João Craveiro – o autor deste artigo – escreveu-o para participar na iniciativa Um Livro Para Oferecer. Levou para casa o livro Segurança Informática nas Organizações. Segue-se o texto do João.
Se está a ler isto, é porque está em frente a um computador; e se isto é verdade durante uma boa parte do dia, este texto é especialmente para si. A RSI (Repetitive Strain Injury — lesão por esforço repetitivo) é o nome vulgarmente dado a qualquer uma de várias lesões relacionadas com o uso repetido e/ou excessivo de determinados utensílios ou ferramentas — sendo que este texto se irá focar principalmente num: o computador. Estas lesões incidem sobre o chamado tracto superior — mãos, braços, ombros, parte superior das costas. Se dores ou dormência frequentes nas referidas partes do corpo lhe soam familiares, tem (mais) uma boa razão para continuar a ler.
Das principais causas, a mais óbvia e conhecida pela maioria é a adopção de uma má postura. Este causa acaba por ser parcialmente evitada de forma activa por muitas pessoas, pois a má postura tem efeitos directos e quase imediatos no conforto (estar mal sentado ao computador não se nota só nos efeitos a longo prazo) embora ainda proliferem alguns comportamentos por desconhecimento dos seus efeitos na saúde física — como teclar com os pulsos assentes (os apoios de pulsos são para descansar quando não se está a escrever), ou utilizar o rato a uma grande distância do teclado e/ou adoptando um mau posicionamento da mão.
Nunca consigo falar de RSI sem me lembrar do cenário que vi num guichet do Hospital de Santa Maria, onde teclado, monitor e rato se situavam em 3 peças de mobiliário distintas, com o rato a ficar praticamente atrás da funcionária se esta estiver a escrever no teclado.
Não tão óbvios, são os efeitos de períodos longos e pouco espaçados de utilização. Se a pessoa não se sentir real e notoriamente cansada, não vai fazer pausas regulares para se levantar do computador e/ou descansar a vista — e falo por mim, que mesmo consciente disto continuo a não fazer pausas com a frequência que devia.
É por causa de (e para) pessoas como eu — e como o leitor, se ainda não se levantou desde que leu o título deste texto — que existem ferramentas (programas informáticos) para fazer as vezes de conselhos terapêuticos e pôr juízo nos nossos hábitos de utilização destas máquinas do demónio sem as quais já não vivemos.O Workrave é um desses programas. É livre como um pássaro, grátis como as cervejinhas que nunca nos oferecem, e existem versões para Windows, Linux, HP-UX, Solaris, FreeBSD e para a máquina de costura da sua cunhada (OK, este não — ainda). Fala inglês, holandês, espanhol, polaco, dinamarquês, alemão, francês, chinês e russo — mas não sabe estar calado em nenhuma destas línguas. O programa controla o tempo para estipular 3 tipos de paragens.
As micro-pausas (micro-pause), mais pequenas e frequentes, servem apenas para parar de teclar e olhar para o monitor durante alguns segundos).
Os intervalos para descanso (rest break) estão definidos, por omissão, para durar 10 minutos e ocorrer a cada 45 minutos; durante estes, no monitor, são mostrados exercícios a fazer, para relaxamento dos músculos e da vista.
O terceiro tipo de paragem é o definitivo, quando é atingido um determinado limite de utilização diária do computador — 8 horas, por exemplo.
Conforme a confiança do utilizador na sua auto-determinação, é possível permitir que as pausas sejam adiáveis ou, pelo contrário, bloquear a possibilidade de interacção do utilizador durante as mesmas.
Existem outros programas do género, como o DrWright e o Xwrits — livres e gratuitos, como o Workrave — ou o Workpace — proprietário e pago (39 dólares). Há também aplicações normais que incluem uma funcionalidade para obrigar o utilizador a fazer pausas (como o editor de texto GNU/Emacs e o seu type-break-mode), e mesmo suporte nativo por parte do ambiente de utilização.
Em Linux, no ambiente GNOME, é possível definir (através do menu, em System > Preferences > Keyboard) que o ecrã seja bloqueado após um dado período de utilização (como os 45 minutos dos intervalos de descanso do Workrave) para obrigar o utilizador a descansar.
Agora, se leu o texto todo de seguida, ponha-se a andar — concerteza está na hora de uma pausa.