Arquivos mensais: Dezembro 2006

→ 05/12/2006 @21:37

Morde-me, Kate, que o meu sangue é quentinho

→ 05/12/2006 @21:12

Maluquinhos das aparelhagens

Sou um daqueles maluquinhos das aparelhagens. Essa maluquice vem directamente do facto de ser, em primeiro lugar, um maluquinho pela música. Há pessoas que nascem para fazer música, outras nascem para a ouvir. Sempre fiz parte deste segundo grupo.

A questão da alta fidelidade não foi muito importante enquanto passava os meus tempos a ouvir Lena Lovich – musa metade punk, metade gótica, da chamada New Wave dos anos 80 – mas começou a tornar-se crítica quando conheci os Pink Floyd. Quando ouvi o The Dark Side of the Moon numa aparelhagem mais sofisticada tudo mudou. Já tinha descoberto as maravilhas da música, agora descobria o que é ficar hipnotizado pela acústica.

A alta fidelidade só tem um problema: é demasiado cara. Eu ainda estava a estudar e não tinha qualquer hipótese de comprar uma.

Quando se está nessa situação, o passo seguinte e natural é massacrar os pais. Eles ouviam muita música: os LPs do Cat Stevens, que eu adorava, um single do José Cid, que eu também gostava por causa dos pã-pã-pãs dramáticos e do tom fanfarroneiro, e mais uns quantos cujos nomes já não recordo. Mas a vida estava difícil e eles não ficaram muito sensibilizados com as minhas ânsias acústicas.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura – e um dia, ao chegar a casa, os meus pais tinham uma surpresa: uma aparelhagem nova! O problema é que, cinco segundos depois de lhe por os olhos em cima, vi imediatamente que aquilo era uma porcaria.

Os filhos são uns ingratos, eu sei. Mas depois de saber que as melhores aparelhagens resultam de uma junção criteriosa de componentes separados e de marcas diferentes; depois de ter decorado as melhores marcas existentes no mercado e todas as recomendações existentes nas revistas da especialidade, não achei piada nenhuma ao facto de me terem comprado uma daquelas aparelhagens integradas que são muito vistosas e apelativas enquanto estão desligadas.

Não tive outro remédio senão engolir em seco, aceitar e fazer os possíveis por não parecer ingrato.

Só anos depois pude finalmente escolher a minha própria aparelhagem: umas colunas KEF, um amplificador Harmon Kardon e um leitor de CD da Pioneer (não havia dinheiro para mais) comprados a crédito à custa de 18 orgulhosos cheques pré-datados que eu entreguei na loja.

Se pensam que um audiófilo fica satisfeito quando faz a primeira compra, desenganem-se. É apenas o início de uma longa caminhada que tem por objectivo melhorar sempre o som – uma busca da perfeição sonora praticamente impossível de conseguir.

À medida que o meu gosto musical se ia tornando mais ecléctico – comecei a descobrir a música clássica e o jazz – fui continuando a poupar mais uns tostões para comprar uma aparelhagem ainda melhor. Nessa altura ainda não se usavam os CDs para gravar e o Santo Grall das gravações em cassete eram os decks da Nakamichi – quem tivesse um (e eu tive!) bem podia chamar os amigos lá a casa para uma sessão colectiva de veneração. Gravar num Nakamichi uma cassete a um amigo não era apenas um acto de partilha musical – já de si importantíssimo – mas uma demonstração de qualidade de vida. Podia não ter dinheiro para comprar um carro, mas que interessava ter de andar a pé se, ao chegar a casa, podia contemplar um sistema amplificador/pré-amplificador com colunas Mission e um belo leitor de cassetes da Nakamichi? Esta paixão audiófila ficará comigo o resto da vida.

Quando as responsabilidades aumentam, somos forçados a deixar de pensar em nós: há outras despesas mais importantes, há o bem-estar de outras pessoas a considerar.

Agora que a minha preciosa aparelhagem se avariou e só consigo ouvir música pelo computador, ainda dou comigo a suspirar pelos tempos em que me sentava no sofá e, num acto quase religioso, me deixava envolver pelos sons tridimensionais do saxofone do John Coltrane e do clarinete-baixo do Eric Dolphy – um à direita, outra à esquerda, o piano ao centro, o contrabaixo quase na nuca, a bateria lá mais atrás, o som ambiente em todo o lado, como se de facto estivesse a assistir ao concerto. Acreditem: a música deve ser dignificada com o melhor sistema de som possível. Vontade não me falta, só me falta o dinheiro.

