
Sobre a morte de Michael Jackson, o Rei da Pop que sucumbiu hoje a um ataque cardíaco, chamou-me a atenção o Twitter do Nuno F. e o seu respeitável avatar do Frank Zappa. Em primeiro lugar, porque o que há de comum neste momento entre Zappa e Jackson é que ambos se encontram na condição de mortos – tecnicamente, pelo menos, porque a música de Zappa continua viva e a de Jackson, para mim, nunca chegou a nascer.
Em segundo lugar, porque Zappa satirizou Jackson e as suas idiossincrasias sexuais na canção Why Don’t You Like Me?, lançada no disco de 1988 Broadway the Hard Way.
Em terceiro, porque se continuar a ouvir os disparates da CNN e não mudar para um canal de música a sério – o Mezzo, que nunca passará uma única canção de Jackson –, vou realmente começar a bocejar como no avatar do Nuno F.
As expressões elogiosas sucedem-se a um ritmo vertiginoso e este é um ritmo que conheço bem – daí o bocejo. Chamem-lhe um jornalístico bocejo, se quiserem. O pedófilo de ontem transformou-se no génio musical, no humanitário de hoje e dos próximos dias. Perante a morte do Rei do Pop, dizem os entrevistados, o melhor é esquecer as controvérsias do passado e recordá-lo como um ícone da cena musical – ó bocejo meu, haverá aborrecimento maior do que o meu? Onde é que deixei o raio do comando?
Aceito que Rei do Pop seja um título que lhe assenta bem, desde que não me peçam para acreditar que pop se refere a um estilo de música. Népia. Pop, no caso dele e de outros notáveis medíocres idolatrados por massas com orelhas mas sem ouvidos, significa simplesmente o som das rolhas de champanhe a saltar nos gabinetes dos mafiosos da Recording Industry Association of America (RIAA). Esse Pop é a celebração do lucro, não da arte. É o reinado do dinheiro, não da cultura. Génio da música? Onde é que deixei o raio do comando?
Vejo-o como um Peter Pan coberto de operações plásticas que o faziam parecer um Pinóquio grotesco esforçando-se por enganar a passagem do tempo. As plásticas tê-lo-ão ajudado a mentir a si próprio, e os modernos Gepetos que o operaram certificaram-se de que o seu nariz de Pinóquio encolheria em vez de aumentar. Assim o recordo e assim o esquecerei.
Com tantas pessoas a sofrer e morrer neste mundo, é quase imoral que o mundo fique nos próximos dias obcecado com o sofrimento e a morte de uma só. Passo.