
À semelhança de outros grandes quadros, o célebre ‘Noite Estrelada’, de Van Gogh (wallpaper), atraiu muita gente – ‘peritos’, é o nome oficial – desejosa de fornecer a pobres mortais como tu e eu a interpretação definitiva das ‘reais intenções’ do pintor.
Alguns afirmavam que aquele negrume nas janelas e porta da Igreja significava que Van Gogh não encontrava inspiração nas religiões organizadas, mas na Natureza. A mim aquele campanário lembra-me o chapéu da Bruxa Má dos filmes de Walt Disney, portanto estão a ver que as minhas referências culturais não fazem justiça a nenhuma religião, por mais criticável que seja, muito menos ao grande Van Gogh, cuja qualidade de resto só seria criticável a quem nunca apanhou uma bebedeira de caixão à cova ou fumou uma ganza a ponto de ver os céus em câmara-lenta.
Seja como for, dado que a verdadeira igreja de Saint-Rémy que ele observou a partir da janela do seu quarto não tinha campanário, é possível que o acrescento que lhe fez tenha mais significado do que criticar religiões pincelando pequenas sombras em igrejas mal iluminadas. Não estaria apenas com saudades da terra natal, a Holanda, onde era comum encontrarem-se igrejas com campanários?
Outros – mais dados a explicações psicanalíticas – garantem que o cipreste retorcido e aquele céu representam a alma atormentada do artista. Que tinha uma alma atormentada já muitos sabiam, pois esta paisagem foi pintada precisamente no hospício de Saint-Rémy, em França, onde o pintor fora internado. Até a data exacta em que pintou o quadro ficou registada para a posteridade: numa noite estrelada de 9 de Junho de 1889. 72 anos depois, com o primeiro passeio espacial de Yuri Gagarin, a Humanidade iniciaria a longa caminhada em direcção às estrelas de Van Gogh – as únicas que valem a pena. Uma série de explosões ocorridas na misteriosa Monocerotis V838, uma estrela gigante vermelha da constelação de Unicórnio, a 20 mil anos/luz de distância, foi descoberta em Janeiro de 2002 pelo Hubble. Do jogo de luz e poeira captado pelas lentes do telescópio espacial resultou uma série de imagens que a NASA, com comovente entusiasmo, comparou às pinceladas que Van Gogh produzira 113 anos antes num hospício perto de Paris.
Por causa disto – e estamos de volta às interpretações – há quem afirme que ‘Noite Estrelada’ foi pintado porque Van Gogh terá visto com os seus próprios olhos o que o Hubble captou mais de um século depois. Adoro esta ideia de juntar pintor e astrónomo num quadro tão maravilhoso como este, mas basta fazer as contas para se perceber que é uma interpretação fantasiosa. Enquanto o mestre pintava, já as explosões haviam ocorrido há muito, muito tempo. Se quiserem aprofundar o conhecimento sobre a Monocerotis V838, leiam este artigo no excelente Portal do Astrónomo.
Quanto à loucura. Na véspera de Natal de 1888, na sequência de uma discussão com Paul Gauguin, outro grande pintor e seu grande amigo, Van Gogh, sentindo-se provavelmente torturado pelas palavras do outro, cortou a própria orelha. Segundo informações recolhidas pelos jornais da época, ofereceu-a depois a uma prostituta. Este incidente terá sido o primeiro sinal inequívoco da doença mental do pintor. Julga-se que Van Gogh sofria de epilepsia.
Van Gogh poderia ter os seus momentos, e alguns podiam ser de loucura, mas a explicação dada pelo escritor português João Aguiar é mais acutilante do que reduzi-lo a um simples caso de epilepsia ou excesso de absinto (consta que Van Gogh abusava um bocado). Numa crónica escrita há muito tempo numa revista já extinta e de cujo nome não me lembro, Aguiar afirmava que Van Gogh não era enlouquecido pela sua loucura, mas por saber que a sua arte não lhe garantiria a refeição no dia seguinte. O irmão, Theo, era um negociante de arte e acreditava no seu talento, mas mesmo assim só lhe conseguiu vender um quadro. Sustentou-o durante quase toda a sua vida, o que não é saudável para o orgulho de ninguém. Num desfecho muito típico, a qualidade da obra só seria reconhecida depois da morte do autor, ocorrida em Julho de 1890: Van Gogh disparou um tiro sobre o próprio peito e morreu dois dias depois. As suas últimas palavras: ‘A tristeza durará para sempre’.
Hoje em dia cada quadro seu vale uma fortuna quase inimaginável. Um exemplo: em 1990, o quadro Retrato do Dr. Gachet foi comprado por 60 milhões e 500 mil euros.