Cloverfield: volta, Spielberg, estás perdoado
Sei que cheguei bastante atrasado, como é costume, mas numa dessas noites ociosas de sofá e televisão acabei por ver Cloverfield, filme que no ano passado gerou um enorme hype na Web.
Cloverfield relata-nos a história de um monstro extraterrestre do tipo Godzilla sem grande habilidade diplomática e que resolve destruir Nova Iorque porque destruir coisas é giro. Claro que o filme não é elogiado pela originalidade do argumento, mas pela forma muito fixe como é filmado.
É raro o sítio na Web que não se refira à maneira de filmar de Cloverfield como resultante da técnica POV (Point of View), usada em Projecto Blair Witch, de 1999, também mencionada a propósito do filme de zombies espanhol, [REC], de 2007, pelo que andei a descobrir se POV significava mais do que um mero truque para dar espectáculo e animar a malta.
Em termos muito simplificados, POV é uma técnica usada em Cinema para estabelecer o ponto de vista subjectivo de um personagem ou da combinação de vários, sendo considerada uma das fundações em que assenta o processo de montagem dos filmes. Existem até exemplos de típicos planos POV em que o personagem não se encontra presente, como é o caso do famoso Ponto de Vista de Deus (God-POV) usado por Alfred Hitchcock em Os Pássaros (Fonte: Wikipédia), quando nos mostra o resultado de um ataque de gaivotas a seres humanos visto a partir de cima, a grande altura, como se a câmara tivesse sido colocada nas próprias nuvens.

Cloverfield usa uma variação camcorder da técnica POV, ou seja, um dos personagens tem pancada pelo YouTube e anda a filmar tudo o que acontece. É do resultado dessas filmagens tremidas, caóticas e desenquadradas que o filme é feito. Aconteça o que acontecer, quer esteja prestes a ser comido pelo monstro ou em risco de cair de um prédio de cinquenta andares, o desgraçado do homem nunca pára de filmar porque «é importante mostrar ao mundo o que está a acontecer, man».
Os primeiros vinte minutos de Cloverfield são um teste à capacidade de resistência de uma pessoa em manter o olhar fixo no ecrã. Imaginem ver isto no cinema, um tipo sentir-se-ia encurralado. Enquanto o monstro não aparece e o sangue não escorre, é preciso estabelecer os personagens e as relações entre eles, dar-lhes história e profundidade, criar alguma empatia com o espectador para que pareçam pessoas em vez de meras marionetas dos efeitos especiais – Cloverfield não se preocupa em atingir sequer os mínimos olímpicos, como costuma fazer Spielberg até nos seus filmes mais comerciais.
Acompanhamos vinte minutos de uma inócua festa de despedida a um dos protagonistas, mas as conversas destes jovens, bonitos e sofisticados nova-iorquinos são demasiado imbecis até para um filme deste género. Um exemplo, citado de memória: «Sabias que a Beth e o Rob já foram para a cama?» «Não, a sério?» «A sério, juro, they made it!» «Não acredito, you’re full of shit». Perante a qualidade extrema destes diálogos pré-adolescentes, resta ao pobre espectador desejar que o monstro entre em cena o mais depressa possível e os devore a todos com muito ketchup e batatas fritas.
Num filme sem história, argumento ou personagens, resta-nos então a afamada técnica POV para fazer a diferença e deixar-nos entretidos enquanto mastigamos pipocas no sofá. Mas é no uso exclusivo da camcorder que o filme deixa de ser patético e começa realmente a irritar, pois grande parte das cenas de pânico e terror colectivos em Nova Iorque são decalcadas (às vezes copiadas) das filmagens reais captadas por dezenas de testemunhas dos ataques terroristas ao World Trade Center. Que Cloverfield tenha substituído o monstro do terrorismo pelo monstro extraterrestre só indica o alto nível de imbecilidade espertalhona desta produção.
Tais imagens carregam um significado terrível na memória de todos e sobretudo daqueles que as viveram, mas Cloverfield reconverte-as em mero espectáculo de filme-catástrofe. Tanto despudor em fazer dinheiro à custa de uma tragédia e depois chamar-lhe «cinema» irrita bastante. Pior: a maioria dos críticos (77 por cento) no sítio Rotten Tomatoes dá uma nota positiva ao filme; alguns elogiam-no como uma «obra inovadora». A Web não cessa de surpreender.




























