Ghaith Abdul-Ahad, o fotógrafo que escreve
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Iraquiano morto na rua Haifa, em Bagdade. Ao fundo, veículo blindado americano em chamas
A 13 de Setembro de 2004, um helicóptero americano disparou tiros de metralhadora e lançou «rockets» contra uma multidão de civis na rua Haifa, em Bagdade, matando 13 pessoas e ferindo 60, incluindo crianças.
A rua Haifa estava a ferro e fogo nesse dia. Ao amanhecer, dois carros-bomba tinham explodido; morteiros disparados pelos guerrilheiros haviam atingido instalações do governo iraquiano; um oficial de segurança fora morto. Combates entre os resistentes e os americanos ocorreram quase de imediato. Um veículo de combate blindado Bradley foi mobilizado para a luta mas, três horas depois, estava em chamas, atingido por um terceiro carro armadilhado. Os quatro ocupantes do tanque escaparam, mas ficaram feridos.
Era o caos: dois bombistas-suicidas tinham sido apanhados quando tentavam furar o perímetro de segurança montado por americanos e polícias iraquianos; uma multidão de civis apedrejava o Bradley. Foi sobre estas pessoas – dançando triunfalmente à volta do veículo abandonado como índios – que o helicóptero abriu fogo.
Um comunicado do exército dos Estados Unidos, um dia depois, explicava o ataque como «uma tentativa de destruir um veículo militar americano abandonado e garantir a própria segurança das pessoas que se aproximavam» e «impedir que guerrilheiros se apoderassem de armas que ainda lá pudessem estar». Dado o resultado que deu esta tentativa de «proteger» os civis, uma segunda versão oficial da história garantia que a tripulação no helicóptero respondera «a tiros vindos das proximidades do veículo abandonado». As filmagens recolhidas por operadores de câmara no local, porém, não mostravam atiradores nenhuns, apenas gente desarmada a comemorar a destruição do Bradley; dezenas de testemunhas no local afirmavam que a tripulação atirara directamente para a multidão, incluindo pessoas que estavam bastante afastadas do veículo.
Havia outra testemunha: Ghaith Abdul-Ahad, 33 anos, fotógrafo iraquiano, um dos mais conhecidos e respeitados fotojornalistas do mundo. Abdul-Ahad não se limita a tirar fotografias, também escreve, e bem, enviando reportagens para jornais como o New York Times, Washington Post, Los Angeles Times, The Times e The Guardian. Foi como correspondente do The Guardian que Abdul-Ahad publicou (e ainda publica) os mais importantes relatos do ataque e ocupação do Iraque pelos americanos.
Naquela manhã, como sempre, estava na linha de fogo, entre a multidão em pânico. Ferido na cabeça pelos estilhaços das explosões, conseguiu refugiar-se com mais seis pessoas no interior de um pequeno quiosque.
A reportagem que escreveu para o The Guardian, à semelhança das fotos que tirou, é um eloquente testemunho dos horrores da guerra e dos dilemas morais que enfrenta um jornalista. O que se segue é um resumo da reportagem original traduzida por mim.
«Estávamos todos apertados dentro do quiosque, que não devia ter mais de dois metros de largura», escreveu Abdul-Ahad. «O sangue começou a pingar na minha câmara, mas só conseguia pensar em manter as lentes limpas».
Junto dele, um homem de 40 anos chorava. «Não estava ferido, mas não parava de chorar.» Abdul-Ahad estava com tanto medo que quase esmagou as costas contra o muro quando o helicóptero disparou em direcção ao quiosque onde estavam escondidos. «Desejei ser invisível, queria esconder-me debaixo dos outros».
Eventualmente o helicóptero afastou-se, dando tempo a que duas das pessoas fugissem em direcção a um edifício próximo. «Diante de mim estava um jovem, não devia ter mais de 20 anos». Usava umas botas de cabedal, fato de treino, estava sentado no chão, as pernas esticadas, um dos joelhos «curvado para fora» de uma forma pouco natural. Na sujidade do chão sob o seu corpo, o sangue escorria. «Ele olhava para a rua com os olhos muito abertos, como se estivesse à procura de alguma coisa, mas não dizia nada».