→ 05/12/2006 @10:33

Latuff, o cartoonista panfletário

O cartoonista brasileiro Carlos Latuff (nasceu no Rio de Janeiro a 30 de Novembro de 1968, ver página no DeviantART) é uma figura polémica. Alvo de contestação no seu próprio país devido às opções políticas nos seus cartoons, recebeu ameaças de morte numa página da Net associada ao Likud, partido de direita israelita.
Latuff participou no concurso de cartoons sobre o Holocausto da Casa da Caricatura do Irão – a iniciativa iraniana surgiu como resposta à polémica dos cartoons de Maomé publicados na imprensa europeia. O brasileiro conquistou o segundo lugar com o retrato de um palestiniano diante do muro erguido por Israel com o uniforme de prisioneiro dos campos de concentração nazis: em vez da estrela de David no peito, aparece o Crescente Vermelho.
Latuff sempre esteve associado a jornais panfletários de esquerda, mas foi uma viagem aos territórios ocupados da Cisjordânia em 1999 que o tornou simpatizante da causa palestiniana.
Ter sido o único brasileiro a participar num concurso promovido pelo presidente do Irão (um anti-semita sinistro) não foi grande motivo de orgulho para muitos dos seus concidadãos (ler Vergonha Nacional: Carlos Latuff).
De Israel, as reacções ao trabalho do cartoonista não são amigáveis: acusam-no de fazer propaganda anti-semita recorrendo a estereótipos do estilo nazi.
A sua série mais famosa é composta por um conjunto de cartoons chamado We Are All Palestinians, na qual os povos oprimidos da História (os judeus no Gueto de Varsóvia, os negros na África do Sul, os negros e índios nos Estados Unidos) são comparados aos palestinianos. Noutra série, esta mais benigna – Forgiveness – são retratadas situações de reconciliação entre Judeus e Palestinianos.
Latuff – o apelido vem-lhe do avô, que era libanês – fala sobre todas estas questões numa entrevista dada a Marta Eduarda Mattar, da Revista do Terceiro Setor.



→ 05/12/2006 @1:18

A super-orgia

Então e se reunirmos 500 pessoas – 250 homens e 250 mulheres – e organizarmos a maior orgia da história como se fôssemos o Spencer Tunick do porno? E se ensaiarmos os participantes de forma a que as suas cambalhotas sexuais estejam sincronizadas? Que espectáculo haveria de ser! Pois é – os tipos fizeram-no. Atenção: o link contém imagens que…

→ 05/12/2006 @0:05

Os ratos gigantes do Convento de Mafra

Espero que os americanos de Hollywood nunca saibam do mito das ratazanas gigantes de Mafra. O mais provável seria fazerem um filme de terror baseado nas histórias que se contam.
Como seria esse filme? Não é difícil de prever. Poderia começar em 1965.

Primeira cena: no Portugal Salazarista e atrasado, dois técnicos da Bayer chegam ao convento com o objectivo de proceder à desratização dos imensos e misteriosos subterrâneos do convento. Descem para as profundezas dos abismos, não ligando aos avisos da população local que, no filme, se encontra vestida de negro e fala em espanhol.

Os técnicos ouvem ruídos estranhos. Notam as sombras sinistras projectadas nas paredes. O medo vai aumentando. De súbito, são atacados por um bando de ratos gigantes do tamanho de cães e tão ferozes como piranhas. Os homens são feitos em esqueletos ao som de violinos abelhudos.

Segunda cena: cai a noite no convento do terror. Soldados da Escola Prática de Infantaria estão no terraço a caçar pombos. Estão vestidos com a farda número 3 que, se bem me lembro, é suficientemente foleira para representar o Portugal atrasado dessa altura.

Um deles cai de uma altura de oito andares e, para cúmulo do azar, em vez de se emborrachar no chão, cai no buraco dos esgotos. Uma vez que não se pode morrer duas vezes, a não ser em filmes de terror mais elaborados, o que não é o caso, este pobre soldado escapa à queda, embora fique muito ferido. Os pulmões, contudo, funcionam bastante bem – o suficiente para gritar de horror quando um exército de ratazanas gigantes o come vivo.

Terceira cena: soldados de infantaria atam uma vaca, penduram-na de cabeça para baixo e fazem-na descer pelas catacumbas abaixo. Estão todos muito excitados, gesticulam muito uns com os outros e falam muito depressa.

