Arquivos mensais: Junho 2007

→ 22/06/2007 @17:54

In the Office

In the Office

Achei graça a este wallpaper e resolvi partilhá-lo. Cliquem-lhe. Ou, se preferirem, visitem o VladStudio

→ 22/06/2007 @17:34

As tentações existem para lhes cedermos

Guy de MaupassentPorque razão insistem os spammers em bombardear as nossas caixas de correio electrónico com promessas de erecção eterna? Como poderá ser comparável o efeito de uma obscura receita afrodisíaca ao efeito provocado pelas palavras? Se os spammers não fossem uns idiotas sem imaginação, enviar-nos-iam umas citações da literatura erótica de Guy de Maupassant (só para começar) e nunca mais nos aborreceriam com palavras tão insípidas como Viagra, Cialis, Levitra, Valium ou Phentermine.
Vídeos do PornTube? Pá, esqueçam. O poder da Literatura sobre o nosso cérebro (‘o orgão de engate’, como lhe chama Maupassant) é muito superior ao tal vídeo da Daniela Cicarelli transando com o namorado na praia e infinitamente superior aos fellatios da rainha das insossas Paris Hilton.
Quem é o cavalheiro – argumentista de filmes eróticos? Caso tivesse nascido no nosso tempo poderia prestar-se a isso, e com todo o gosto, na condição de poder entrar como actor principal.
Porque Maupassant não foi só um grande escritor francês: terá sido provavelmente um dos maiores fodilhões que a Europa do século passado conheceu. O homem era uma lenda entre os seus amigos escritores – entre eles o grande Flaubert.
Maupassant não se coibia de proclamar as suas raras qualidades. Até um dos seus melhores amigos – Frank Harris, escritor americano, tornado célebre por uma autobiografia muito picante e escandalosa intitulada My Life and Loves – se deixou impressionar pelas façanhas do francês. Os dois homens tinham em comum o gosto em falar (e escrever) sobre temas proibidos e podiam dar-se ao luxo de ter conversas como esta que o próprio Harris relata:

Quando lembrei a proeza do Conde Seis-Vezes, amigo de Casanova, Maupassant retorquiu:
‘Seis vezes? Seis vezes faço eu numa hora!’
Esta resposta fez-me pensar que algo de semelhante deve ter acontecido no caso que me contou o meu amigo George Maurevert, o escritor: Maupassant, excitado pelo cepticismo de Flaubert, levou como testemunhas um oficial de diligências a um bordel em Paris e possuiu seis raparigas numa hora (…). Noutra ocasião, Maupassant disse-me que era capaz de copular o tempo que quisesse.
‘Um poder perigoso’ – respondi, julgando que estivesse a brincar.
‘Perigoso, porquê? – perguntou-me.
‘Porque poderia ter facilmente um esgotamento e uma depressão nervosa. Mas, claro, que está a falar metaforicamente.’
‘A verdade é que não estou’ – insistiu ele – ‘e quanto a esgotamento não sei o que quer dizer com isso, pois tão cansado me sinto depois de duas ou três vezes como depois de vinte.’
‘Vinte!’ – exclamei a rir. – ‘ O pobre do Casanova não chegaria a tanto!…
‘Já contei vinte e mais’ – insistiu Maupassant. – ‘Acho que saio fora do comum no campo da sexualidade, pois posso endireitar o meu instrumento sempre que tal me agrada.’
‘A sério?’ – exclamei, incapaz de pensar.
‘Olhe para as minhas calças’ – disse a rir e, em plena rua, mostrou-me que falara verdade.

Que as façanhas fálicas do senhor Maupassant não vos desviem do essencial: o homem era um grande escritor. Publicou mais de 300 contos e foram a graça e originalidade destes contos que o tornaram rico e famoso – extraordinário não é, um escritor enriquecer à custa da sua arte. Também escreveu literatura erótica (As Sobrinhas da Viúva do Coronel, que estou a ler agora, publicado em 1880, é um belo exemplo), mas foi na arte da short story, como lhe chamam os americanos, que conquistou a eternidade.
Maupassant teve um excelente professor. Era grande amigo de um gigante da Literatura, o já mencionado Gustave Flaubert – e durante os dez anos em que permaneceu sob a sombra protectora do mestre nunca publicou nada – mas também nunca parou de escrever. Ao todo, além dos contos e dos romances eróticos, escreveu peças de teatro, poemas, crónicas, romances e novelas.
O livro As Sobrinhas da Viúva do Coronel, tão maravilhosamente escrito, exalta a pureza do amor e do sexo sem qualquer tipo de pudor. Tanto é uma escrita bela como excitante: embala-nos em belíssimas descrições românticas que inevitavelmente conduzem a narração à exaltação do desejo sexual e do prazer. Misturar amor e sexo, e servi-lo no mesmo prato, eis a mais afrodisíaca receita de todas – uma ousadia em pleno século XIX.

