Arquivos mensais: Julho 2008

→ 02/07/2008 @16:04

Fora de Cena, Culturgest, Gregory Motton

Gengis Entre os Pigmeus: Gregory Motton na Culturgest

Inês Nogueira (Titi) e Dinarte Branco (Gengis): Gregory Motton na Culturgest (Foto: Pedro Polónio)

Certa ocasião passei duas ou três horas a ler com o Pedro, em voz alta, os textos do dramaturgo britânico Gregory Motton. Era uma forma de ele testar e aperfeiçoar a tradução que fizera e também de me mostrar um autor que não conhecia.

Nem cheguei a cansar. Fiquei apanhado pelo humor corrosivo e desenvergonhado do tipo, a forma como usa a pomposidade do discurso para denunciar o ridículo de uma personagem, o ritmo das falas, como se o próprio ritmo fosse uma personagem, se calhar o próprio Motton, escondido entre as vírgulas, um Motton gozão e provocador que se deleita a misturar caralhadas que dizem verdades com palavras caras vazias de conteúdo, desconstruindo diante de nós, enquanto nos rimos, caracteres moldados sobretudo pelo consumismo desenfreado. Concluindo: o tipo escreve bem que se farta e foi um prazer ler-lhe as palavras em voz alta.

Depois de muita luta e trabalho, um grupo de actores (Dinarte Branco, Teresa Sobral, Inês Nogueira, Teresa Tavares e o próprio Pedro, que também encena), vai apresentar-nos Gengis Entre os Pigmeus, segundo texto de uma trilogia de peças de Motton que têm em comum os mesmos temas e personagens. Ler mais aqui

A peça vai estar em cena nos dias 4, 5, 6, 8, 9 e 10 de Julho de 2008 em Lisboa, na Culturgest, integrado no programa do Festival de Almada, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, a 17 de Julho, e no Teatro Municipal da Guarda, a 12 de Setembro.

Esta é uma peça que eu não vou perder. Sábado Domingo às cinco da tarde estarei lá. Já reservei bilhetes. Acho que vocês também dariam o vosso tempo bem empregue se fossem ao teatro conhecer o Gregory Motton. É um tipo espectacular a escrever e tem um sentido de humor notável. Além disso, o Pedro escreveu no Bitaites durante um ano, o que foi fundamental para enriquecer o seu currículo. :wink:


Culturgest | Trilogia Gengiscão | Festival de Almada

→ 01/07/2008 @13:50

Não quero que vos falte nada

Para o Infinito e mais harém

Julianne Moore, Jennifer Connelly, Gwyneth Paltrow, Naomi Watts, Salma Hayek, Jennifer Aniston, Kirsten Dunst, Diane Lane, Lucy Liu, Hilary Swank, Alison Lohman, Scarlett Johansson e Maggie Gyllenhaal reunidas e fotografadas por Annie Leibovitz.

→ 01/07/2008 @3:16

O blogue foi fechado pelo tribunal? Bem feito.

Um tribunal mandou fechar o blogue Póvoa Online, alojado no Blogspot; a Google cumpriu a providência cautelar; o blogue foi suspenso. Resultado: a notícia saiu nos jornais e televisões. Aguarda-se agora que a blogosfera inicie o fatídico clamor contra um novo atentado (quiçá socrático) às liberdades individuais…

O blogue em questão – escrito por um grupo de corajosos anónimos, como é habitual – tinha como objectivo denunciar a corrupção e o compadrio na política camarária do vice-presidente e presidente da Câmara da Póvoa. Não apresentava quaisquer provas, apenas insinuações (e acusações) sobre pessoas que se consideram no direito de usufruir – vejam lá o escândalo – da presunção de inocência.

Depois de aturar as imbecilidades da SIC e de Moita Flores sobre os bloggers, este meio volta a ser notícia por causa da actividade de um blogue medíocre que não merecia um centésimo da atenção que infelizmente vai ter. Os autores não dormem e já abriram um blogue gémeo. Agora que a blogosfera se prepara para fazer a festa justiceira e lançar os foguetes da liberdade, os autores do Póvoa Online recolhem as canas dos links.

Liberdade de expressão a propósito deste caso? Tretas. Relembro um velho conceito aprendido quando comecei a trabalhar: máxima liberdade, máxima responsabilidade. Uma não pode existir sem a outra. E uma vantagem da lei é garantir, sob nossa vigilância, que ambas coexistem pacificamente.

