Uma Foto e uma Música [1]

Foto: Al Magnus (Claire de Lune)
Música: Claude Debussy (Et la Lune descend sur le Temple qui Fut)

Foto: Al Magnus (Claire de Lune)
Música: Claude Debussy (Et la Lune descend sur le Temple qui Fut)
Um verdadeiro amante de Pro Evolution Soccer – o melhor simulador de futebol do mundo – sabe que, por estas alturas, é preciso estar atento à saída de Winning Eleven, a versão japonesa do jogo, neste caso a versão 10.
É com o Winning Eleven que podemos conhecer, em primeira mão, as alterações e melhorias que vão aparecer na versão internacional, o nosso Pro Evolution Soccer. Portanto, jogar o Winning Eleven 10 é como fazer a antecipação – em seis meses – do que será a próxima versão do Pro Evolution Soccer, a 6.
Eu já joguei o Winning Eleven 10.
As alterações são mais subtis, mais perceptíveis para quem joga do que para quem vê. Por exemplo, um aspecto impressionante é a forma como controlamos em absoluto os movimentos e passes dos jogadores. Pelo que consegui ver, acabaram-se os passos transviados sem sabermos bem porquê: se queremos que faça um determinado passe, ele faz.
Outro aspecto diferente que notei é que os árbitros já não são tão permissivos: más notícias para os caceteiros do modo online, pois agora uma entrada mais ríspida já não leva uma advertência amigável do árbitro mas um cartão amarelo.
O cansaço nos jogadores é visível até na forma como os avançados têm mais dificuldade em escapar ao fora de jogo. Nota-se bem que alguns avançados já não recuperam posições com rapidez, deixando-se ficar à mama, em fora de jogo, e obrigando quem conduz a bola a esperar que o colega acorde.
Outro aspecto fantástico tem a ver com a marcação de livres. Estão a ver aquela situação do jogo real em que uma equipa está a perder 1-0 a dez minutos do fim e o jogador marca a falta o mais rapidamente possível? Carregando ao mesmo tempo nas teclas R1 e L1, ainda os defesas da equipa adversária estão a correr para retomar posições e já nós estamos a marcar a falta. Pormenor fantástico de realismo.
As fintas – como poderão ver neste vídeo – estão mais aprimoradas. Dado que a resposta do boneco aos nossos comandos se encontra muito melhorada, é muito mais fácil fintar (atenção: fácil, para quem tem jeito, pois quem tem dificuldades continuará a tê-las).
O jogo é mais arcade, mas é sempre assim nas versões japonesas. Quando chegar cá sob o título ProEvolution Soccer 6, é mais que certo que estas alterações de que vos falei permaneçam. Acreditem: o jogo tem uma fluidez que nenhum Fífia 2007 conseguirá alcançar.
Uma coisa que eu gostava muito era de conhecer as pessoas que decidem os limites de velocidade em certas estradas e de lhes perguntar quais os critérios utilizados – pronto, e também dizer-lhes o que penso deles. É que, até hoje, nunca consegui entender esses critérios sem ser por aleatoriedade. Ou uma certa dose de sadismo e regozijo pela miséria alheia Hehe! Até se vão passar quando levarem com uma multa em cima, os palhaços!. Se calhar, têm contratos com psicólogos e farmacêuticos, arranjando-lhes clientes em estado avançado de stress e consumidores compulsivos de Xanax.
Isto porque, grande parte das vezes, os limites de velocidade aplicados são absolutamente inconcebíveis, além de previsivelmente incumpríveis, pelo que não posso crer na aplicação de critérios mais rigorosos que a forma como acordou o chefe de secção numa bela manhã.
Por exemplo, quem conhece a estrada que liga Sintra ao Estoril, onde passo todos os dias, sabe do que falo. Para quê ampliar uma estrada que vai do Ramalhão à Cruz Vermelha sempre em linha recta, numa extensão de 5 ou 6 km com 4 rotundas pelo meio, com duas faixas de rodagem em ambos os sentidos, e depois impor como limite de velocidade 50 km/h? E não me venham com tretas a dizer que passa pelas localidades, porque apenas as contorna. Só pode ser para chatear os pobres coitados que ali passam todos o santo dia e que mais cedo ou mais tarde vão acabar por levar uma multa – conheço vários que já levaram – numa das muitas caças à mesma que por lá se fazem, porque se cumprirem a lei e circularem a 50 km/h se arriscam a ser assassinados – numa versão menos radical, insultados e enxovalhados – por condutores ligeiramente mais apressados.
Tudo isto nem seria tão mau se não fôssemos nós um povo tão pouco dado a acatar regras. O problema é que, se já temos dificuldade em aceitar regras que deveriam ser para cumprir, muito menos vamos respeitar aquelas que parecem absurdas aos nossos olhos. Porque ninguém cumpre regras que considera totalmente idiotas e desfasadas da realidade. E entra-se num ciclo vicioso, começa por não se cumprir uma e, por fim, mesmo aquelas que são justas e bem aplicadas, acabam por ser desprezadas.
