Há dias tive um pesadelo. Sonhei que era um fantasma. Estava na escola do meu filho e vi-o atravessando o campo de jogos na minha direcção: em vez de se aproximar com um enorme sorriso e os braços abertos, ansioso por me mostrar o último truque à Cristiano Ronaldo, passou por mim como se eu não existisse.
Se não tivesse visto o filme «O Sexto Sentido» teria interpretado a cena de outra forma. O raio do filme parece ter sido imaginado na mesma cave onde uma dúzia de diabinhos mal-encarados produz secretamente os nossos piores pesadelos, pelo que ainda antes de acordar já sabia que o meu filho não me tinha visto porque no sonho eu tinha morrido e era um fantasma.
O filme deve ter tocado uma corda invisível mas muito sensível dentro de mim. Agora que penso um bocadinho melhor sobre o assunto, não é sequer a questão da morte, a morte literal, que transformou o meu sonho inicial em pesadelo. É a preocupação de que a morte se apresente não como o fim da minha existência mas como uma metáfora da minha forma de estar na vida. Isto é que é verdadeiramente assustador: perder o contacto com aqueles que amo sem ter consciência disso.
Existem momentos da nossa vida em que estamos tão cansados que acabamos por parecer fantasmas: os miúdos comunicam connosco, mas as suas palavras passam através de nós como partículas de neutrinos; eles contam-nos coisas importantes das suas vidas e só uma ínfima parte de nós consegue ouvir porque estamos sem pachorra.
É por isso que o filme me perturba: ao mostrar-nos as deambulações solitárias do personagem de Bruce Willis, apercebemo-nos de que ele se encontra irremediavelmente isolado – e só no fim do filme compreendemos que essas falhas de comunicação se devem ao facto de estar morto. Para quem não percebeu antes, essa reviravolta no argumento atinge-nos como uma revelação dos riscos reais que corremos.
Disfarçado de filme de terror psicológico, o «Sexto Sentido» mostra-nos o que acontece quando não aguentamos as exigências de uma vida moderna que nos suga energia e vontade até não restar mais nada a não ser refugiarmo-nos na cama ou dentro dos próprios pensamentos, onde não existem restrições ou horários a cumprir.
Haja força para conseguir viver todos os dias, não é?































