Arquivos mensais: Junho 2008

→ 02/06/2008 @20:19

Sexto Sentido

Há dias tive um pesadelo. Sonhei que era um fantasma. Estava na escola do meu filho e vi-o atravessando o campo de jogos na minha direcção: em vez de se aproximar com um enorme sorriso e os braços abertos, ansioso por me mostrar o último truque à Cristiano Ronaldo, passou por mim como se eu não existisse.

Se não tivesse visto o filme «O Sexto Sentido» teria interpretado a cena de outra forma. O raio do filme parece ter sido imaginado na mesma cave onde uma dúzia de diabinhos mal-encarados produz secretamente os nossos piores pesadelos, pelo que ainda antes de acordar já sabia que o meu filho não me tinha visto porque no sonho eu tinha morrido e era um fantasma.

O filme deve ter tocado uma corda invisível mas muito sensível dentro de mim. Agora que penso um bocadinho melhor sobre o assunto, não é sequer a questão da morte, a morte literal, que transformou o meu sonho inicial em pesadelo. É a preocupação de que a morte se apresente não como o fim da minha existência mas como uma metáfora da minha forma de estar na vida. Isto é que é verdadeiramente assustador: perder o contacto com aqueles que amo sem ter consciência disso.

Existem momentos da nossa vida em que estamos tão cansados que acabamos por parecer fantasmas: os miúdos comunicam connosco, mas as suas palavras passam através de nós como partículas de neutrinos; eles contam-nos coisas importantes das suas vidas e só uma ínfima parte de nós consegue ouvir porque estamos sem pachorra.

É por isso que o filme me perturba: ao mostrar-nos as deambulações solitárias do personagem de Bruce Willis, apercebemo-nos de que ele se encontra irremediavelmente isolado – e só no fim do filme compreendemos que essas falhas de comunicação se devem ao facto de estar morto. Para quem não percebeu antes, essa reviravolta no argumento atinge-nos como uma revelação dos riscos reais que corremos.

Disfarçado de filme de terror psicológico, o «Sexto Sentido» mostra-nos o que acontece quando não aguentamos as exigências de uma vida moderna que nos suga energia e vontade até não restar mais nada a não ser refugiarmo-nos na cama ou dentro dos próprios pensamentos, onde não existem restrições ou horários a cumprir.
Haja força para conseguir viver todos os dias, não é?

→ 02/06/2008 @17:47

As fotografias de David Byrne (Talking Heads)

As fotografias de David Byrne

Democracy (1996) e Paredes e Poder (1996), da série Stairway to Heaven

Embora o envolvimento com a fotografia e o design sejam já muito antigos (estudou na Rhode Island School of Design e na Maryland School of Art), David Byrne é conhecido principalmente pela música dos Talking Heads. Tal desconhecimento deve-se ao facto de Byrne só recentemente ter decidido mostrar as suas montagens fotográficas em galerias, revistas e livros.

As críticas às fotos de David Byrne são muito positivas, traçando um paralelo entre o músico e o fotógrafo: à semelhança do que fez nos Talking Heads, onde era vocalista e o autor das letras, Byrne eleva o banal e o mundano ao estatuto de Arte.

Também sobre os Talking Heads se publicaram muitos elogios, entre os quais a (quase) unânime ideia de que no período em que o grupo existiu – entre 1976 e 1991 – não só era um dos mais influentes como ajudou a expandir os limites do que se julgava ser possível na música popular, elevando a fasquia da qualidade das letras e das próprias composições.

Esta faceta menos conhecida evidenciava-se já nesse período nos vídeos promocionais do grupo, todos concebidos e realizados pelo próprio David Byrne.

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→ 02/06/2008 @10:58

Já estou farto do Europeu e ainda nem começou

Eu adoro futebol. Vibro com o Benfica. Vibro com os jogos da selecção. Já berrei que nem um doido em cima do descapotável do meu maninho, festejando entre milhares a vitória sobre a Inglaterra no Europeu de 2004. Já passei uma noite em claro quando perdemos com a Grécia na final, incapaz de dormir porque na minha cabeça imaginava ainda jogadas alternativas que nos teriam dado os golos. Agora preparo-me para fazer a maior loucura de todas: não ver um único jogo dos amigos do Scolari.