E num país onde morrem Dinos todos os dias, onde toda a gente anda a abrir, a última coisa que se deveria criar são regras demasiado zelosas, que só servem para punir quem, geralmente, até as cumpre. Mas aí reside o eterno paradoxo Português.
Em Dezembro de 1982, Charlie Haden convidou Carla Bley e um excelente grupo de músicos de jazz para gravar um disco com versões jazzísticas de canções revolucionárias: da Guerra Civil Espanhola à intervenção norte-americana em El Salvador, da revolução dos cravos em Portugal aos movimentos de resistência contra a ditadura Pinochet, no Chile. No caso da revolução do 25 de Abril, a escolha, óbvia, recaiu em Grândola Vila Morena, que Zeca Afonso lançara em 1971 no disco Cantigas de Maio.
A militância esquerdista de Charlie Haden já era bem conhecida. Em 1968, tinha composto Song for Che – óbvia referência a Che Guevera – e, oito anos antes, ao lado do trompetista Don Cherry, participara no histórico Free Jazz, sob a batuta de Ornette Coleman.
Haden terá seguido os ensinamentos de outro grande contrabaixista de jazz, Charlie Mingus, que criou um tema – Fables of Faubus – ridicularizando o governador racista do Alabama e transmitindo a ideia de que o jazz também podia servir para marcar uma posição crítica, e política, na sociedade.
O título deste disco – Ballad of the Fallen – foi retirado do poema Milonga para un Fuzilado, encontrado junto ao corpo de um estudante morto num massacre na Universidade de San Salvador conduzido pela Guarda Nacional e sob o alto patrocínio das forças militares dos Estados Unidos: Não me perguntes quem eu sou/ou se me conheceste/Os sonhos que tive/crescerão, apesar de eu não estar mais aqui/Não estou vivo, mas a minha vida continua/porque outros continuarão a luta/novas rosas desabrocharão/e, no nome de todas estas coisas/tu encontrarás o meu.
Os músicos
Carla Bley toca piano e escreve os arranjos. Todos os membros da banda são, de uma forma ou de outra, activistas políticos: o trompetista Don Cherry (toca num instrumento de plástico, formato pequeno), o baterista Paul Motian (companheiro de Haden num quarteto de Keith Jarret), Dewey Redman (saxofonista tenor, ex-membro do grupo de Elvin Jones, baterista de Coltrane), Sharon Freeman (trompa), Mick Goodrik (guitarra), Jack Jeffers (tuba), Michael Mantler (trompete), Jim Pepper (sax/flauta), Steve Slagle (sax soprano, clarinete/flauta) e o trombonista Gary Valente, habitual companheiro musical de Carla Bley.
As músicas
Grândola Vila Morena
incluindo Introduction to People e The People United Will Never Be Defeated
Somos pequeninos. Pequeninos e inchados de orgulho do nosso país que, a bem ver, e comparado com outros, é uma bela merda. Achamos Portugal tão bom e tão bonito que nem nos damos ao trabalho de sair de cá e conhecer outras paragens. Nem tomamos consciência que, apesar do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém – tão bonitos! –, somos um país pouco monumental e grandioso, mesmo tendo a sorte de sermos contemplados por uma natureza generosa e uma luz difícil de imitar. É preciso sair – e nem para muito longe – para percebermos que a nossa Lisboa é pobrezinha e a Torre de Belém – tão bonita! – risível quando ao lado de muitas cidades europeias.
A nossa cozinha também é a melhor do mundo, inigualável. Algo que seja diferente do que estamos habituados não presta para nada. Somos pobrezinhos de espírito até na aventura gastronómica. Assim que passamos a fronteira é ver-nos desesperados à procura de um restaurante português para matar saudades do bacalhau que já não comemos há três dias ou de um MacDonalds porque neste, ao menos, jogamos pelo seguro e não saímos enganados. O que me dói quando me contam a maravilhosa descoberta de um restaurante português noutro canto do mundo e como essa descoberta foi o auge da viagem, a única vez onde se comeu bem, com tantos paladares exóticos e diferentes por descobrir.
Vamos a Paris e tiramos a fotografia com a Torre Eiffeil no fundo, mas não subimos lá acima porque cansa muito; passamos por Madrid mas nem sabemos onde fica a Praça Maior ou a Porta do Sol, que com a ajuda do GPS nem precisamos de olhar para o mapa, enquanto nos enfiamos em todos os El Corte Inglés por onde passamos a comprar recuerdos que é para isso que serve Espanha; vamos a Londres a trabalho e nem vemos o Big Ben, mas aproveitamos todos os luxuzinhos do hotel donde não saímos porque estamos cansados e tem hidromassagem. Gabamo-nos de ter estado em sítios onde podíamos nem sequer ter estado que teríamos visto o mesmo, mas pelo menos dá para impressionar com a colecção de bilhetes de avião. Viajamos mas não vemos, passeamos de olhos fechados recordando o nosso país, alienados a tudo o que poderíamos apreender se para isso estivéssemos abertos em vez de passarmos o tempo preocupados em encontrar um restaurante com comida o mais parecida com a portuguesa possível.
