esquema, do encobrimento. Por isso me é difícil, muito difícil mesmo, arranjar energia para escrever o artigo que tencionei fazer: estaria a desperdiçar o meu tempo com gente que nunca aceitará ler outra coisa que não a sua verdade. Talvez o faça, num dia em que estiver excepcionalmente bem-disposto – mas não agora.
Outra razão que me leva a ser intolerante e a chamar “lunáticos” aos que acreditam que o Homem nunca foi à Lua tem a ver com a visão rarefeita que partilham da Ciência. Para estes tipos, um físico é alguém incapaz de ver a beleza num pôr-do-Sol, pois só vê equações.
É-lhes muito fácil de acreditar que milhares de pessoas pactuaram neste sinistro cover-up, esta espécie de omertà aplicada à NASA, porque têm dificuldade em reconhecer dimensão humana ao cientista. O mundo desta gente é um mundo perpetuamente sombrio, esguio, cínico, onde não há lugar para o sonho, a inocência, o deslumbramento, a realização, o prazer da descoberta e do conhecimento.
A visão pérfida destes lunáticos não recua perante nada do que aconteceu, sublime ou trágico: três astronautas morreram queimados no interior de uma cápsula mas, para estes doidos, foram mortos porque se preparavam para contar a verdade; os que conseguiram suportar o longo período de testes e de treinos têm recordado, em conferências, entrevistas e palestras, o deslumbramento, o medo, o êxtase, a alegria, a maravilhosa desolação da paisagem lunar, a visão de um planeta azul sem fronteiras, tão belo e frágil visto do Espaço que lhes mudou a vida para sempre – nada disto conta: estão todos a mentir, ponto final.