A não ser que o autor opte por torná-lo privado, o que não foi o caso do não-sei-quantas online, um blogue é potencialmente lido por todos os que têm computador e ligação à Web.

Querem liberdade para blogar, meninos vítimas de uma atitude «prepotente, autoritária e fascizóide»? Conquistem-na. Atitude fascizóide? Que belo argumento. Confrontados com as consequências da sua própria irresponsabilidade, fazem-se de vítimas de atitudes «fascizóides» e põe-se a fazer queixinhas à Democracia. Os que gritam precipitadamente Censura! não percebem que acabam por ser estas «vítimas de atitudes fascizóides» as principais responsáveis para que se pretenda eventualmente «legislar» a blogosfera.

Pá, cresçam. Dêem-se ao respeito. Investiguem o que denunciam. Averiguem os factos antes de os publicar. Trabalhem. Sejam responsáveis.

→ 01/07/2008 @0:49

Somos todos remediados

É injusto dizer-se que os muito ricos não dão valor ao dinheiro. É mentira. Eles dão valor, mas de uma forma diferente de nós, os remediados.

O remediado que desejar um carro para se deslocar ao emprego não pensará obviamente em comprar um Bentley Continental GT Speed, pois teria de pagar, a preço de tabela, duzentos e setenta e sete mil, cento e trinta e sete euros e 19 cêntimos. Dezanove cêntimos o remediado arranja sem grandes problemas, cento e trinta e sete euros até desenrasca – o problema é realmente a parte dos duzentos e setenta e sete mil.

Vamos supor uma pessoa que ganhe, vá lá, novecentos mil euros limpos por mês. Considerando que um mês tem, em média, 4,3 semanas, dá duzentos e nove mil, trezentos e dois euros e trinta e dois cêntimos por semana, vinte e nove mil euros e trinta e três cêntimos por dia, mil duzentos e quarenta e cinco euros e 84 cêntimos por hora, vinte euros e setenta e seis cêntimos por minuto e cerca de 34 cêntimos por segundo – mais ou menos o que ganha Cristiano Ronaldo desde que o Manchester United reviu o seu contrato.

E opto pelo expressão «rever o contrato» porque quando se chega à Quarta Dimensão dos ordenados parece mal dizer que se foi aumentado. Era o que mais faltava! Aumentados somos nós, os remediados, e nos anos bissextos. «Rever o contrato», por outro lado, já implica um tratamento personalizado. Uma pessoa que ganha novecentos mil euros por mês não tem um cartão de Segurança Social com o respectivo número, isso é com certeza um mito urbano.

Se o nosso trabalhador dos novecentos mil euros mensais optar por comprar um Bentley para se deslocar ao seu local de trabalho, o remediado poderá fazer uso do seu senso comum e considerar a compra «um desperdício de dinheiro». E é precisamente esta observação que considero injusta, pois se tivermos em conta o ordenado mais os prémios de jogo, é possível concluir com alguma segurança que a este trabalhador basta uma semana de trabalho para pagar o Bentley.

Para compreender melhor este raciocínio, vamos supor um privilegiado que ganhe o dobro do salário mínimo nacional, ou seja, 806 euros por mês. Que poderá comprar com uma semana de trabalho? Considerando que um mês tem, em média, 4,3 semanas, 806 euros por mês dá cento e oitenta e sete euros e 44 cêntimos por semana, 26 euros e 77 cêntimos por dia, um euro e onze cêntimos por hora e uns resíduos quânticos para o resto das contas.

Com uma semana de trabalho, o remediado pode por exemplo comprar um iPod Nano de 8GB, que custa cento e oitenta e nove euros (Preço verde da Fnac). Ora, isto significa que na perspectiva do Cristiano Ronaldo comprar um Bentley exige-lhe um esforço financeiro equivalente ao do remediado que compra um iPod da Apple para ouvir música. Daqui se conclui que somos todos remediados, nós e o Cristiano Ronaldo – apenas diferimos nos remédios que conseguimos comprar e nas farmácias que frequentamos.

Quem ganha 900 mil euros por mês não pode pagar um café. 60 cêntimos? Que absurdo. Demasiado confuso. Tão abstracto. Se és um remediado e o destino te colocar a beber uma bica com o Cristiano Ronaldo, oferece-te imediatamente para pagar a conta – o especialista em cêntimos és tu, não te esqueças. Além disso, é sempre bom ajudar quem precisa.