A apatia cultural é algo enraizado, o nosso sonho é Nordeste, Varadero e República Dominicana. O mais que conseguimos processar são uns grãos de areia e mar: gostamos mesmo é de praias, que sempre dá para comparar com as de cá e nos fazem lembrar tanto do nosso querido Portugal, é como se ainda lá estivéssemos.

Six Chix, de Rina Piccolo
A Pecola colocou o dedo na ferida no post que se segue: ai se existisse um botãozinho azul nas mulheres que os homens pudessem premir… Do género: Orgasmo? Yes, You Can. Just Press Play.
O problema é que, muitas vezes, esse botãozinho azul, quando premido, pode transformar-se no Ecrã Azul da Morte. Sim, rapaziada: tal como o Windows, as mulheres podem crashar sem razões aparentes. E, quando crasham, forçam-nos a carregar no botão Reset de forma a reiniciarmos a relação.
Nem falo dos casos extremos em que temos de formatar o disco rígido e reinstalar tudo outra vez: confiança, carinho, compreensão, respeito, enfim, essas coisas comezinhas que, à semelhança do software, podem ficar corrompidas e deixar de funcionar.
Mas é pena que as mulheres sejam tão complicadas porque, como sabem, o tal botãozinho até existe: chama-se clitóris. Mas não basta um gajo lançar-se sobre o clitóris como se fosse um touro. Isso está longe de ser suficiente. Mais: ouvi dizer (não posso confirmar) que o orgasmo feminino começa muito, muito antes de chegarmos à cama.
Portanto a questão é simples, pessoal: elas têm um botão, é verdade, mas insistem que a gente faça sempre as coisas de forma manual. Não há-de um gajo querer passar umas boas horas a comer tremoços e a falar da bola? Ao menos, ao marcar um golo, é como se tivesse tido um orgasmo. Não foi o ex-jogador Fernando Gomes que disse qualquer coisa assim? Se fosse uma mulher, que diria? Diria que sim, bem, não basta marcar um golo para ser como um orgasmo, a jogada toda tem de ser bonita. Mulheres? Joguem à Paciência com elas…

Pois é. O mito do orgasmo feminino está tão enraizado nos sonhos nocturnos masculinos como a esperança de receberem uma entrega vitalícia de cerveja a custo zero, mesmo à porta de casa (ainda não tinham acabado de ler a frase, aposto que já a maioria pensava “e receber a cerveja no sofá das mãos duma loiraça, não?”).
Pergunto-me: as mulheres serão seres assim tão complexos, que os homens nem são capazes de distinguir se o orgasmo existiu ou não? (Por esta altura alguns perguntar-se-ão, por outro lado, de que marca de cerveja estaríamos a falar.) Há várias formas de se ler um livro. Porém, é fulcral querer lê-lo. (Sim, era loura natural, sem ligas de origem.) O que me parece é que tudo o que pode ser um pau de dois bicos depressa vira mito nas multiplicações e divisões masculinas.
Antigamente – muito antes das complexidades filosóficas e turbulências feministas que povoam a nossa contemporaneidade – mulher que atingisse o orgasmo estava também a personificar a união e harmonia do casal, bem como a potência e virilidade do hombre, pois claro. Isto levar-nos-ia a uma longa conversa sobre ciência e religião, procriação versus prazer, mas poupo-vos a maçada, pois qualquer que seja o comportamento, se adverso ao pretendido pelos homens, ou revela a sua própria falibilidade (o que ninguém quer admitir, nem mesmo as mulheres), ou a falibilidade e complexidade feminina, assunto mais picante para as tardes de esplanada, enquanto se devoram uns tremoços com uns amigos.
Tudo o que é subtil vos põe os nervos em franja, confessem. Se houvesse um botãozinho azul que ligasse quando ela estivesse lá… Não temos. Mas por que será que os homens – ai, e que dizer dos nossos luso-latinos… – temem tanto o orgasmo (ou a falta dele)? Temem-no como a um vírus mortal, daqueles que mancham o corpo e a fama. Ignoram-no, remetendo-o para a condição de mito. Será porque, no fim de contas, o orgasmo diz adeus ao domínio masculino nas questões do prazer e, logo, da vida?
E se nós, mulheres (esqueçam a loira por um instante), comandássemos afinal o nosso prazer?
Sim, meus caros. (Palmadinha nas costas)
O orgasmo está lá. E é todo nosso.