Dado que a acção não se passa nos Estados Unidos, nenhum guindaste é usado: são os próprios soldados que suportam o peso da vaca. Quando ela finalmente chega lá em baixo, o que podemos ouvir são os mugidos lancinantes do pobre animal enquanto é comido vivo pelos monstros que vivem nas profundezas infernais do convento.

Quarta cena: a Bayer não desiste de decifrar os problemas dos ratos. Propõe a Salazar (numa reunião ultra-secreta) um plano completo de desratização de Mafra. Embora o conhecimento da História de Portugal seja irrelevante quando se quer contar apenas uma história, os produtores fizeram um trabalho cuidadoso de investigação e concluíram que Salazar é um dos bad guys: é retratado como um velho sinistro, parecido com o imperador Sith de A Guerra das Estrelas e com uma respiração a fazer lembrar a do Darth Vader.

Quando os técnicos da Bayer lhe dizem que será necessário evacuar uma área de 30 quilómetros em redor do convento (por causa da quantidade de veneno necessário para matar os ratos), Salazar responde com um definitivo: Too much expansive. Um dos técnicos – um americano – tenta demovê-lo, lembrando que a vida de milhares de pessoas se encontra em risco. «Nonsense» – responde o ditador, frio e implacável. Enquanto os técnicos se retiram, desanimados, ouvem-se os gritos de sarcasmo vindos do gabinete presidencial.

Quinta cena: estamos em 2006. Um grupo de quatro estudantes – dois gajos pintarolas e duas raparigas boas como o milho – estão de férias em Portugal. Resolvem ir para a Serra de Sintra passear porque sim. Perdem-se. Cai a noite. Acendem uma fogueira e conversam um bocadinho. Cada casal se retira e manda uma queca, de forma a que o pessoal do cinema se distraia um bocado a ver as mamocas das miúdas enquanto não se inicia a carnificina.

Depois da queca, chegam à conclusão que estão cheios de fome e resolvem aventurar-se pela serra a ver se encontram um restaurante McDonalds. «No way man, McDonalds aqui?» – diz o estúpido do grupo. «Portugal está diferente, dude» – responde o companheiro de aventura, ajustando os óculos de intelectual. – «Ficou independente de Espanha quando entrou na European Union e agora é um país mais evoluído. Agora até já falam brasileiro.» Saber-se-á mais tarde que este tipo espertalhaço é filho do técnico da Bayer que, anos antes, tentou salvar os habitantes de Mafra e não conseguiu.

O grupo acaba por entrar inadvertidamente nos tais subterrâneos do convento e pronto, a partir de agora desenrola-se uma história do género Aliens Made in Portugal. Posso apenas dizer que no fim do filme os gajos morrem comidos pelos ratos e as meninas sobreviventes formam um convento de lésbicas nos subterrâneos e que uma sequela já está prometida.

Mas se querem saber a verdadeira história do mito urbano dos ratos gigantes no convento de Mafra, a leitura deste artigo é fundamental.

→ 01/12/2006 @2:53

Um fim de semana fantástico, é o que vos desejo

Gamado ao SirHaiva sem dó nem piedade…

→ 01/12/2006 @2:49

Boa malha, Microsoft

Os jornalistas das publicações especializadas de informática correram ao evento da Microsoft de anteontem. Além dos comes e bebes da praxe, a reunião servia para apresentar a oitava e a nona maravilha do mundo – Office 2007 e Windows Vista, respectivamente. O convite prometia uma noite em cheio e era ambíguo quanto ao que ia suceder. Eu sei disto porque também o recebi.
Claro que os jornalistas que lá foram estavam na expectativa de levar para casa as caixinhas do Vista e do Office. Mas os responsáveis da Microsoft Portugal (os tipos são uns sádicos) não tinham muito pressa: contrataram alguém para fazer de entrevistador e dizer umas larachas, e montaram um espectáculo, um falso talk-show onde se ia falando das novidades dos produtos.
A malta estava mas era em pulgas para sacar o Vista e o Office de borla e pirar-se do maravilhoso evento. Infelizmente, no final das festividades, depois de tantas horas de estóica resistência, a Microsoft presenteou os jornalistas com uma magnífica pen USB «não de 256MB, não de 512MB, mas de 1GB!» – e mais nada.
Foram ao evento, mas perderam-no de vista.
Já estou arrependido de não ter ido.