13 de Setembro de 2004: Abdul-Ahad testemunha alguns «danos colaterais» na rua Haifa
Na frágil segurança do quiosque, dois dos outros ocupantes descobriram que se conheciam. «Como é que estás», perguntou um deles enquanto tentava alcançar o bolso do telemóvel. «Não estou bem», respondeu palidamente o outro, um jovem com uma t-shirt azul. Mostrou o braço. Parecia ter levado uma dentada de um leão esfomeado: através da carne que faltava via-se já o osso. «Traga um carro e venha, por favor, estamos feridos», gritava o homem ao telemóvel. O homem do joelho rebentado emitia sons fracos que ninguém entendia. «Eu estava tão assustado que nem conseguia tocar-lhe. Dizia para mim próprio que ele não estava a gritar, por isso estava bem».
Decidiu ajudar o homem do telemóvel, que se descontrolara e não parava de gritar, o sangue a escorrer-lhe pela face. Abdul-Ahad rasgou-lhe a t-shirt, disse-lhe para a enrolar à volta da cabeça, mas sentiu-se incapaz de fazer mais qualquer outra coisa. «Tentei recordar o treino de primeiros-socorros que tivera no passado, mas a única coisa que conseguia fazer era tirar fotografias». O homem do joelho continuava a murmurar palavras incompreensíveis. Abdul-Ahad olhou para fora e viu três homens empilhados no meio da rua, ainda vivos mas cobertos de sangue, enquanto um jovem se mantinha estendido no chão, a poucos metros de distância. Todos precisavam de ajuda, mas nenhuma chegou; poucos minutos depois, estavam mortos. «Eu fotografava-os e, ao mesmo tempo, dizia para mim próprio: ‘eles estão a dormir e tu não vais acordá-los’». Crianças começaram a aparecer na rua, observando os cadáveres.
Nesse momento, recorda Abdul-Ahad, alguém rompeu o silêncio: «Um helicóptero!». O fotógrafo refugiou-se outra vez no interior do quiosque, ao mesmo tempo que duas fortes explosões se faziam ouvir na rua. «O tipo com o joelho estragado estava agora inconsciente. Algumas crianças que passavam disseram ‘Está morto’ e eu respondi ‘Não digam isso, ele ainda está vivo, não o assustem!’» Todos estavam já inconscientes: o homem do joelho rebentado, o tipo do telemóvel, o jovem da t-shirt azul com o braço semidesfeito.
«Eu saí de lá com as crianças. Deixámo-los lá para morrer. Nem sequer tentei levar um deles comigo, saí de lá de uma forma egoísta», escreve Abdul-Ahad. À medida que se afastava do quiosque, as pessoas pediam-lhe para não parar de fotografar: «Tire fotografias, mostre ao mundo o que é a Democracia americana».
Finalmente as ambulâncias começaram a chegar. Os iraquianos transportavam os seus feridos, mas nem todos tinham conseguido sobreviver: «Não, este está morto», dizia um condutor. «Traz-me outro». O fotógrafo conseguiu fugir apanhando boleia numa das ambulâncias.
Um dia depois, um colega fotógrafo estava a ver as imagens que Abdul-Ahad captara durante o massacre quando reparou: «Afinal o tal jornalista árabe que morreu ainda estava vivo quando lhe tiraste as fotos.» «Eu não vi nenhum jornalista árabe», respondeu Abdul-Ahad. «É este aqui, olha». Reconheceu o jovem de t-shirt azul a quem um leão esfomeado comera o braço. Ele, o tipo do joelho, o homem do telemóvel, todas as pessoas com quem partilhara o abrigo tinham morrido.

Um certo dia, devia ter uns vinte anos, pouco mais, tive uma conversa com um gajo dez anos mais velho e que toda a gente considerava fútil e imaturo porque aparentemente não pensava noutra coisa senão em surfar. Era o típico surfista betinho do Estoril. Eu não o gramava porque andávamos os dois a fazer olhinhos à mesma miúda, mas o acaso fez com que ao fim de uma noite de copos e esplanada fôssemos os últimos do grupo a sair da mesa.