A sério. Estou tão farto das notícias e dos especiais e dos directos e do raio que os parta a todos sobre a selecção que estou a planear pegar na minha bike e dar um grande passeio enquanto durarem os jogos. Pelo menos as estradas estarão quase desertas e não correrei o risco de ser passado a ferro. Digo eu!
Todos os anos prometo a mim mesmo que não me vou deixar levar pela histeria e acabo ficando tão histérico como os outros; desta vez sinto que atingi o meu limite. O futebol é um desporto, não é um desígnio nacional. Seremos assim tão pobres de espírito a ponto de fazer cair sobre os ombros de simples jogadores de futebol todo o peso dos nossos fracassos?

Por causa do dinheiro e das audiências, as televisões prolongam um espectáculo de hora e meia em várias horas, mas ontem foi demais: seis horas de emissão contínua na TVI com uma espécie de feira de variedades a pretexto do futebol que durou das duas da tarde às oito da noite; mais 30 minutos de palha jornalística no Telejornal seguindo-se, muito a despachar, as verdadeiras notícias do dia intercaladas com novos directos sobre nada: selecção entra no avião, selecção sai do avião, sai do autocarro, entra no autocarro, Ronaldo espirra, Ronaldo limpa o nariz, Ronaldo limpa o cuzinho, o povo grita e aplaude, esperança esperança esperança, campeões campeões campeões, beijinhos beijinhos beijinhos, Portugal Portugal Portugal. Calem-se, porra!

Se não fizermos um grande Europeu – e não acredito que o façamos porque sempre que os vejo a jogar não vejo uma equipa; se por exemplo formos eliminados ainda na primeira fase, Portugal vai deitar-se no divã do psiquiatra porque nas próximas semanas só lhe restará a realidade.

→ 01/06/2008 @5:21

O amor pode provocar vertigens

Vertiginoso

→ 01/06/2008 @4:03

A ‘elite’ da blogosfera não vale um caralho

Há muito, muito tempo, numa galáxia distante, usar a expressão elite intelectual no contexto dos blogues não fazia sentido. Os geeks alienados que começaram a usar sistemas de gestão de conteúdos não estavam muito interessados em importar determinadas características do mundo off-line. Eles tinham razão: desde quando a blogosfera precisa de elites?

A expansão da Web, o aumento do número de blogues, as audiências, as citações nos media tradicionais, a criação de nichos, a profissionalização, o valor desigual das hiperligações e o Todo-Poderoso Google desfizeram rapidamente o ingénuo mito inicial de que não ocorreriam divisões de classes entre bloggers.

Apesar de saber que gostos não se discutem e que as pessoas fazem escolhas e separam as águas, continuo ao fim de quase quatro anos disto sem perceber por que razão se insiste em dizer que os blogues que tratam sobretudo de assuntos de política constituem a elite intelectual da blogosfera. Acompanhar a mediocridade da vida politiqueira portuguesa requer assim capacidades intelectuais tão extraordinárias? Conhecem algum político português actualmente em actividade cuja sensibilidade ou capacidade intelectual vos tenha chamado a atenção?

Uma vez tive uma conversa sobre blogues com alguém que não se deixava impressionar pelas suas maravilhas. «Não passam de meia-dúzia de tipos a fazer a festa, lançar os foguetes e recolher as canas, mas ninguém lhes dá importância, ninguém lhes liga nenhuma.» Perguntei-lhe então quais os blogues que conhecia. Resposta: eram todos blogues de política descobertos através de promoções dos media.

Percebo muito bem que quem sinta na pele o aumento do preço dos combustíveis se identifique mais com o blogue do Zé da Esquina, que se revolta e diz caralhadas, do que com a elite que supostamente tem mais autoridade intelectual para falar sobre o assunto. Até porque quem gosta de pertencer à elite está-se cagando para o Zé da Esquina que se revolta e diz caralhadas, deseja sobretudo defender o tacho com que alimenta as suas vaidades, entrando assim nos mesmos joguinhos de retórica dos nossos políticos politiqueiros.

Portanto a sensação que tenho quando percorro esse tipo de blogues, da esquerda (chique) à direita, é a de entrar numa reprodução à escala blogosférica do Parlamento, com bancadas partidárias, ilustres deputados, aplausos e assobios, panelinhas, alianças, amuos, recadinhos, meia-dúzia de cidadãos pacientes nas galerias e a mesmíssima e desinteressante vulgaridade.

Quando o auto-proclamado presidente do Parlamento da blogosfera, Pacheco Pereira, escreveu numa crónica no Público que os blogues eram «90 por cento lixo», pretendia atingir o orgulho dos «senhores deputados» e não caracterizar um mundo que obviamente não conhece. A ignorância sobre a blogosfera, já agora, não se nota apenas em debates sensacionalistas da SIC: também se verifica entre os notáveis que a utilizam.