Quando as mulheres nos dizem «És mesmo egoísta», reagimos como se nos acabassem de espetar uma faca nas costas. Na maior parte dos casos nem sequer sabemos o que elas querem dizer: por mais que nos atirem à cara essa acusação, somos sempre apanhados de surpresa. Precisamos de exemplos concretos do nosso comportamento para perceber em que ocasião fomos egoístas, o que as enfurece ainda mais porque, afinal, já «deveríamos saber».
O problema do homem egoísta é não entender nada de egoísmo. É ensinado pela mamã a lavar as mãos antes das refeições, a pentear-se e a levar o casaco «porque está frio», a ser bem educado com os vizinhos e desconfiado com os estranhos, a não dizer palavrões à mesa ou levantar a tampa da sanita antes de fazer chichi, mas raramente ouve a mãe (e o pai muito menos) falar-lhe sobre egoísmo de uma forma menos pontual e mais profunda.
Pode dizer-lhe qualquer coisa como «não queiras ficar com os brinquedos todos do Joãozinho, olha que estás a ser egoísta», mas raramente se mostra ao filho egoísta como a mulher que nunca deixou de ser. Transforma-se em vítima desse egoísmo – uma peculiar mistura entre manha e comodismo – e abafa a semi-escravidão em que escolheu viver recorrendo à velha cantiga do instinto maternal mas que não é mais do que uma forma de machismo. A tarefa de «reeducar» um rapazola egoísta que entra na idade adulta é deixada então às presenças femininas que se seguem: namoradas, mulheres.
O homem egoísta também não pode ser visto apenas como um coitadinho vítima de uma educação machista. O mais inteligente percebe bem que a «culpa» também é atribuível à forma como menospreza questões de sensibilidade, classificando-as como coisas mais próprias das mulheres e dos paneleiros. O mais parvo usa essa mítica sensibilidade como arma e, se for preciso, verte umas lágrimas de crocodilo com o objectivo de mostrar como é tão sensível e ser desculpado pela «mamã».
Que patético. Mesmo que viva num mundo moderno e tenha consciência de que tudo isso é um disparate, e um disparate anacrónico, vê nessa ilusória sensibilidade feminina – alguns chamam-lhe virtude – apenas uma forma de transferir as suas responsabilidades para a companheira. Algumas mulheres poderão sentir-se «mais mulheres» por empunhar o ceptro dessa preciosa sensibilidade feminina, mas muitas vezes aceitam-no por vaidade.
A mulher também tem culpas no cartório quando diz que o homem «é egoísta por natureza». Este argumento serve sobretudo ao homem, pois assim sempre poderá dizer: «Se os homens são egoístas por natureza, então não há forma de mudar: afinal ninguém pode contrariar a sua própria natureza». As mulheres também usam este raciocínio como justificação para desculpar e não exigir mais.
Como em tantas coisas desta vida, tudo começa de facto na educação.