Não se sabe se a fama de garanhão de Maupassant correspondia à verdade, mas no espólio deixado pelo escritor foram encontradas mais de 1500 cartas amorosas – chegou a escrever cinco num único dia, e dirigidas a mulheres diferentes.
Mas Maupassant era dado a depressões e o que lhe aconteceu depois acabou por potenciar o problema. Contraiu sífilis, doença tão terrível naqueles dias como o é a SIDA actualmente. Nos dez anos que se passaram foi ficando cada vez mais fraco dos nervos. Maupassant tornou-se furtivo, irascível, paranóico. Tentou suicidar-se e foi internado num manicómio em Paris. Aí morreu, a 6 de Julho de 1893, aos 43 anos.

Segue-se um conto – O Colar.

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→ 22/06/2007 @12:08

Microsoft Surface: That’s a big ass Table, dude

Um vídeo no YouTube parodia de forma bastante inteligente a tecnologia Microsoft Surface – a tal que colocou quase toda a gente a dizer que, vá lá, desta vez os gajos até tinham feito alguma coisa de jeito… Link

→ 22/06/2007 @10:54

The Dub Side of the Moon

Easy Star All-StarsThe Dub Side of the Moon, do grupo Easy Star All-Stars, é um dos projectos mais bizarros que eu já ouvi relacionados com os Pink Floyd. Já imaginaram The Dark Side of the Moon tocado em ritmo dub reggae?

Seja o que for que os fãs pensarem da afronta, garanto-vos que este é um disco mais interessante do que qualquer dessas versões de tributo que tenho ouvido por aí – uma das quais já aqui falei (neste post) e outra (também um tributo a The Dark Side of the Moon) da qual farei outro post – fica para depois.

O que eu gosto mesmo neste disco é a lata dos gajos: nada de demasiadas reverências aos mestres ou preocupações em manter o ‘feeling’ da obra original. É como se dissessem: ‘Oiçam, crescemos a ouvir o Dark Side of the Moon, mas a nossa linguagem musical é o reggae da Jamaica – não há como fugir a isso, por isso vamos fazer um cover honesto e dar o melhor com o que sabemos.’

Um dos exemplos mais engraçados é a faixa Money: em vez de caixas registadoras, ouvimos os sons de isqueiros acendendo charros – charutos Bob Marley, tenho quase a certeza.

A verdade é que eles receberam a benção dos próprios Pink Floyd – bem, não de todos, porque dois deles não se pronunciaram (Nick Mason e Rick Wright) e Roger Waters tem um feitio um bocadinho difícil, enfim, coisa própria de génios. Mas David Gilmour não só gostou bastante como afirmou em várias entrevistas que estava desejoso de os ouvir ao vivo. Waters (a quem os membros da banda mandaram o disco) enviou um fax a dizer que sim, tinha recebido, mas que ‘era contra a sua política comentar covers do seu trabalho’.

Teria Waters pensado que estava a responder a jornalistas? Já Clare Torry (a voz feminina do inesquecível e arrepiante Great Gig in the Sky) veio a público dizer que adorava o que eles tinham feito ao Dark Side of the Moon.

