Este ano tenho uma boa razão para aturar o pastelão televisivo da Cerimónia dos Óscares de Hollywood. O apresentador do evento – já confirmado oficialmente pelos organizadores – vai ser Jon Stewart.
Stewart é um comediante. Faz de falso pivot de um telejornal humorístico – The Daily Show – exibido nos Estados Unidos pelo canal Comedy Central e, em Portugal, pela SIC Radical. A passagem dele como convidado do programa informativo Crossfire, da CNN, tornou-se um acontecimento histórico por causa do que Stewart se atreveu a dizer em directo, enxovalhando o programa e os seus respeitáveis anfitriões.
Pessoas que gravaram o Crossfire dessa noite colocaram-no na Internet porque aquele era um tipo de material explosivo. E tinham razão: em poucos dias, um dos primeiros sites a colocar uma stream do vídeo com a emissão original da CNN – o iFilm – registou 400 mil visionamentos. Mais de um ano depois, a histórica emissão continua a circular na rede. Os downloads são já aos milhões. O impacto da presença de Stewart no programa foi tal que, na emissão seguinte, os dois apresentadores – Tucker Carlson e Paul Begala – gastaram boa parte do tempo a ler cartas de telespectadores manifestando-se duramente contra as posições do comediante. Mas esses foram a minoria: Stewart continua na CNN e prepara-se para apresentar os óscares, o programa Crossfire já foi extinto.
Mas que raio terá dito Jon Stewart para provocar tanta reacção das pessoas e desejo de vingança dos dois apresentadores do Crossfire? É simples: ele foi lá criticar duramente o programa e a postura dos apresentadores. E falou mesmo a sério. Ninguém espera que um comediante reivindique o direito elementar de falar a sério, sobretudo perante uma plateia de milhões.
“Que idade tem você?” – Perguntou Stewart, dirigindo-se a um dos apresentadores, Tucker Carlson, cuja imagem de marca é o uso de um lacinho colorido à Miguel Esteves Cardoso. “Trinta e cinco anos”, respondeu Carlson. “35 anos e usa esse lacinho? – Gozou. – Note que não estou a dizer que você não é um tipo esperto. Deve ser difícil atar esse lacinho todos os dias”
É preciso entender que o CrossFire era, na altura, um dos ex-libris informativos da CNN: um programa de debates que, na sua essência, dividia as questões políticas, sociais e económicas dos Estados Unidos em termos simples e directos: esquerda versus direita, democratas versus republicanos. Em todas as emissões eram convidados representantes das alas políticas antagónicas. Mesmos os apresentadores, Tucker Carlson e Paul Begala, assumiam lados opostos nesta barricada de ideias, completando assim o quadro Crossfire (Fogo Cruzado) do programa.
Quando Jon Stewart foi convidado, o Daily Show estava a atingir o sucesso merecido. A tal ponto que a CNN, reconhecendo-lhe mérito, pertinência e potenciais audiências, decidira passar a incluir o programa na sua própria programação, retirando-o do gueto do Comedy Central e apresentando-o às massas. O CrossFire apostou tanto na sua presença que até quebrou uma regra: Stewart foi o único convidado nessa noite.
Em vez de chegar lá e dizer umas piadolas para deleite dos anfitriões e da audiência, Jon Stewart acusou o programa da CNN (que acabara de o contratar, recorde-se) de ser “mau” e seriamente “prejudicial” à América porque, no seu entender, sob uma pretensa capa de “polémico programa de debates”, se limitava a entrar no velho jogo do marketing político e dos grandes interesses económicos: “Nós precisávamos de um bom programa de informação que combatesse os interesses corporativistas e desmontasse todo o marketing que rodeia a política actual. Infelizmente, vocês não o fazem, entram no jogo deles. Para mim é um desespero ver o vosso programa. Por favor, deixem de ser mercenários. Não façam mais mal à América”.
É engraçado que, numa emissão em que é suposto dois apresentadores se confrontarem – Crossfire, lembram-se? – eles deixaram cair o verniz da confrontação civilizada, unindo-se para responder às acusações e enxovalhar Stewart: “Você como comediante é bom, mas para dar sermões não presta”.
Claro que ele não lhes deu hipóteses.
“Que idade tem você?” – Perguntou, dirigindo-se a um dos apresentadores, Tucker Carlson, cuja imagem de marca é o uso de um lacinho colorido à Miguel Esteves Cardoso. “Trinta e cinco anos”, respondeu Carlson. “35 anos e usa esse lacinho? – Gozou Stewart. – Note que não estou a dizer que você não é um tipo esperto. Deve ser difícil atar esse lacinho todos os dias”.
É este o homem que vai apresentar os Óscares de Hollywood, edição 2006. Se Stewart mantiver metade desta ousadia e espírito crítico, suspeito que é bem capaz de abardinar completamente a cerimónia e desmontar algumas poses e sorrisos.
O vídeo com a histórica emissão do Crossfire está aqui. São mais de 70 megas de download, mas acreditem que vale a pena.