Enfim, nada como usar os teus próprios ouvidos, não é? Saca

→ 22/06/2007 @3:14

A tecnologia mente-nos

Há uma cena no filme ‘Contacto’ – baseado no belo livro de ficção científica de Carl Sagan – em que um dos personagens pergunta: ‘Apesar de todas as suas maravilhas e comodidades, será que os seres humanos se tornaram mais felizes e completos por causa da tecnologia?’
Esta parte do filme ficou-me na cabeça porque me parece que é uma das perguntas mais importantes que se podem fazer actualmente.
No fundo é o mesmo que dizer: será que o teu novo monitor te tornou capaz de observar melhor? O teu novo telemóvel XPTO tornou-te capaz de estabelecer uma conversa de qualidade e atingir a mente e o coração de outra pessoa? O teu leitor de MP3 fez-te ouvir mais e melhor música?
Claro que a tecnologia não existe para encontrar as respostas por nós – pode ajudar-nos porque produz ferramentas, mas não nos pode substituir. Então porque razão vivemos numa sociedade em que cada ferramenta gerada pela nossa capacidade tecnológica nos é apresentada como se fizesse parte de um padrão insubstituível e, ao mesmo tempo, a nossa capacidade crítica procura ser anulada em favor dessa ilusão?
Se calhar existe um equívoco na relação que temos com a tecnologia. Chegámos a um ponto em que, como escreveu Edward Bond, já não conseguimos afirmar com toda a certeza se a tecnologia corresponde às nossas necessidades ou se, pelo contrário, são as nossas necessidades que andam a ser moldadas pelas conveniências da tecnologia.
Li uma vez num livro de ficção científica do Clifford D. Simak (farto-me de ler FC, é uma pancada que tenho desde puto) uma história em que, no final, a recompensa dos seres humanos escolhidos após um processo de selecção galáctico é a possibilidade de habitar um novo planeta onde não existe mercado ou economia, ou seja, uma sociedade onde o dinheiro não é uma necessidade.
Acho que esta ideia de conceber a utopia como um novo mundo onde o dinheiro não existe tem a ver com o óbvio: o desencanto provocado por uma sociedade capitalista que invade a nossa existência com a pujança e a cegueira de um tsunami engolindo uma praia cheia de inocentes.
Falo nisto porque as conveniências daquilo a que chamamos tecnologia ou progresso não são mais do que as conveniências do mercado. E a força que mantém unida esta relação artificial entre as nossas necessidades e as necessidades do mercado é a publicidade e o marketing.
Querem um exemplo? As mulheres estão sujeitas a bombardeamentos sucessivos de anúncios a produtos que impõem um ideal de beleza que, se pensarmos bem, não tem de ser universal ou indiscutível. Para quê essa imposição? Para que as indústrias possam beneficiar do receio que as mulheres sentem de não corresponder aos padrões de beleza que lhes são impostos artificialmente. Já falei nisso aqui: é a ditadura dos corpos Danone. Para a publicidade, o amor não pode ser cego.
Outro exemplo é o lançamento do Windows Vista. Teremos mesmo necessidade de um sistema operativo que aumenta de forma exponencial os requisitos mínimos de hardware? Os benefícios serão assim tantos que nos obriguem a comprar um novo processador, mais memória RAM e uma placa gráfica mais potente? Acho que até os maiores defensores do Windows concordarão comigo: não há nada que se possa fazer no Vista que não tenhamos feito no 2000 ou no XP (e melhor, segundo muitas opiniões).
Então porque razão nos querem fazer acreditar que precisamos de um novo Windows? Porque é essa a conveniência de um mercado que se mascara de tecnologia e progresso: um novo Windows mais exigente no hardware sai cá para fora apenas para nos obrigar a comprar mais hardware. Esta é a principal razão do apoio generalizado que a Microsoft recebe dos fabricantes e da relutância destes em apoiar os esforços da comunidade Open Source. É uma relação de cumplicidade baseada no lucro e que não tem em conta as nossas verdadeiras necessidades.
E quais são as nossas necessidades? Beneficiar de uma tecnologia cujo objectivo seja o de potenciar o nosso valor enquanto pessoas. Uma tecnologia que seja uma ferramenta ao serviço da cultura, não uma forma de conduzir as nossas vidas e dominar o nosso pensamento. Basta abrir os olhos e tentar perceber se, por detrás de um novo e formidável lançamento do produto XPTO, não estará apenas a simples necessidade de manter a dinâmica de mercado e de nos sacar o dinheiro. E que tal comprar livros ou discos com o dinheiro que poupaste? Que tal investires em ti e não no Bill Gates?

→ 21/06/2007 @11:19

Lonesome Cowboy Burt

Lonesome cowboy

→ 21/06/2007 @10:52

Bertrand Russell

Bertrand RussellToda a desilusão é para mim uma doença que certas circunstâncias podem tornar inevitável, é verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais rapidamente possível, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria. Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro não gosta; em que é que o último é superior ao primeiro? Não há nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta são bons, para quem não gosta são maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro não conhece; sobre este ponto, a sua vida é mais agradável e está melhor adaptado ao mundo onde ambos têm de viver.

O que é verdadeiro neste exemplo trivial é igualmente verdade nas questões mais importantes. O homem que gosta de assistir a desafios de futebol é sob esse aspecto superior ao homem que não gosta. O que aprecia a leitura é ainda mais superior do que aquele que não a aprecia, pois as oportunidade de ler são mais frequentes do que as de ver desafios de futebol. Quanto mais objectos de interesse um homem tem, mais ocasiões tem também de ser feliz e menos está à mercê do destino, pois se perder um pode recorrer a outro. A vida é demasiado curta para nos permitir interessar por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias. Somos todos propensos à doença do introvertido que, perante o multiforme espectáculo que o mundo lhe oferece, desvia a vista para contemplar apenas o vazio dentro de si.

Bertrand Russell, A Conquista da Felicidade